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Crítica | A Noite do Demônio (1957)

por Rafael Lima
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Na década de 1940, o diretor Jacques Tourneur, tutelado pelo produtor Val Lewton, comandou para a RKO uma série de filmes que foram bastante elogiados por trazer uma construção de terror baseada mais na sutileza do que em elementos explícitos; rendendo projetos como Sangue de Pantera (1942) e A Morta-Viva (1943). Nestas obras, embora a temática sobrenatural fosse fortemente presente, sempre havia espaço para dúvidas em torno da veracidade dos elementos fantásticos da trama. Ambos os filmes giravam em torno de mulheres supostamente amaldiçoadas, mas o sobrenatural seria real ou criação de histeria criada por uma crença folclórica? 

Em 1957, Tourneur pretendia seguir o mesmo caminho que adotou nas produções de Lewton quando aceitou comandar A Noite Do Demônio, adaptação do conto Casting the Runes de M.R James, que conta a história de um homem cético que é amaldiçoado por um ocultista vingativo a ser morto por um demônio dentro de quatro dias. A premissa carregava fortes semelhanças com os trabalhos anteriores do diretor no gênero terror, e ele pretendia explorá-las. Entretanto, o produtor Hal E. Chester queria que a audiência soubesse desde o princípio que o demônio do título era real, diferente do que queria o cineasta. Essa diferença criativa gerou conflitos que fizeram com que o diretor ficasse muito insatisfeito com o resultado final de seu longa metragem, o que não tira os méritos dessa pequena pérola do horror sobrenatural dos anos 1950.

Na trama, o Dr. John Holden (Dana Andrews) é um psicólogo americano que chega a Londres para participar de um congresso sobre as implicações clínicas de mitos folclóricos na psique humana. Ao entrar em conflito com o líder de uma seita ocultista, o Dr. Julian Karswell (Niall MacGinnis) que ele acusa de charlatanismo, Holden recebe de Karswell uma runa que o amaldiçoa. Embora esteja cético a princípio, Holden logo começa a perceber sinais de que pode estar sendo ameaçado por forças muito além de sua compreensão.

Escrito a quatro mãos por Charles Bennet e pelo produtor Hal E. Chester, A Noite Do Demônio abre com a morte do Professor Henry Harrington (Maurice Denham), assassinado por um enorme demônio depois de uma visita a Karswell, onde implorou para que o bruxo retirasse a maldição jogada sobre ele. A aparição da criatura logo no começo da obra deixa o publico um passo à frente do protagonista, já que diferente dele, não temos dúvidas de que o vilão da história possui mesmo habilidades sobrenaturais.

Se por um lado, a escolha é interessante por conhecermos um perigo do qual o protagonista não está ciente — o que é uma boa ferramente para o suspense — por outro lado, tal escolha acaba afetando a forma como nos envolvemos com o personagem principal. John Holden é vivido por Dana Andrews como um cético rígido, que acredita que para tudo há uma explicação científica. Claro, é perfeitamente compreensível que inicialmente Holden não leve a sério as ameaças místicas de Karswell ou a crença de Joanna Harrington (Peggy Cummins) de que o tio foi morto por um demônio. Mas o fato de sabermos que o perigo que Holden corre é real acaba por lançar uma luz antipática ao personagem e sua postura arrogante, não só pela forma desdenhosa com que ele trata Joanna (que está se esforçando  para salvar a vida dele), mas também pelo retrato dos colegas cientistas de Holden no congresso, que mesmo não sendo crentes, reconhecem a existência de eventos que a ciência ainda não pode explicar de forma definitiva. Apesar disso o carisma de Dana Andrews é o bastante para nos manter minimamente investidos em seu personagem.

O vilão vivido de forma competente por Niall MacGinnis é um grande trunfo do projeto. Karswell está bem longe da figura tradicional do bruxo do mal, assemelhando-se mais a um carismático líder de culto. Em um trecho do filme, certo personagem afirma que “O Demônio sempre é mais perigoso quando está sendo agradável”, o que define muito bem o vilão da obra. A figura de Karswell, que pode ao mesmo tempo ser um feiticeiro maligno que mata seus inimigos envolvendo demônios, e um mágico palhaço que anima crianças em festas de Halloween é interessante justamente por essa ambiguidade. Nesse sentido, é curioso observar como o filme de Tourneur inaugura uma forma diferente de encarar a bruxaria no terror, com estes feiticeiros não mais vivendo em casas e castelos isolados, mas no seio da sociedade contemporânea, algo que influenciaria diretamente obras como As Bodas de Satã (1968) e O Bebê de Rosemary (1968).

Mas A Noite Do Demônio não seria o que é sem a ótima direção de Jacques Tourneur. Como já havia demonstrado em projetos anteriores, o diretor é muito bom em criar terror com aquilo que não é visto, vide a passagem onde Holden invade o escritório de Karswell à noite, somente para ser atacado por seu gato, que nas sombras parece se transformar em uma criatura demoníaca (em uma passagem que lembra muito o clímax do citado Sangue de Pantera). De fato, o cineasta é hábil o suficiente para transitar com desenvoltura entre passagens cômicas e de maior tensão, como a cena em que Holden e Joanna participam de uma sessão espirita conduzida pela mãe de Karswell (Athene Seyler).

É impressionante atestar que mais de sessenta anos depois do lançamento do filme, os efeitos práticos envolvendo a criação do demônio do título continuam impressionantes. Claro, os planos fechados no rosto da criatura acabam denunciando a sua natureza animatrônica, mas quando Tourneur a filma de longe surgindo do meio da fumaça e usando a profundidade de campo para valorizar a imponência desta figura demoníaca, o ser causa um grande impacto visual, como se realmente tivesse saído de um pesadelo infantil.

Não podemos dizer que o conflito entre o diretor e o produtor não seja sentido no resultado final da obra, pois muitas vezes percebe-se a proposta inicial de ambiguidade proposta por Tourneur entrar em choque com a visão imposta pelo produtor. Mas apesar deste ruído, A Noite Do Demônio ainda é um filme muito bem dirigido, dono de alguns momentos arrepiantes. Trata-se de um clássico que influenciou diretamente muitas obras de terror sobrenatural que o sucederam, e que merece ser conhecido, assim como a filmografia de Jacques Tourneur como um todo.

A Noite Do Demônio (Night Of The Demon) – Reino Unido, 1947
Direção: Jacques Tourneur
Roteiro: Charles Bennett, Hal E. Chester (Baseado em conto de M.R James)
Elenco: Dana Andrews, Peggy Cummins, Niall MacGinnis, Maurice Denham, Athene Syler, Liam Redmond, Reginald Beckwith, Ewan Roberts, Richard Leech, Percy Herbert
Duração: 95 Minutos

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