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Crítica | A Mula

por Gabriel Carvalho
463 views (a partir de agosto de 2020)

“Eu era um pai terrível, um marido terrível. Eu desperdicei a minha chance. Eu não mereci perdão.”

Quanto mais coisas fazemos na vida, mais coisas sentimos que não fizemos. Earl Stone (Clint Eastwood) cruzou quarenta e um dos cinquenta estados norte-americanos e viveu uma vida como poucos, permeada por amigos, danças e festas. Horticultor celebrado nacionalmente, esse notório personagem cinematográfico, mas que realmente existiu, permaneceu grandes períodos distante de sua casa. Agora arrependido, Earl começa a dedicar parte da sua velhice para servir de mula a um cartel de drogas, procurando conviver mais com a família que abandonara. Devia ter amado mais. Devia ter chorado mais. Devia ter arriscado mais. Em formato de longa-metragem, esse é um epitáfio para Earl Stone, pautando-se em seus arrependimentos e em sua tardia jornada redentora.

E também é o “epitáfio” de Clint Eastwood. O cineasta continua ativamente celebrando o cinema, com décadas de carreira, e realizando mais e mais obras, apesar da sua idade já ser avançada. Quando lançou Gran Torino, em 2008, disse que não mais atuaria. Retornou a um papel em 2012 e, agora, a um outro, justamente o de protagonista em um projeto que comenta tanto sobre o que mais poderia ter sido feito na vida de um horticultor. Ser um criminoso pela primeiríssima vez? Além disso, o que mais poderia acontecer na vida de um cineasta que tanto interpretou personagens com morais questionáveis? Eastwood retoma o seu anti-heroísmo costumeiro, recorrentemente subvertido, agora como o propósito, não mais o meio para alcançar sua salvação.

Vermos o artista interpretando um personagem tão puro e ingênuo, portanto adentrando um mundo secundário por pura pressão, necessidade ou manipulação, tornaria o projeto auto-indulgente demais. Aos indecisos sobre o que esperar, esse não é o caso de A Mula. Se Eastwood quer comentar algo sobre a sua própria carreira, conduz sua mensagem de uma maneira sincera, sem exagerar no suposto arquétipo central. As tantas graças do protagonista, enganando policiais em cenas inspiradas, são acompanhadas por uma sagacidade muito poderosa. Mesmo assim, esse é um personagem que mantém certa jovialidade carismática em seu comportamento, quase que o completo oposto de Walt Kowalski, o fascinante protagonista ranzinza do excelente Gran Torino.

Eis um homem que confessa pecados parecidos aos de Walt, como o distanciamento em relação as suas crianças, mas que é completamente contra sua própria absolvição. Em várias cenas, por exemplo, Earl Stone é acompanhado por garotas e se entusiasma com elas. A câmera, nesses momentos, é provocativa demais, ofensivamente intencionada, sem a mesma presumida inocência com que Eastwood comanda as primeiras cenas da obra. Um homem que cuida de flores pode se comportar assim? Essa não é a redenção comum aos personagens do cineasta. Enquanto olhamos para a trajetória do traficante, temos um criminoso sem remorsos em sustentar certos sonhos, seus e dos outros, por meio de dinheiro criminoso. Uma piscina precisa ser reformada e é.

Mas pelo ponto de vista do que acontece com a sua família, a jornada é muito redentora até e consideravelmente entristecida. A própria filha de Eastwood, Alison Eastwood, é quem interpreta a filha de Earl Stone, que não conversa com o seu pai há mais de uma década. Essa pessoalidade é inerente. São duas as histórias sendo contadas e, em consequência disso, narrativas com qualidades distintas. A vertente mais bem sucedida do filme é a principal, o verdadeiro foco de A Mula. E o feito de Clint Eastwood estar novamente protagonizando um filme comandado por si mesmo é importante, pois esse é um dos projetos mais sensíveis do artista em termos interpretativos. O artista fomenta um tom cômico gracioso, entrecortando-o pelo amargo conteúdo.

Em uma outra instância, A Mula é uma obra aliando-se constantemente a uma noção do que é ultrapassado para um homem de quase noventa anos. Se Kowalski insultava incessantemente as pessoas por quem, curiosamente, se importava, Stone participa de situações que insistem em sua transformação, mesmo sendo, para alguns pensantes, uma mudança meramente semântica. Tanto se importa pelos outros que deixa-se envolver, sem retirar a sua máscara, com o agente que o persegue, interpretado por Bradley Cooper. O ex-combatente continua criticando os celulares, pensando que a tecnologia é prejudicial – como igualmente fazia em Gran Torino -, mas precisa se acostumar com esse mundo em que as interações atuais são outras que não as de antigamente.

