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Crítica | A Mulher na Janela

por Kevin Rick
4146 views (a partir de agosto de 2020)

Baseado no livro homônimoA Mulher na Janela é um filme com um pedigree completamente absurdo, desde o elenco composto por Amy Adams, Gary Oldman, Julianne Moore, Anthony Mackie, até a equipe criativa por trás das câmeras com o diretor Joe Wright (O Destino de uma Nação, Orgulho e Preconceito), o roteirista/dramaturgo Tracy Letts e o cinematógrafo Bruno Delbonnel (O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, Harry Potter e o Enigma do Príncipe). É o tipo de filme que já nasce com expectativas altíssimas, mas, infelizmente, a aguardada adaptação é um grande suspense psicológico desordenado, provavelmente com culpa parcial nas várias refilmagens que a película recebeu – nunca é um bom sinal.

A premissa da fita acontece em torno de Anna Fox (Amy Adams), uma psicóloga agorafóbica que passa seus dias espiando os vizinhos e misturando álcool e remédios para anestesiar algum tipo de trauma regresso que a colocou nesse âmbito recluso. E o filme continua essa caminhada contemporânea de thriller doméstico e suspense com uma protagonista feminina que vem crescendo no meio literário/cinematográfico, como, por exemplo, o sensacional Garota Exemplar e o bem menos sensacional A Garota no Trem, mas é, acima de tudo, influenciado por suspenses psicológicos dos anos 50/60, em especial Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock.

A direção de Joe Wright assume por completo a homage a Hitchcock, e falo a título de influência e não comparação, mas o cineasta se prova um grande amador no sentido de encontrar uma identidade própria e trazer uma unidade coesa à sua decupagem. O estilo manda em A Mulher na Janela, e a obra é realmente deslumbrante e estilosa, desde os shots que acompanham a casa, levemente me lembrando Roma nos planos que acompanham a personagem de uma certa distância e prezam pela demonstração geral da ambientação, além de uma cinematografia estonteante, recheada de uma paleta de cores que preenchem um sentimento onírico, até fantasioso. Mas a mão da direção se perde ao atirar para diferentes vertentes, nunca se aprofundando em nenhuma das tentativas.

Isso é melhor visto em como Wright pega o voyeurismo e o joga pela janela (he, he). A obra tem pouquíssimas sequências de Anna realmente bisbilhotando seus vizinhos, e mesmo quando eles existem, Wright peca na construção da observação como meio de criar suspense, dúvida ou culpa, já que, aparentemente, o intuito é transpor uma risível dificuldade de Anna em tirar fotos ou olhar pela janela sem ser descoberta. Essas situações realmente me tiraram do filme, pois destroem por completo o sentimento de curiosidade que é envolvida pela paranoia e a investigação.  E eu acho que a direção de Wright se torna ainda mais estranha ao tentar amarrar o mal-feito voyeurismo com o mal uso de seu ambiente contido.

Muitas vezes senti que o diretor tenta “dirigir demais” nas sequências dentro da casa, como os vários shots desnecessários da escadaria ou a pegada teatral quando os personagens estão no mesmo recinto. A tentativa de criar tensão se perde na beleza da cinematografia e na falta de uma trilha sonora que acompanhe o suspense, e tudo fica bastante deslocado no filme, até mesmo excessivo, como na falta de um desenvolvimento do âmbito rotineiro de Anna. Ela é alcóolatra, viciada em remédios, tem um trauma familiar, é agorafóbica e sofre de alucinações… uma personagem complexa, para dizer o mínimo, mas Wright não estica nada disso na fita. Ele coloca em evidência os vícios aqui e ali, toca na doença com algumas cenas de receio de sair da casa e utiliza uma horrorosa narração em diálogo da protagonista com seu marido ao longo da obra, culminando em um curto flashback; existem muitos caminhos, mas nada é aprofundado ou colocado em evidência por muito tempo nas lentes pretensiosas de Wright.

Em muitos momentos me peguei questionando qual é o propósito dessa direção? Porque ele resigna sua maior influência na observação e o voyeurismo, não mergulha no suspense, assume um insólito teatralismo quando os personagens estão juntos e exclui as dificuldades rotineiras de Anna, que a título de contexto e não comparação, é o cerne da obra de A. J. Finn, que preza pelas adversidades triviais da protagonista, e que, novamente, faz parte da adaptação, mas com a profundidade de um pires, pois bem pouco é dito e feito em torno da vida diária de uma agorafóbica. Numa nota positiva, acredito que o delírio proposto no primeiro ato funciona muitíssimo bem, com muitos planos próximos de Anna e a já dita bela cinematografia, e a Amy Adams é poderosa em transpor a derrocada mental da personagem com pequenos risos e olhares infinitos, mas à medida que a trama avança, o ritmo acelera e aos poucos foge desse aspecto onírico da casa como um todo, resultando em outro problema da obra: a montagem.

