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Crítica | A Noite do Jogo

por Luiz Santiago
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Game Night (2018) é uma surpresa em muitos aspectos. Primeiro, porque o filme anterior dos dois diretores que o assinaram foi Férias Frustradas (2015), e não dava para imaginar que quem dirigiu aquela fita poderia entregar algo tão divertido e tão interessante como A Noite do Jogo. Segundo, porque existem elementos técnicos aqui que fogem completamente do que esperamos para obras do gênero, mexendo com a nossa percepção de julgamento e tendo a comédia permanentemente visitada pela ação — cabendo referências a Duro de Matar 2 (1990) e RoboCop – O Policial do Futuro (1987) — e até por flertes com o horror, vide as piscadelas visuais e os diálogos que referenciam A Noite dos Mortos-Vivos (1968) e mais a uma porção de clichês do gênero.

Sem cair na armadilha de querer explicar a “origem das noites de jogos com os amigos“, o roteiro de Mark Perez nos apresenta da forma mais casual possível o encontro do casal Max (Jason Bateman) e Annie (Rachel McAdams, que está excelente no filme!) e nos faz entrar imediatamente na história, destacando, a princípio, o vício em jogos e a personalidade competitiva dos dois pombinhos. A comédia, neste ponto, vem fácil, e não de uma maneira negativa. Aqui, temos mais uma prova de que mesmo argumentos já conhecidos podem gerar grandes histórias, especialmente se o texto sabe trabalhar bem os personagens ao longo dos atos, se a comédia passa por diferentes níveis de adequação e exposição (talvez Ryan, o personagem de Billy Magnussen, seja o único do elenco a carregar uma característica cômica que pode incomodar), e se os pontos de grande virada dos acontecimentos ocorrem no momento certo. Neste filme, para nossa alegria, temos tudo isso.

Com a entrada do irmão bem-sucedido e intimidador de Max em cena (Kyle Chandler) e o início da “noite de jogos para ser lembrada eternamente“, o espectador é arrastado por um vendaval de boas ideias. Um plot se une ao outro sem precisar interromper uma ação corrente e sem descaracterizar os personagens, que dentro de cada sequência, precisam se comportar de modo levemente distinto, pois cada pedaço do filme corresponde a um jogo diferente, tanto na forma interna (via personagens) como na forma externa da obra (via roteiristas, dialogando com o público), dando a impressão de que existe um grande jogo capaz de abraçar todos os outros, sensação delineada pela exposição das cidades em takes-maquete e pela organização de algumas cenas com um estilo cinematográfico perfeitamente pensado para acompanhar um certo tipo de jogo.

Aqui, vale destacar a homenagem aos recorrentes one shots de Quentin Tarantino, nos momentos de citação a Pulp Fiction e Django Livre, em tomadas muitíssimo bem dirigidas por John Francis Daley e Jonathan Goldstein, que ainda surpreendem pela aplaudível “sequência do ovo”, atravessando dois andares de uma mansão, dando atenção para diferentes duplas — como “times” disputando um jogo –, e ganhando espaço suficiente para que duas pontas dramáticas do roteiro avançassem consideravelmente, tudo isso sem perder a linha da ação principal. Palmas para a precisão no uso do tempo pela montagem!

O texto perde alguns pontos com as brigas que se arquitetam desde o final do primeiro ato, mas nada que o lado bom da obra não compense, seja através de uma trilha sonora atípica para uma comédia (composta por Cliff Martinez, de Demônio de Neon e O Estrangeiro), com peças sombrias e cheias de rompantes próximos aos de grandes suspenses ou terrores psicológicos; seja pela direção de fotografia igualmente atípica e igualmente sombria (com duas sequências muitíssimo bem pensadas em contraste a esse padrão, ambas em diferentes casas), projeto visual assinado por Barry Peterson, de O Espaço Entre Nós. O final da obra é parcialmente atrapalhado por uma reexposição de situações já vistas antes, mas a essa altura, temos uma obra sólida e muito bem feita em mãos, com uma última cena ao mesmo tempo tocante, hilária e que acena para uma continuação. Por mim, se o sensacional Policial Gary interpretado por um assustador Jesse Plemons estiver presente, que venha a próxima franquia de comédia do cinema! Mantendo essa qualidade e nível de divertimento, não teremos do que reclamar.

A Noite do Jogo (Game Night) — EUA, 2018
Direção: John Francis Daley, Jonathan Goldstein
Roteiro: Mark Perez
Elenco: Jason Bateman, Rachel McAdams, Kyle Chandler, Sharon Horgan, Billy Magnussen, Lamorne Morris, Kylie Bunbury, Jesse Plemons, Michael C. Hall, Danny Huston, Chelsea Peretti, Camille Chen, Zerrick Williams, Joshua Mikel, R.F. Daley
Duração: 100 min.