Já o roteiro, escrito por Nick Schenk e Dave Holstein, não contribui muito para o desenvolvimento narrativo dessa trama investigativa. Nem Clint Eastwood realmente se importa com esses meandros, conduzindo várias sequências com uma sobriedade apressada. O núcleo centrado em Bradley Cooper não convence. E o drama, encaminhado por outros caminhos que não seja a interpretação de Eastwood, mais minimalista, ganha doses extremas de verborragia e inveracidade. Questões passadas são expostas sem muita sensibilidade. Contudo, mesmo com momentos menos honestos por parte da atuação de Dianne Wiest, ainda é possível assimilar que o amor entre a personagem e Earl Stone, divorciados, permanece, apesar dos contratempos prévios.

A Mula realmente possui o seu cerne mais moralista, sobre os nossos parentes estarem acima da nossa carreira, sem importar o quanto seja provido financeiramente por nós. Uma moral, no entanto, que é sincera ao ponto de ultrapassar as barreiras do maniqueísmo, entre quem é policial e quem é bandido. Justamente os contrapontos tão irônicos, anti-moralistas, quase transformando em imbecis as forças policiais, que tornam essa trajetória mais concreta. Clint Eastwood se importa com personagens, com mocinhos e anti-heróis que não trajam necessariamente arquétipos. E se o protagonista termina colecionando ainda mais arrependimentos, que seja. Sempre terminaremos querendo mais. Earl e Clint ao menos quiseram, antes, amarrar pontas soltas, concluir seus arcos.

A Mula (The Mule) – EUA, 2018
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Nick Schenk, Dave Holstein
Elenco: Clint Eastwood, Bradley Cooper, Laurence Fishburne, Michael Peña, Dianne Wiest, Andy García, Alison Eastwood, Taissa Farmiga, Ignacio Serricchio, Loren Dean, Victor Rasuk
Duração: 116 min.

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18 comentários

José Werber 30 de junho de 2019 - 21:26

Um feijão com arroz bem feito. Confesso que vi só pelo Clint. O filme é esquecível.

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Al_gostino 25 de março de 2019 - 09:57

Assisti ontem e gostei demais…filme arroz com feijão bem feito, divertido com personagens carismáticos…Clint é meu ídolo, dentro e fora da tela, com suas atuações, direção, textos e pontos de vista

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Gabriel Carvalho 25 de março de 2019 - 11:21

Fora da tela ele não é meu ídolo não. Mas isso está na divergência de pontos de vistas mesmo. Valorizo que esteja trabalhando com quase 90 anos. É admirável.

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Al_gostino 25 de março de 2019 - 18:00

Exato! ABs

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Al_gostino 28 de março de 2019 - 10:03

Eu gosto dele, dentro da tela principalmente e fora pela sua visão polícia que bate bastante com a minha…ou seja, quando eu “crescer” quero ser igual ele rsrssr abs

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Rafael Oliveira 23 de março de 2019 - 15:24

Acho impressionante quanta gente prontamente ignorou as cenas de “humor” com as motoqueiras lésbicas e com a família negra. Pior ainda, me apontam essas cenas como uma necessidade cinematográfica aos objetivos de Eastwood. Faça-me o favor…

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Gabriel Carvalho 25 de março de 2019 - 11:21

O que você acha dessas cenas?

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Nois Critica Mermo 29 de julho de 2019 - 00:21

Que tinha que aparecer alguém pra problematizar.

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Ana 20 de fevereiro de 2019 - 16:39

Kael, a meu ver a semelhança a que faz referência é uma identidade. Eastwood é coerente em sua obra. É americaníssimo, conservador, e preza o sentimentalismo. Sempre expõe seu modo de ver, as vezes fazendo bons filmes com aquele sobre os caubóis idosos. A minha crítica a seu trabalho é ele ser radicalmente americano, regionalista, digamos assim. Não acho que seus filmes transcendam à “realidade”norte americana. Na velhice faz um filme em que quer nos convencer que tenta “ver” a tal da “modernidade”, mas não abre mão do seu conservadorismo. Daí que modernidade se resume a imigrantes traficantes, mulheres masculinizadas, e internet. Seu sentimentalismo e pieguismo em relação aos valores tradicionais persistem, são mesmo enaltecidos por ele. Daí que o personagem (na tela e na vida) não muda, não vê novos horizontes. E os sentimentos que cultiva , para mim, permanecem artificias, forçados. Seus filmes não me intrigam. Me entretêm. (nada contra, podem ser bons filmes) Vejo filmes chineses, japoneses, europeus, canadenses, filmes do leste europeu, etc, isto é de culturas tão diversas e distantes da minha, mas que me tocam, mexem com minha visão do mundo, me fazem pensar. Enfim, tratam de questões universais. Não sei se me expressei bem, mas me empolguei pela oportunidade de conversar com outros que gostam de cinema, arte em geral. Com o nível do pessoal do Plano Crítico. abs.

