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Crítica | A Noite Amarela

por Leonardo Campos
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O cenário é o ideal para o estabelecimento de uma narrativa com sexo, violência e altas doses de horror. Observe a descrição: um grupo de jovens recém-formados no Ensino Médio viaja para uma ilha não muito distante da costa paraibana, tendo em vista se hospedar na antiga casa do avô de um deles, lugar longínquo do olhar e das regras excessivamente limitadoras dos adultos. O subgênero estadunidense slasher aproveitou-se bastante deste mote para desenvolver narrativas das mais diversas sobre juventude, mortes, consumo de drogas e bebidas, etc. Aqui, em A Noite Amarela, o cineasta Ramon Porto Mota segue um caminho totalmente contrário ao que esperamos diante da sinopse, numa reversão interessante das nossas expectativas. Ele assume o próprio roteiro, escrito em parceria com Jhésus Tribuzi, para entregar ao público mais uma produção que pavimenta o horror como gênero profícuo na atual cinematografia brasileira.

Com toda responsabilidade e respeito que costumo imprimir na análise de filmes e suas peculiaridades, reconheço a importância da narrativa em seus aspectos estéticos, contextuais e conceituais, mas não posso deixar de assinalar a falta de ritmo e o excesso de pretensão como curvas sinuosas que não permitem o nosso gozo diletante diante de um filme que possui questões demasiadamente herméticas e não fluentes, fechado demais em suas chaves de interpretação e ao mesmo tempo rígido, numa abordagem que não perderia o tom de suas críticas sociais caso se permitisse que a condução por uma via mais reta, sem tantas lombadas, voltas, curvas e obstáculos, opção narrativa que não pede a anulação dos aspectos artísticos e dramáticos da obra e a sublimação de seus elementos autorais, mas clama por um cinema inteligente que se permita mais acessível e possibilite ao nosso sistema de produção, maior circulação e engajamento.

Com experiência desde que assinou um dos episódios de Nó do Diabo, Ramon Porto Mota é um realizador que conduz bem o seu elenco de jovens atores e já ganha muita vantagem ao excluir qualquer atmosfera teatral no âmbito dos desempenhos dramáticos, um problema que ainda não foi completamente resolvido em nosso território de produção cinematográfica. Os diálogos soam naturais, não há aquele tom de falas que expelem excessivamente ar dos pulmões como se o texto fosse parte de uma encenação para os palcos. Ao longo de seus 100 minutos, acompanhamos o grupo de jovens numa região à beira-mar completamente escura, iluminada pela direção de fotografia de Flora Dias que em poucos momentos, nos permite contemplar alguns feixes de luzes que indiquem a presença dos personagens próximos de uma área litorânea. Noutros momentos, eles estão no interior ou defronte à casa, ou a circular por alguma festa na região.

É um momento de mudança para todos. As expectativas do que vem após esse ciclo e uma rememoração dos bons momentos são os pontos que estabelecem a dinâmica entre os sete jovens, mergulhados numa penumbra sobrenatural ao passo que a narrativa avança. Com captação de imagens eficientes, o espaço da narrativa, Arco Velho, é contemplado pela observação da câmera que nos deixa ser testemunha de da iminência do ominoso, de um clima agourento que nem mesmo desconfiamos do que se trata. Eles chegam para extravasar as energias e desde o primeiro momento na casa que evoca uma atmosfera misteriosa, percebem que vivenciarão ali experiências marcantes para o resto de suas vidas. A cenografia e a direção de arte do design de produção de Dayse Barreto e Diógenes Mendonça capricha nos detalhes, em especial, na estátua sem um dos membros, dos apetrechos antigos de um baú do avô de Karina (Rana Sui), jovem que de alguma forma centraliza os conflitos. É lá que encontrarão fotos, gravações em fitas VHS, anotações, etc.

Diante do exposto, acompanhados pela condução musical de Vito Quintons, os personagens vivenciam momentos aleatórios de conversas sobre o presente, geralmente bem iluminados e de visualidade expressiva, momentos paralelos ao clima fantasmagórico que se expõe quando o futuro se torna parte de suas preocupações, comentadas em tom de brincadeira em algumas passagens, mas acompanhados de certa ansiedade. No desfecho de um ciclo, abrem-se as portas para o novo. E o novo, no Brasil de 2019, desdobrado para 2020 e com consequências gravíssimas para os próximos anos, é o território da descrença, da falta de esperança, em suma, o lugar para a ansiedade destroçar tais jovens e salientar os riscos da saúde mental face ao cenário nada animador. Atravessado por crises bizarras em todos os âmbitos estatais e representado vergonhosamente em suas instâncias de poder, o Brasil contemporâneo é puro horror.

Assim, em seus desdobramentos, o clima fantasmagórico parece regido pelo conceito de devir de Gilles Deleuze, isto é, os jovens em questão atravessam um momento de mudanças. Eles não devem mais pensar e agir da mesma forma, mas atravessar o limiar da nova fase. O todo que os define agora precisa se repetir de outro modo. Esse devir, por sua vez, depende bastante da relação com o “outro” e também como vemos, definimos e imprimimos significados as coisas. Em suma, um debate sobre transformações que se expandido aqui, pode receber a mesma crítica que fiz aos hermetismos do filme, algo no mínimo paradoxal. Se aponto tal crise na concepção da narrativa, por qual motivo a minha interpretação caminhará pelo mesmo processo, não é mesmo? Deixo aqui a sugestão de leitura para quem quiser ampliar as relações apontadas, associadas ao conteúdo de A Noite Amarela, um filme sobre as dúvidas de um grupo que devorados pela onda de ansiedade que representa o excesso de amanhã, concomitantemente, também alegoriza um alto nível de ânsia que descamba em sua contextual falta de crença neste futuro que tanto se espera.

No Brasil de hoje, o que podemos conceber como “o nosso amanhã”? Para o cineasta, a atmosfera onírica foi a melhor estratégia para traçar o caminho dos personagens na narrativa, pois o sonho é o espaço onde não temos o devido controle das coisas, nas palavras do realizador, “onde tudo pode acontecer”. Desajeitados, esses jovens não parecem dialogar com a ordem social dos ambientes que circulam. Prova disso é a cena da festa de rua, bem como as passagens onde enfrentam perigos sozinhos, mas quando agrupados, parecem envolvidos por um manto simbólico de proteção. Ademais, a estética contemporânea, o clima juvenil das imagens, a inserções de cenas com smartphones e o tom “regionalista” ideal para mapeamento do espectador são pontos positivos para A Noite Amarela, um filme que tal como já dito, representa tudo que precisamos para a nossa cinematográfica atual, cada vez mais sólida no âmbito do horror.

A Noite Amarela — Brasil, 2019
Direção: Ramon Porto Mota
Roteiro: Jhésus Tribuzi, Ramon Porto Mota
Elenco: Ana Rita Gurgel, Clara Pinheiro de Oliveira, Felipe Espíndola, Marina Alencar, Rana Sui
Duração: 102 min.

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