Crítica | A Música de Candyman – Philip Glass

Na realização de uma produção cinematográfica, os elementos audiovisuais precisam estar em organização para o sucesso da mensagem exposta pela narrativa. Na franquia Candyman, independente dos altos e baixos comparativos entre os roteiros, haja vista a ampliação da mitologia do personagem nas continuações, os figurinos geralmente estão adequados, a direção de fotografia é eficiente em sua captação de imagens e o design de produção geralmente trabalha em prol da construção de uma atmosfera imersiva, fria e densa. É o que podemos definir como o legado cinematográfico de Candyman.

Além de tais elementos citados, a trilha sonora ganha maior relevo por conta da composição luxuosa de Philip Glass para os dois primeiros filmes, conjunto de faixas que formaram o álbum A Música de Candyman. Sem material considerado suficiente para o lançamento na época, os produtores esperaram o segundo filme para formar algo mais consistente e disponibilizar comercialmente para os interessados. O Mistério de Candyman é um filme estruturado na trajetória de uma lenda e a sua trilha sonora também é repleta de “histórias” contadas de maneira diferentes, mas com o mesmo ponto nevrálgico, isto é, o descaso do compositor depois que o filme ficou pronto e a música foi inserida.

Conforme alguns relatos, Glass alega ter sido enganado sobre o real tipo de produção que seria Candyman. Na sua visão, era algo mais filosófico que sanguinolento. Competente no terreno da produção musical, Philip Glass parece não ter bom-senso crítico, pois o filme é um espetáculo do horror, mesclado com severas críticas sociais ao processo de marginalização vivido cotidianamente pelos afroamericanos. Há, ainda, um debate formidável sobre a forma como lidamos com a narrativa oral em nossos relatos diários, além da ambição no mundo acadêmico ser uma das práticas mais nocivas dentro de um ambiente eu há eras encontra-se doente.

Mas, como dito no popular, gosto é algo muito peculiar, cada um tem a sua experiência estética diante de um filme e talvez o músico não tenha compreendido a produção na época em que emitiu tais considerações. Representante da corrente minimalista, Philip Glass traz os elementos básicos deste estilo musical para a textura percussiva de Candyman. A repetição frequente de pequenos trechos, juntamente com variações breves situadas em períodos temporais longos, bem como as pulsões constantes dentro do ritmo estático de condução, algo que neste campo de produção chamamos de harmonia consonante.

Experiente em óperas, concertos e parcerias com músicos de estilos diferentes, Philip Glass oferta como autor deste álbum, 13 faixas, dispostas na seguinte ordem: Music Box: Candyman Suite, Cabrini Green, Helen’s Theme, Face to Razor, Floating Candyman, Return to Cabrini, It Was Always You, Helen, todas do primeiro filme, e Daniel’s Flashback’, The Slave Quarters, Annie’s Theme, All Falls Apart, The Denise of Candyman e Reverend’s Walk, conjunto de faixas da continuação. Com similaridades em suas estruturas, as faixas são arranjadas por refrões em loop, presença de coro altamente dinâmico, piano em ritmo constante, aliado aos instrumentos tubulares, bem como construção sombria e focado no estilo musical gótico. Em suma, Philip Glass entrega uma composição sofisticada para um filme do subgênero slasher.

O clima musical é estabelecido logo na abertura, repleta de zenitais, como se o narrador sobrevoasse a cidade para captar os pontos de tensão que dão forma às dinâmicas cotidianas dos personagens. Interessado numa reviravolta em sua carreira, Glass aceitou o convite de Bernard Rose para compor a música de O Mistério de Candyman, mas não imaginava que a produção ganharia o rumo do horror físico em conexão com as demandas filosóficas e sociais permitidas pela interpretação do texto de Clive Barker.  O resultado disso tudo é que a trilha é instigante, arrebatadora e deu ao filme um aspecto charmoso e, como já apontado, sofisticado.

A Música de Candyman (Original Motion Picture Soundtrack)
Compositor: Philip Glass
Gravadora: Orange Mountain Music
Ano: 1992-1995
Estilo: textura percussiva, trilha sonora, música minimalista,

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.