A edição dita o ritmo de uma película, e pode ser dito que A Mulher na Janela é lenta e tediosa no início – eu até gostei dessa cadência em certa medida -, mas o principal problema reside em como a montagem tem um teor súbito, no pior sentido da palavra, já que não há organicidade narrativa para grande parte dos conflitos. Não irei adentrar com detalhes para não proporcionar spoilers, mas a montagem da obra tem um caráter de “fragmentação imediata”, onde a narrativa pula de uma sequência para outra sem um zelo narrativo estrutural para evocar um sentimento de naturalidade. Num minuto A Mulher na Janela é um filme de investigação, e logo depois de drama recluso, parte para o suspense e então avança para a teatralidade, enquanto nenhum dos núcleos ou estilos são realmente resolvidos ou bem elaborados. É uma experiência estranhíssima em relação às costuras de gêneros, no qual tudo soa exagerado e/ou incompleto.

Este tom de excesso é resultado do roteiro, muito em parte pelo background teatral do roteirista Tracy Letts, em que a exposição, principalmente nos diálogos, retira qualquer nível de sutileza na caracterização dos personagens. Gary Oldman tem pouco tempo de tela, e quando aparece sua interpretação é hiperbólica, cheia de gritos e raiva; e o mesmo pode ser dito de David (Wyatt Russell), o inquilino de Anna, que vai de colega a possível assassino imoderado de uma cena a outra, com zero desenvolvimento de suspense; além do núcleo familiar com Anthony Mackie que não recebe nenhum cuidado dramatúrgico para que a audiência sinta qualquer tipo de emoção em torno do trauma de Anna. Julianne Moore é o charme e mistério em pessoa, enquanto Brian Tyree Henry exala carisma no raso investigador Little, mas nenhum dos personagens tem tempo suficiente de tela para deixar impacto, trazendo a problemática de como o filme não abre espaço ou constrói bons diálogos para o elenco trabalhar seus personagens. Com a única exceção sendo a protagonista, e, ainda bem viu, pois Amy Adams carrega a obra e deixa o filme levemente assistível, em uma performance que, mesmo enclausurada por escolhas artísticas duvidosas, é suficientemente eficaz em transpor empatia, delírio e paranoia; só falta escolher seus recentes projetos com mais cuidado.

E como as escolhas de direção, roteiro e montagem não conseguem criar uma unidade estilística coesa, e eu não diria que esses elementos são genéricos, mas simplesmente… bagunçados, topando no amadorismo, quando o clímax chega, ele é tão surpreendente quanto é cômico, pois como não há uma extensão de tensão e suspense ao longo da obra, o impacto é diluído de forma mecânica, e recebe o mesmo tratamento instantâneo do resto da fita. É quase como se os blocos de A Mulher na Janela fossem um “produto pronto”, um desfecho que é até interessante, mas que não receberam um desenvolvimento anterior, lentamente perdendo o espectador na desordem de tom e na dramaticidade vazia e teatralmente exagerada.

O curioso é que eu até gosto da direção estilosa do clímax, com uma pegada de horror clássico, até meio slasher mesclado com a bela cinematografia delirante, mas continua sendo mais uma predileção desconexa do filme, que não faz qualquer sentido pensando no que foi – e realmente não foi – desenvolvido anteriormente, em mais uma sequência que parece desgarrada numa outrora promissora película, que parece não encontrar um sentido artístico no quadro geral da narrativa. Diferentemente da óbvia influência de Janela Indiscreta, o filme dirigido por Joe Wright não aprofunda-se na observação, nem assume os problemas ordinários do livro como temática principal do arco derrotista de Anna, e também propõe suspense psicológico, drama recluso, investigação e desconfiança da realidade, além da bizarra inserção da exposição e exagero teatral que não faz qualquer sentido contextual, em uma direção presunçosa e que atira para vários espectros sem construir algo interessante em nenhum dos gêneros que evoca na experiência desordenada da obra. A Mulher na Janela é um filme para ver e esquecer.

A Mulher na Janela (The Woman in the Window) – EUA, 14 de maio de 2021
Direção: Joe Wright
Roteiro: Tracy Letts (baseado no livro homônimo de A. J. Finn)
Elenco: Amy Adams, Gary Oldman, Anthony Mackie, Fred Hechinger, Wyatt Russell, Brian Tyree Henry, Jennifer Jason Leigh, Julianne Moore, Jeanine Serralles, Mariah Bozeman, Liza Colón-Zayas, Anna Cameron, Ben Davis, Tracy Letts
Duração: 100 min.

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