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13 comentários

Diego/SM 27 de fevereiro de 2020 - 15:31

Tradicional frase minha na introdução deste tipo de comentário: sou meio chato para comédias, cara…
Mas, olha, essa é uma das melhores – se não a melhor – que vi acho que em muitos anos (talvez desde os “Se beber não case” da vida ou mesmo da cada vez mais clássica “Penetras bons de bico”, também com a minha futura esposa, Rachel McAdams…)… pena que acho que teve pouca repercussão, não?… mas história boa, bons personagens, boas piadas, bom ritmo – enfim, boa surpresa!

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 27 de fevereiro de 2020 - 15:33

Até hoje eu acho estranho que esse filme não tenha emplacado. Ele é divertido demais, deveria ter tido um público bem maior!

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Luiz Santiago 25 de novembro de 2018 - 14:57

Não é? Um capricho muito grande e inesperado para um filme desse porte. Eu fiquei positivamente impressionado, viu!

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jv bcb 25 de novembro de 2018 - 04:48

Filme muito divertido, e com um cuidado na direção que não costumamos ver em comédias, até me perguntei como filmaram aquelas cenas de perseguição em que parece que a câmera ta acoplada no carro, como são planos abertos, onde vemos distância entre a câmera e o carro fica difícil de saber como sincronizaram o carro com a câmera, acho que devia ter uma espécie de grua acoplada no carro, que posteriormente foi apagada com CGI.

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Luiz Santiago 21 de julho de 2018 - 10:42

Acontece, @JCnaWEB:disqus! Eu tive uma ótima experiência com a obra, mas é claro que isso não será Universal. Pelo menos você gostou do policial, o que já dá pra se divertir um pouco…

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JC 21 de julho de 2018 - 06:26

Primeira vez que discordo totalmente do Plano Crítico…vi o filme e achei chato chato chato..fora algumas tomadas mais bem cuidadas e o policial pscyho…não gostei de nada. Algumas piadas muito boas, mas só….:|

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Luiz Santiago 15 de maio de 2018 - 21:13

Cara, eu também tinha visto umas coisas do material de divulgação que me fizeram rir. Não estava esperando nada nada nada do filme e terminei a sessão com um sorriso bobo no rosto.

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Eduardo Muniz 15 de maio de 2018 - 17:24

Assisti esse filme na cabine e me surpreendi muito! Parecia ser apenas mais um filme e a expressão facial da galera era a mais indiferente possível antes do início. Ao longo da projeção, muitos risos e todos ali presentes completamente imersos.

Confesso que minha baixa expectativa era muita devido ao PÉSSIMO material de divulgação. Em alguns momentos parecia um filme adolescente/terror adolescente/trash pela sinopse e no trailer inseriram um humor bobo demais mesmo pro tom despretensioso do filme, que foi a cena da Rachel McAdams “matando” um cara ao lado do avião.

Gary roubou o filme e assim como em Black Mirror, o personagem do JP quis uma vingança por ser o excluído.

A Noite do Jogo foi uma ótima surpresa!

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Maitê 14 de maio de 2018 - 23:32

Gostei muito do filme, bem divertido. Acho que é a primeira vez que vejo o sisudo Kyle Chandler em uma comédia, e ele não decepciona. O único casal chatinho, na minha opinião é o afro-americano (estou sendo politicamente correta) com aquele mimimi sobre traição, no entanto só pelo nariz “bolacha champanhe” do falso Danzel Washington já valeu a dupla. Realmente, o filme é uma deliciosa surpresa e Bateman e McAdams fizeram um show a parte.

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Luiz Santiago 14 de maio de 2018 - 23:52

Concordo com você sobre o casal mais chatinho. Não que eu desgoste deles, mas é o mais chatinho do grupo mesmo.

Kyle Chandler é um contraponto bem interessante aqui! Gostei de vê-lo nessa comédia!

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Maitê 15 de maio de 2018 - 14:19

Eu gostei do casal também, apesar de todo aquele mimimi sobre traição, que – a meu ver – apenas serviu de pretexto para o roteirista sacanear os principais “pegadores” de Hollywood, principalmente, Billy Bob Thornton e seu tórrido caso com Angelina Joly. Só faltou elogiar o excelente trabalho de Jesse Plemons que mais parecia um assustador serial killer. Valeu!

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Otacílio Neto 12 de maio de 2018 - 18:18

Muito ansioso para este filme

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Luiz Santiago 12 de maio de 2018 - 19:33

É bem divertido!

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