Crítica | A Mula

“Eu era um pai terrível, um marido terrível. Eu desperdicei a minha chance. Eu não mereci perdão.”

Quanto mais coisas fazemos na vida, mais coisas sentimos que não fizemos. Earl Stone (Clint Eastwood) cruzou quarenta e um dos cinquenta estados norte-americanos e viveu uma vida como poucos, permeada por amigos, danças e festas. Horticultor celebrado nacionalmente, esse notório personagem cinematográfico, mas que realmente existiu, permaneceu grandes períodos distante de sua casa. Agora arrependido, Earl começa a dedicar parte da sua velhice para servir de mula a um cartel de drogas, procurando conviver mais com a família que abandonara. Devia ter amado mais. Devia ter chorado mais. Devia ter arriscado mais. Em formato de longa-metragem, esse é um epitáfio para Earl Stone, pautando-se em seus arrependimentos e em sua tardia jornada redentora.

E também é o “epitáfio” de Clint Eastwood. O cineasta continua ativamente celebrando o cinema, com décadas de carreira, e realizando mais e mais obras, apesar da sua idade já ser avançada. Quando lançou Gran Torino, em 2008, disse que não mais atuaria. Retornou a um papel em 2012 e, agora, a um outro, justamente o de protagonista em um projeto que comenta tanto sobre o que mais poderia ter sido feito na vida de um horticultor. Ser um criminoso pela primeiríssima vez? Além disso, o que mais poderia acontecer na vida de um cineasta que tanto interpretou personagens com morais questionáveis? Eastwood retoma o seu anti-heroísmo costumeiro, recorrentemente subvertido, agora como o propósito, não mais o meio para alcançar sua salvação.

Vermos o artista interpretando um personagem tão puro e ingênuo, portanto adentrando um mundo secundário por pura pressão, necessidade ou manipulação, tornaria o projeto auto-indulgente demais. Aos indecisos sobre o que esperar, esse não é o caso de A Mula. Se Eastwood quer comentar algo sobre a sua própria carreira, conduz sua mensagem de uma maneira sincera, sem exagerar no suposto arquétipo central. As tantas graças do protagonista, enganando policiais em cenas inspiradas, são acompanhadas por uma sagacidade muito poderosa. Mesmo assim, esse é um personagem que mantém certa jovialidade carismática em seu comportamento, quase que o completo oposto de Walt Kowalski, o fascinante protagonista ranzinza do excelente Gran Torino.

Eis um homem que confessa pecados parecidos aos de Walt, como o distanciamento em relação as suas crianças, mas que é completamente contra sua própria absolvição. Em várias cenas, por exemplo, Earl Stone é acompanhado por garotas e se entusiasma com elas. A câmera, nesses momentos, é provocativa demais, ofensivamente intencionada, sem a mesma presumida inocência com que Eastwood comanda as primeiras cenas da obra. Um homem que cuida de flores pode se comportar assim? Essa não é a redenção comum aos personagens do cineasta. Enquanto olhamos para a trajetória do traficante, temos um criminoso sem remorsos em sustentar certos sonhos, seus e dos outros, por meio de dinheiro criminoso. Uma piscina precisa ser reformada e é.

Mas pelo ponto de vista do que acontece com a sua família, a jornada é muito redentora até e consideravelmente entristecida. A própria filha de Eastwood, Alison Eastwood, é quem interpreta a filha de Earl Stone, que não conversa com o seu pai há mais de uma década. Essa pessoalidade é inerente. São duas as histórias sendo contadas e, em consequência disso, narrativas com qualidades distintas. A vertente mais bem sucedida do filme é a principal, o verdadeiro foco de A Mula. E o feito de Clint Eastwood estar novamente protagonizando um filme comandado por si mesmo é importante, pois esse é um dos projetos mais sensíveis do artista em termos interpretativos. O artista fomenta um tom cômico gracioso, entrecortando-o pelo amargo conteúdo.

Em uma outra instância, A Mula é uma obra aliando-se constantemente a uma noção do que é ultrapassado para um homem de quase noventa anos. Se Kowalski insultava incessantemente as pessoas por quem, curiosamente, se importava, Stone participa de situações que insistem em sua transformação, mesmo sendo, para alguns pensantes, uma mudança meramente semântica. Tanto se importa pelos outros que deixa-se envolver, sem retirar a sua máscara, com o agente que o persegue, interpretado por Bradley Cooper. O ex-combatente continua criticando os celulares, pensando que a tecnologia é prejudicial – como igualmente fazia em Gran Torino -, mas precisa se acostumar com esse mundo em que as interações atuais são outras que não as de antigamente.

Já o roteiro, escrito por Nick Schenk e Dave Holstein, não contribui muito para o desenvolvimento narrativo dessa trama investigativa. Nem Clint Eastwood realmente se importa com esses meandros, conduzindo várias sequências com uma sobriedade apressada. O núcleo centrado em Bradley Cooper não convence. E o drama, encaminhado por outros caminhos que não seja a interpretação de Eastwood, mais minimalista, ganha doses extremas de verborragia e inveracidade. Questões passadas são expostas sem muita sensibilidade. Contudo, mesmo com momentos menos honestos por parte da atuação de Dianne Wiest, ainda é possível assimilar que o amor entre a personagem e Earl Stone, divorciados, permanece, apesar dos contratempos prévios.

A Mula realmente possui o seu cerne mais moralista, sobre os nossos parentes estarem acima da nossa carreira, sem importar o quanto seja provido financeiramente por nós. Uma moral, no entanto, que é sincera ao ponto de ultrapassar as barreiras do maniqueísmo, entre quem é policial e quem é bandido. Justamente os contrapontos tão irônicos, anti-moralistas, quase transformando em imbecis as forças policiais, que tornam essa trajetória mais concreta. Clint Eastwood se importa com personagens, com mocinhos e anti-heróis que não trajam necessariamente arquétipos. E se o protagonista termina colecionando ainda mais arrependimentos, que seja. Sempre terminaremos querendo mais. Earl e Clint ao menos quiseram, antes, amarrar pontas soltas, concluir seus arcos.

A Mula (The Mule) – EUA, 2018
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Nick Schenk, Dave Holstein
Elenco: Clint Eastwood, Bradley Cooper, Laurence Fishburne, Michael Peña, Dianne Wiest, Andy García, Alison Eastwood, Taissa Farmiga, Ignacio Serricchio, Loren Dean, Victor Rasuk
Duração: 116 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.