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Crítica | A Mulher Invisível (1940)

por Iann Jeliel
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A Mulher Invisível

Mudar a perspectiva para o feminino na premissa de O Homem Invisível, especialmente na década de 40, dava brecha a possibilidades revolucionárias, especialmente se fossem direcionadas da mesma forma que o primeiro clássico, em respeito aos dilemas da quebra ética envolvendo a invisibilidade e até onde ela seria justa dentro de um revanchismo ao contexto social de submissão da mulher. Lógico que se tratando de um spin-off, ou uma continuação não assumida do universo de monstros da Universal, ou seja, um filme que buscava chegar ao grande público, esse potencial seria relativizado ao extremo, a ponto de tirar o filme do gênero terror e adentrá-lo muito ou quase totalmente na comédia escrachada, acompanhada daquele típico romance extravagante da era clássica hollywoodiana. Olhando por esse lado mais inocente, é possível aproveitar certos preceitos ousados de A Mulher Invisível, principalmente os de acordo com a abordagem motivacional primária que dá empuxo à história.

A comédia pode não ser um meio crítico tão afetivo em termos de impacto para traçar um comentário social extremista, pelo menos não tanto dentro da fantasia científica da invisibilidade, entretanto o terço inicial consegue de forma intencional ou não criar o gatilho dentro de uma problemática que deveria ter sido explorada no filme todo. A protagonista é modelo e se adapta a condições de trabalho inaceitáveis, um tratamento hostil de seu chefe que não enxerga nela ou nas outras uma pessoa, e sim um manequim para colocar suas roupas e vendê-las, num discurso assumidamente objetificador do corpo feminino. Mais tarde, quando ela encontra o cientista maluco que precisa de uma cobaia para seus projetos invisíveis, a primeira coisa que ela pensa para aceitar é num meio de se vingar do seu chefe, um ótimo ponto de partida.

Diante da solução adotada de como ela faz isso, é até explicável a abordagem cômica mais leve do filme. Melhor do que dar o troco pela mesma moeda é desarmar a pessoa e colocá-la no lugar que ela deveria sem precisar forçá-la, ou ao menos nesse caso, forçá-la disfarçadamente até o peso na consciência chegar. Por mais que, como dito, seja uma cena até infantil de tão inocente – comentário nem parece propriamente intencional às vezes, e tenho minhas dúvidas se é ou não –, é bastante simbólico como ato de resistência, pensando que poderia partir de qualquer mulher, realmente invisível naquele contexto social. Tirando essa sequência inicial, o filme posteriormente acaba bagunçando sua própria narrativa, construindo uma espécie de aventurinha aleatória somente para ter a desculpa de adentrar um personagem masculino de destaque à trama principal.

Um daquele típico homem egoísta e orgulhoso que se aproxima da mulher com base em atritos, construindo aquele velho romance dos opostos que se atraem. Inclusive, não vejo problema algum nesse tipo de construção, na verdade, vários dos grandes romances da história se entrelaçam nessa característica – só para citar dois exemplos da mesma época: E o Vento Levou e Aconteceu Naquela Noite -, que na real, faz o processo inevitável de união ser ainda mais estimulante de ser acompanhado. Contudo, é preciso primeiro que exista química entre o casal desde o início, e segundo, que haja coerência com a narrativa, esse filme não tem nem um nem outro. E além de surgido com extrema conveniência, seu desenvolvimento faz com que o homem roube o protagonismo, despertando a grande incoerência do filme.

A partir daí, a direção masculina de A. Edward Sutherland revela um certo fetichismo escondido no seu mantra de inocência, pensando principalmente na escolha com efeitos visuais, em como eles procuram salientar as curvas da protagonista e não a revelar em momentos oportunos para situar o telespectador em seu ambiente geográfico. Fazendo uma analogia ao início, é como se o protagonismo dado a ela estivesse interligado também a um chefe, no caso, o diretor do filme. Ainda que ele dê espaço para ela ser a estrela, isso está sedimentado em uma exposição corporal exatamente remetente a um manequim, como a própria era tratada em seu trabalho. Diante disso, fica difícil pensar que aquela ótima sequência crítica e divertida tenha sido pensada nesses dois polos, sendo executada somente no segundo, que acidentalmente atingiu o primeiro, possibilitando o gancho universal que a capa leve promete ser acompanhável.

Claro, é preciso se analisar o filme enquanto produto do seu tempo, mas também é preciso pensar em como ele reage a ele, nesse caso, de forma incomodamente passiva perante suas possibilidades. Ao menos o gatilho foi criado, e certamente ele teve uma importância para que hoje, mais de 80 anos depois, essa história possa ser recontada por Elizabeth Banks – a mesma da nova versão de As Panteras (pelo visto ela tem um ótimo olho para antigos universos de ótimo potencial para contextos políticos atuais) –, com agenda marcada possivelmente seguindo a linha da versão de 2020, transformando a invisibilidade social da mulher num mote relevante a ser discutido, e não apenas para fazer uma piada.

A Mulher Invisível (The Invisible Woman / EUA, 1940)
Direção:
A. Edward Sutherland
Roteiro: Robert Lees, Frederic I. Rinaldo, Gertrude Purcell, Curt Siodmak, Joe May (Baseado na obra literal de H.G Wells).
Elenco: Virgínia Bruce, John Barrymore, John Howard, Charles Ruggles, Oskar Homolka, Edward Brophy, Donald MacBrid, Thurston Hall.
Duração: 72 minutos

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