Crítica | A Noite do Demônio (1957)

Em 1957, Tourneur pretendia seguir o mesmo caminho que adotou nas produções de Lewton quando aceitou comandar A Noite Do Demônio, adaptação do conto Casting the Runes de M.R James, que conta a história de um homem cético que é amaldiçoado por um ocultista vingativo a ser morto por um demônio dentro de quatro dias. A premissa carregava fortes semelhanças com os trabalhos anteriores do diretor no gênero terror, e ele pretendia explorá-las. Entretanto, o produtor Hal E. Chester queria que a audiência soubesse desde o princípio que o demônio do título era real, diferente do que queria o cineasta. Essa diferença criativa gerou conflitos que fizeram com que o diretor não ficasse muito insatisfeito com o resultado final de seu longa metragem, o que não tira os méritos dessa pequena pérola do horror sobrenatural dos anos 1950. Plano Crítico.

Na década de 1940, o diretor Jacques Tourneur, tutelado pelo produtor Val Lewton, comandou para a RKO uma série de filmes que foram bastante elogiados por trazer uma construção de terror baseada mais na sutileza do que em elementos explícitos; rendendo projetos como Sangue de Pantera (1942) e A Morta-Viva (1943). Nestas obras, embora a temática sobrenatural fosse fortemente presente, sempre havia espaço para dúvidas em torno da veracidade dos elementos fantásticos da trama. Ambos os filmes giravam em torno de mulheres supostamente amaldiçoadas, mas o sobrenatural seria real ou criação de histeria criada por uma crença folclórica? 

Em 1957, Tourneur pretendia seguir o mesmo caminho que adotou nas produções de Lewton quando aceitou comandar A Noite Do Demônio, adaptação do conto Casting the Runes de M.R James, que conta a história de um homem cético que é amaldiçoado por um ocultista vingativo a ser morto por um demônio dentro de quatro dias. A premissa carregava fortes semelhanças com os trabalhos anteriores do diretor no gênero terror, e ele pretendia explorá-las. Entretanto, o produtor Hal E. Chester queria que a audiência soubesse desde o princípio que o demônio do título era real, diferente do que queria o cineasta. Essa diferença criativa gerou conflitos que fizeram com que o diretor ficasse muito insatisfeito com o resultado final de seu longa metragem, o que não tira os méritos dessa pequena pérola do horror sobrenatural dos anos 1950.

Na trama, o Dr. John Holden (Dana Andrews) é um psicólogo americano que chega a Londres para participar de um congresso sobre as implicações clínicas de mitos folclóricos na psique humana. Ao entrar em conflito com o líder de uma seita ocultista, o Dr. Julian Karswell (Niall MacGinnis) que ele acusa de charlatanismo, Holden recebe de Karswell uma runa que o amaldiçoa. Embora esteja cético a princípio, Holden logo começa a perceber sinais de que pode estar sendo ameaçado por forças muito além de sua compreensão.

Escrito a quatro mãos por Charles Bennet e pelo produtor Hal E. Chester, A Noite Do Demônio abre com a morte do Professor Henry Harrington (Maurice Denham), assassinado por um enorme demônio depois de uma visita a Karswell, onde implorou para que o bruxo retirasse a maldição jogada sobre ele. A aparição da criatura logo no começo da obra deixa o publico um passo à frente do protagonista, já que diferente dele, não temos dúvidas de que o vilão da história possui mesmo habilidades sobrenaturais.

Se por um lado, a escolha é interessante por conhecermos um perigo do qual o protagonista não está ciente — o que é uma boa ferramente para o suspense — por outro lado, tal escolha acaba afetando a forma como nos envolvemos com o personagem principal. John Holden é vivido por Dana Andrews como um cético rígido, que acredita que para tudo há uma explicação científica. Claro, é perfeitamente compreensível que inicialmente Holden não leve a sério as ameaças místicas de Karswell ou a crença de Joanna Harrington (Peggy Cummins) de que o tio foi morto por um demônio. Mas o fato de sabermos que o perigo que Holden corre é real acaba por lançar uma luz antipática ao personagem e sua postura arrogante, não só pela forma desdenhosa com que ele trata Joanna (que está se esforçando  para salvar a vida dele), mas também pelo retrato dos colegas cientistas de Holden no congresso, que mesmo não sendo crentes, reconhecem a existência de eventos que a ciência ainda não pode explicar de forma definitiva. Apesar disso o carisma de Dana Andrews é o bastante para nos manter minimamente investidos em seu personagem.

O vilão vivido de forma competente por Niall MacGinnis é um grande trunfo do projeto. Karswell está bem longe da figura tradicional do bruxo do mal, assemelhando-se mais a um carismático líder de culto. Em um trecho do filme, certo personagem afirma que “O Demônio sempre é mais perigoso quando está sendo agradável”, o que define muito bem o vilão da obra. A figura de Karswell, que pode ao mesmo tempo ser um feiticeiro maligno que mata seus inimigos envolvendo demônios, e um mágico palhaço que anima crianças em festas de Halloween é interessante justamente por essa ambiguidade. Nesse sentido, é curioso observar como o filme de Tourneur inaugura uma forma diferente de encarar a bruxaria no terror, com estes feiticeiros não mais vivendo em casas e castelos isolados, mas no seio da sociedade contemporânea, algo que influenciaria diretamente obras como As Bodas de Satã (1968) e O Bebê de Rosemary (1968).

Mas A Noite Do Demônio não seria o que é sem a ótima direção de Jacques Tourneur. Como já havia demonstrado em projetos anteriores, o diretor é muito bom em criar terror com aquilo que não é visto, vide a passagem onde Holden invade o escritório de Karswell à noite, somente para ser atacado por seu gato, que nas sombras parece se transformar em uma criatura demoníaca (em uma passagem que lembra muito o clímax do citado Sangue de Pantera). De fato, o cineasta é hábil o suficiente para transitar com desenvoltura entre passagens cômicas e de maior tensão, como a cena em que Holden e Joanna participam de uma sessão espirita conduzida pela mãe de Karswell (Athene Seyler).

É impressionante atestar que mais de sessenta anos depois do lançamento do filme, os efeitos práticos envolvendo a criação do demônio do título continuam impressionantes. Claro, os planos fechados no rosto da criatura acabam denunciando a sua natureza animatrônica, mas quando Tourneur a filma de longe surgindo do meio da fumaça e usando a profundidade de campo para valorizar a imponência desta figura demoníaca, o ser causa um grande impacto visual, como se realmente tivesse saído de um pesadelo infantil.

Não podemos dizer que o conflito entre o diretor e o produtor não seja sentido no resultado final da obra, pois muitas vezes percebe-se a proposta inicial de ambiguidade proposta por Tourneur entrar em choque com a visão imposta pelo produtor. Mas apesar deste ruído, A Noite Do Demônio ainda é um filme muito bem dirigido, dono de alguns momentos arrepiantes. Trata-se de um clássico que influenciou diretamente muitas obras de terror sobrenatural que o sucederam, e que merece ser conhecido, assim como a filmografia de Jacques Tourneur como um todo.

A Noite Do Demônio (Night Of The Demon) – Reino Unido, 1947
Direção: Jacques Tourneur
Roteiro: Charles Bennett, Hal E. Chester (Baseado em conto de M.R James)
Elenco: Dana Andrews, Peggy Cummins, Niall MacGinnis, Maurice Denham, Athene Syler, Liam Redmond, Reginald Beckwith, Ewan Roberts, Richard Leech, Percy Herbert
Duração: 95 Minutos

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.