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Crítica | A Mulher na Lua

por Iann Jeliel
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Tenho uma certa dificuldade em discernir a ficção científica da fantasia em filmes como A Mulher na Lua. Afinal, os preceitos científicos aqui não só estão somente para evidenciar questões humanistas dos personagens como também para possibilitar uma fantasia em que essa humanidade possa prosperar em harmonia. Esse é o segundo filme de Fritz Lang com sua esposa Thea von Harbou, nos ramos da ficção científica, sendo o primeiro o reverenciado clássico Metropolis. Ambos os longas partilham de uma mesma ideia de universo conflituoso politicamente por conta de avanços tecnológicos específicos, conceitualmente imaginativos em uma projeção do que poderia acontecer à humanidade.

Um conflito que dentro do filme seria seu mote para o exercício de gênero, e nesse caso, trata-se muito mais de uma aventura romântica do que de um drama existencialista como foi o longa semelhante mencionado. Mas, na prática, o mote dos dois se direcionaria para o mesmo lugar em resoluções dramáticas, propondo uma união de diferenças ideológicas, mesmo que desta vez, sob uma óptica deveras mais inocente. Essa inocência maior a meu ver está diretamente vinculada a um esvaziamento do Expressionismo Alemão enquanto movimento cinematográfico nesse fim da década de vinte. No cinema mudo, a decupagem temática era basicamente transmitida pela imagem fotográfica e música, assim a deformidade da estilística do expressionismo alemão, em conjunto à constante e geralmente efervescente trilha sonora, podia distorcer a manifestação temática em que o filme se colocava, deixando tudo bem ambíguo.

Perceba que aqui não existe ambiguidade na construção de ideologia. Apesar de imageticamente os personagens ainda soarem bastante carregados das caricaturas características dos filmes de Lang em sua fase expressionista, o design de produção e a fotografia não possuem linhas curvas na composição cênica de modo geral, ou seja, a imagem não busca ser distorcida. Logo, a mensagem ideológica de união aqui não se torna irônica – como pode ser interpretada em Metropolis -, e sim mais como um sonho mesmo, que era o clima à época para a vontade de descobrir novos horizontes. Impressionante como os dois filmes de ficção científica do casal Lang e von Harbou serviram não só para diversas inspirações conceituais para o gênero como também foram base imagética para a evolução de objetos na realidade, como é o caso do foguete e sua contagem regressiva que dizem ter sido oficializada a partir desse filme.

Sendo ou não, é uma verossimilhança que traz um ar visionário à obra, que não parece prepotente na sua construção fílmica justamente por ser uma construção mais inocente no tratamento da imagem. O senso de realidade vira o encantamento de uma lua desconhecida, em seus aspectos gravitacionais e atmosféricos ignorados, para possibilitar a construção expressiva de um romance impossível clássico em meio a uma guerra ideológica que gera também uma guerra de um triângulo amoroso. A corrida espacial em 1929 não estava nem perto de uma realidade, bem como não se imaginaria que décadas depois teríamos uma guerra fria que colocaria em xeque essa corrida espacial, mas coincidentemente os conflitos se espelham, porque a base permanecida das caricaturas dos personagens comentadas refletem o senso cíclico e ganancioso da mentalidade humana, historiograficamente resumida na narrativa.

É fabuloso como Lang centraliza novamente uma figura como moderadora dessa gama de conflitos, no caso, uma figura feminina. Essa moderação liga a personagem à lua, que assim que passa a ser a principal ambientação, também passa a assumir um papel moderador no caminho de promover a tal virada unificadora pelo senso maior da descoberta. Até chegar lá, o filme não abandona seu clima primordialmente aventuresco, embora nunca seja plenamente envolvente nele, sendo até demasiadamente longo perante o pouco que explora suas liberdades criativas e fantasiosas da funcionalidade da viagem espacial. Mais da metade se passa na Terra, onde os movimentos narrativos da trama são preservados em uma tentativa muito pouco efetiva de desenvolver os personagens fora do espectro simbólico.

No entanto, as viradas são bastante efetivas para plantar as resoluções que primordialmente funcionam como o tal mote para o recomeço que o filme tanto acredita. De novo, a inocência acaba se reverberando, desta vez na figura feminina, como símbolo quase angelical para promover de forma ainda mais clara as novas descobertas como libertação da ânsia conflituosa de nossa natureza. E no amor da ciência, Lang nos faz acreditar nessa fantasia.

A Mulher na Lua (Frau im Mond / Woman in the Moon | Alemanha, 1929)
Direção: Fritz Lang
Roteiro: Fritz Lang, Thea von Harbou
Elenco: Willy Fritsch, Gerda Maurus, Klaus Pohl, Fritz Rasp, Gustl Gstettenbaur, Gustav von Wangenheim, Tilla Durieux,
Margarete Kupfer, Alexa von Porembsky, Gerhard Dammann
Duração: 170 minutos

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