Crítica | A Mosca da Cabeça Branca

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A Mosca (1986), de David Cronenberg, se consagrou como um clássico da ficção científica de terror ao apresentar personagens carismáticos, um clima opressor de um Body Horror que se tornou referência. A obra de Cronenberg se tornou tão emblemática, que muitos esquecem tratar-se de um remake de A Mosca da Cabeça Branca, filme de 1958, dirigido por Kurt Neumann. Ainda que ao longo dos anos, o filme de Neumann tenha sido ofuscado pelo remake, ele continua a ser uma obra de ficção científica de classe, capaz de provocar momentos de arrepio. A narrativa tem como ponto de partida a morte em circunstâncias misteriosas do cientista André Delambre (David Hedison), aparentemente morto pela esposa Helene (Patricia Owens), ao ter o corpo esmagado em uma prensa. A polícia não entende  por que a mulher cometeria tal crime, já que tinha um casamento feliz com o marido. Pressionada pelo cunhado François (Vincent Price), Helene passa a contar como as pesquisas de André sobre o desenvolvimento de uma máquina de teletransporte o conduziram ao seu trágico destino, depois de testar a máquina em si mesmo, sem perceber que havia uma mosca no aparelho.

Baseado no conto de George Langelaan, o roteiro de James Clavell nos revela desde o início qual será o desfecho do protagonista, utilizando o 1º ato para construir o mistério em torno das circunstâncias que levaram André à morte. O filme estabelece de forma adequada a confusão dos outros personagens em relação ao comportamento da viúva e sua estranha obsessão por encontrar uma mosca de cabeça branca. Ainda que o espectador já deva ter uma boa noção do que aconteceu com o cientista, esses minutos iniciais conseguem nos deixar intrigados sobre o que realmente ocorreu, o que é revelado em um grande flashback que ocupa a maior parte do longa-metragem.

O texto constrói os Delambré como uma família saudável, com André sendo um pai carinhoso para o filho Philippe (Charles Herbert), e um marido amoroso para a esposa, apesar de muitas vezes negligenciá-los em nome de suas pesquisas, surpreendendo-nos com a compreensão infinita de Helene diante disso (eram os anos 50, afinal). Embora as interações de André com a família o ponham sob uma luz positiva; o roteiro questiona a ética do cientista, que mesmo sendo descrito inicialmente como alguém que é contra experimentos com animais, não hesita, em um momento de empolgação, em usar a gata da família como cobaia em seus experimentos, numa das cenas mais angustiantes do longa. Diferente de muitos de seus pares, A Mosca da Cabeça Branca não vê o  protagonista entrar em uma onda de mortes após sofrer a sua transformação, pois o terror da obra se baseia na própria consciência da perda da humanidade de André. Neumann trabalha com o mistério em torno da transformação do cientista, revelando a sua mutação de forma homeopática, até o inevitável momento em que o capuz cai, revelando a enorme cabeça de mosca no lugar da cabeça humana. 

Deve-se elogiar a forma como o diretor cria suspense através de uma simples caça à mosca, já que o animal do título, tal como André, sofreu mutação, e entrar no teleportador junto com o inseto é a unica esperança de salvação do cientista. A busca desesperada de Helene para pegar a mosca é filmada de modo a dilatar o máximo possível a sensação de passagem de tempo diante das tentativas da mulher de capturar o inseto, o que é reforçado pelo desenho de som, que abre mão de qualquer trilha para se concentrar no ruído do bater de asas da mosca.Vale ressaltar que o diretor também utiliza o som para gerar efeito de choque no espectador, vide a citada cena do teste com a gata. Mas é claro que eu não poderia  falar da direção do filme sem citar a cena da aranha, próxima do desfecho, onde Neumann vale-se de planos fechados da mosca mutante e da aranha e da bizarra distorção da voz de um dos personagens para criar um verdadeiro cenário de pesadelo, que pode soar camp para alguns, mas que ao meu ver tem um efeito absolutamente perturbador e surreal.

O filme aborda o desconforto social gerado pela tecnologia do forma surpreendentemente atual através de Helene, que aponta que a rapidez cada vez maior dos avanços tecnológicos a assustam na mesma medida em que a fascinam. Essa dualidade, entretanto, acaba sendo tratada apenas no discurso, já que ao mesmo tempo que a história se apresenta como um conto preventivo sobre os riscos da curiosidade científica egoísta, também tenta colocar essa mesma curiosidade sob uma ótica mais positiva, especialmente através do elogio do personagem de Vincente Price, que fecha o longa. O problema é que a jornada dramática dos personagens não apoia essa dualidade da curiosidade científica posta no discurso, já que o calvário que o casal Delambre atravessa não gera nada de positivo.

Os efeitos especiais envelheceram relativamente bem. A máscara usada para criar a cabeça de mosca de André continua assustadora e nojenta (especialmente nos planos fechados), com a tromba móvel sendo um toque inventivo da equipe de maquiagem. O Technicolor dá ao projeto uma estética elegante, gerando um curioso contraste entre as cores vivas do jardim e da casa dos Delambre com os ambientes mais cinzentos do laboratório, e da fábrica da família, onde as grandes tragédias ocorrem. Essas mesmas cores também são usadas para valor de choque, como o vermelho vivo do sangue que cobre a prensa onde o corpo de André é encontrado no começo do filme, ou o intenso caleidoscópio de cores frias que banha o laboratório a cada vez que a máquina de teletransporte é ativada.

A Mosca da Cabeça Branca  continua a ser um clássico da ficção científica de terror, trazendo algumas cenas que ainda são capazes de provocar arrepios no público. A elegância com que Kurt Neumann nos apresenta essa trama Kafkiana é digna de aplausos, não só por seu ótimo trabalho de direção, mas também por contar com uma equipe técnica que imprime drama e horror em uma história que, nas em mãos erradas, poderia ter se tornado risível. Ainda que seja mais comportado do que muitos podem esperar (e pouco movimentado até mesmo para os padrões da época de seu lançamento), o filme ainda consegue provocar uma experiência cinematográfica enervante, pois os miados de um gato reduzido a átomos e os gritos de socorro da diminuta mosca do título devem permanecer por um bom tempo com o público após os créditos subirem.

A Mosca da Cabeça Branca (The Fly)- Estados Unidos, 1958
Direção: Kurt Neumann
Roteiro: James Clavell (baseado em conto de George Langelaan)
Elenco: David Hedison, Patricia Owens, Vincent Price, Herbert Marshall, Kathleen Freeman, Betty Lou Gerson, Charles Herbert, Torben Meyer, Eugene Borden.
Duração: 94 min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.