Crítica | A Mulher do Fazendeiro

estrelas 1,5

É quase impossível acreditar que um filme como A Mulher do Fazendeiro tenha a assinatura de Alfred Hitchcock como diretor. Quem conhece a fase silenciosa do Mestre, sabe que ele não teve um começo de carreira tão louvável quanto sua “fase sonora” no Reino Unido ou nos Estados Unidos. Também é sabido que o cineasta tinha grande dificuldade em finalizar seus filmes, um problema que foi se dissipando a cada novo projeto, sendo corrigido, enfim, a partir de Chantagem e Confissão (1929). Mas em alguns momentos desse início de jornada cinematográfica ele errou feio a mão na condução de um filme e A Mulher do Fazendeiro é um exemplo gritante disso.

Nessa fase de experimentos cinematográficos, Hitchcock não só tentou explorar ao máximo os recursos técnicos de sua época como também aceitou dirigir um grande número de roteiros, independente do gênero dos filmes; assim, podemos identificar obras do diretor em ambientes dramáticos bem diferentes daqueles que lhe deram fama. A Mulher do Fazendeiro, por exemplo, é uma comédia romântica.

O filme conta a história do Sr. Sweetland, um fazendeiro um tanto orgulhoso que, ao se ver viúvo, acredita que conseguirá logo uma outra esposa, pois pensa que todas as mulheres solteiras da região estão loucas por ele. Por se tratar de um filme britânico do final dos anos 20, não é de se espantar esse tipo de argumento angular em torno do personagem masculino e dessa sua visão inicial a respeito das mulheres (aos poucos corrigida). É até difícil apontar o que exatamente torna a obra tão ruim como conjunto, uma vez que seus elementos isolados podem até funcionar razoavelmente bem.

De início, o ritmo parece uma admirável sequência de eventos marcados pela ação de um personagem “X”, que ainda não sabemos se protagonista ou coadjuvante. Esse ponto de partida é bem fácil de ser identificado, mesmo que não haja intertítulos explicativos, como era comum no cinema silencioso e algo que Hitchcock odiava, por isso evitava ao máximo usar as cartelas de legenda. A viuvez de Sweetland é imediatamente vista em paralelo às ações do carrancudo e reclamão Churdles Ash, que serve de ponto cômico fixo para o filme, mas funciona apenas em um momento isolado, sendo, na maior parte das vezes, um personagem de atitudes forçadas e até inconvenientes.

Ao enviuvar, o Sr. Sweetland sente o peso da solidão, principalmente após o casamento da filha. O roteiro então compartilha com o público as ações do fazendeiro viúvo, o cotidiano na casa da fazenda (inclusive os cachorros, um dos poucos momentos preciosos do filme) e a braveza de Churdles Ash, fazendo caras e bocas, jogando chá e água fora, ou passando o conteúdo da xícara para o pires e então bebendo dali (qual a necessidade disso?).

Expostas essas questões, notamos que um dos problemas do filme está no trato com os personagens e o modo como o roteiro se esforça desnecessariamente para encaixar as inúteis idiossincrasias de cada uma deles. Essas investidas tendem a piorar quando as mulheres entram em cena com algum destaque – inclusive Araminta, a empregada. Mesmo que visualmente e em concepções particulares o filme alcance bons resultados estéticos e rítmicos (as festas, alguns momentos das visitas do Sr. Sweetland às pretendentes, o relacionamento dos empregados e certos planos abertos em torno da propriedade), o desencontro e incoerências de outros personagens e suas ações põem tudo a perder. A obra chateia tanto o espectador com a postura de Churdles Ash ou a via crucis bobinha do fazendeiro para encontrar seu grande amor (que estava, como não podia deixar de ser, debaixo de seu nariz), que não resta muita coisa para elogiar.

A sessão de A Mulher do Fazendeiro foi uma das mais penosas que eu já tive. O filme parece não ter fim (apesar de não ser muito longo) e quanto mais divergentes as coisas parecem na tela, com momentos muito bons e momentos muito, muito ruins, a paciência do espectador se esgota e sobra apenas o cansaço. Fico até em dúvida se elejo este como o pior filme de Hitchcock ou se o coloco ao lado das duas aberrações propagandísticas que ele dirigiu em 1944: Bon Voyage e Aventure Malgache. Pelo menos a gente sabe que o diretor faria uma grande comédia de tom romântico alguns anos depois, o divertido e inteligente Casal do Barulho (1941). Nada como a experiência para trazer bons resultados artísticos.

  • Crítica originalmente publicada em 06 de novembro de 2013. Revisada para republicação em 09/09/19, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

A Mulher do Fazendeiro (The Farmer’s Wife) – UK, 1928
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Eliot Stannard (baseado na peça de Eden Phillpotts).
Elenco: Jameson Thomas, Lillian Hall-Davis, Gordon Harker, Gibb McLaughlin, Maud Gill, Louie Pounds, Olga Slade, Ruth Maitland, Antonia Brough
Duração: 95 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.