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Kael Ladislau 26 de fevereiro de 2019 - 17:37

Oi, Ana. Eu adorei seu ponto de vista – mais profundo do que o meu – sobre a obra de Clint. E faço coro, apesar de ser um fã de western e, quase que consequentemente, de Eastwood.

Eu faço uma ressalva enorme quando me declaro fã do ator/diretor, porque sei o quanto seus pontos de vistas na vida pessoal se diferem para o meu. E sei ainda o quanto ele coloca isso em tela, transcende de uma opinião apenas. Enfim.

Eu gostei do filme, mas sei que não é o seu melhor e sei, mais ainda, que Eastwood nesses aspectos, é uma pessoa ultrapassada.

Um abraço! 🙂

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Kael Ladislau 20 de fevereiro de 2019 - 08:34

Bom texto, Gabriel! Vi o filme ontem e muito do que percebi está nesse post. Mas se me permite brincar mais:

1/ Escrevendo uma crítica minha, percebi a singela semelhança entre o nome Earl Stone com Eastwood (stone, pedra. wood, madeira). Sei que deve ser um delírio, mas vi sentido quando pensei em outra coisa:

2/ Senti muita semelhança do protagonista com o próprio clint: um homem meio durão, com senso de humor e, ainda que resistente a modernidades como a internet e aceitação de minorias (as “sapatão da motocicleta”) e certos termos reprovados no EUA (como a palavra “nigga”), Earl e Eastwood tentam se moldar a esse novo mundo.

3/ E, ainda que um homem de quase 90 anos sinta essa mudança acontecendo, não é fácil aceitá-la. Tanto que ele vai a falência com seu negócio em lírios. Mas não basta se entregar e ver as coisas acontecendo com a mesma mentalidade de antes. Tem que se adaptar e aceitar ser “ultrapassado” com essas questões. Basta ver o esforço de Earl em usar o telefone, de entendê-lo e tbm em se aceitar como um “homem” sem filtro: basta entender aquele final de diálogo na lanchonete entre ele e o personagem de Cooper. Por isso, num certo ponto, Earl Stone é nada mais, nada menos que o próprio Eastwood.

4/ Me permita apenas uma correção no seu bom texto, Gabriel: no 5º parágrafo vc cita “Earl Sutton” quando é “Earl Stone”, como você bem diz no restante do texto.

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Ana 19 de fevereiro de 2019 - 20:42

Gabriel, achei o filme piegas. O personagem ao se tornar mula não é ingênuo em momento algum, nem antes em sua vida. Essa é a parte que acho interessante no roteiro. Mas o resto acho chato, moralista. Admiro Clint Eastwood por estar na ativa com toda a sua idade avançada. Como diretor e ator. Fez ótimos filmes, sem dúvida, sempre mostrando mto bem valores e conduta do americano comum, o “country”tão americano. Também acho interessante a coisa de atores mais velhos atuarem, os encontros dos personagens mais idosos, a vontade do entretenimento a todo vapor enqto estamos vivos. Mas lição de moral sem sutileza… não me intriga, não me toca.

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Alice Olivia 19 de fevereiro de 2019 - 11:38

Ninguém mais fala do trabalho do Clint só porque ele abertamente votou no Trump.

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Luiz Santiago 19 de fevereiro de 2019 - 14:13

Todos os portais relevantes de cinema que conheço, no Brasil e fora do Brasil, abordaram os dois últimos filmes dele, ambos originalmente lançados em 2018. Em 2017 ele não lançou nada. Não vejo nem silêncio e nem “efeito Trump” aí. O posicionamento político do Clint Eastwood é amplamente conhecido há décadas e isso nunca o tirou de cena, nem antes, nem agora.

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Gabriel Carvalho 19 de fevereiro de 2019 - 14:28

Como pode ver com os meus textos dos dois últimos filmes do Clint, não tenho problema algum com esse posicionamento político do cara.

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Samoth Haugen 16 de fevereiro de 2019 - 15:53

@disqus_4hRtbdnvZp:disqus @Xjjxwwwabzz999:disqus Filmes com o Sr. Eastwood sempre merecem ser vistos.

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O Homem do QI200 15 de fevereiro de 2019 - 20:02

Tem Clint Eastwood, vou ver.

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Gabriel Carvalho 16 de fevereiro de 2019 - 15:53

Opa KKKKKK Não tá errado não

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