Crítica | A Noite Nos Persegue

Se tem um gênero de filme – que não é exatamente um gênero – que eu pessoalmente sempre adorei, apesar de ser classicamente difícil de achar por essas bandas (por meios legítimos, gente!) é o da “pancadaria asiática ultra-violenta descerebrada e generalizada”. Se bem feitos, esses filmes costumam ser 90 minutos ou duas horas de pura catarse audiovisual, em que todas as preocupações do mundo desaparecem e o que interessa são sangue, tripas, desmembramentos, cérebros explodindo e maneiras criativas de fazer isso tudo, normalmente com instrumentos cortantes, mesmo que cegos (melhor ainda se forem cegos). Claro, não é para todo mundo – minha esposa desmaiaria com 30 segundos de filme, não tenham dúvida -, mas, para quem consegue apreciar essa pegada extrema, filmes como A Noite Nos Persegue são deleites.

Na história – vamos combinar que uma história não é algo que devamos exigir aqui, não é mesmo? – Ito (Joe Taslim), um capanga de elite da Tríade, a máfia chinesa, tem uma crise de consciência durante uma chacina e salva a vida da última sobrevivente, uma menininha, Reina (Asha Kenyeri Bermudez), o que obviamente significa que ele passa a ser perseguido por todos os minions de seus ex-chefes da maneira mais mortal possível. Para ter uma mínima chance de sobreviver, ele volta para Jacarta, sua cidade natal, e reúne-se com sua namorada e seus antigos amigos e parentes de quem afastou-se há anos. Arma-se, então, o conflito em três frentes primeiramente: no apartamento de Shinta (Salvita Decorte), com Reina sendo protegida por ela e pelos amigos de Ito, na tentativa de Ito de conseguir dinheiro para sua empreitada, o que o afasta momentaneamente do “quartel-general” e, finalmente, com a chegada de uma motoqueira misteriosa particularmente mortal. Permeando a narrativa, somos apresentados a Arian (Iko Uwais, também coreógrafo das lutas), outro antigo amigo de Ito, mas que mudara-se para Macau, trabalhando para a Tríade como chefe de uma boate/cassino. Há uma solenidade especial sobre Arian que, aos poucos, vai sendo justificada na narrativa, mas sem que o filme tenha que parar para lidar com esse aspecto.

Esqueçam desenvolvimento de personagens. Apesar do esforço do roteiro em criar um passado para Ito, o que o diretor e roteirista Timo Tjahjanto (Assassinos, Headshot) faz é usar arquétipos de personagens trabalhando em cima de situações clichê, tudo como desculpa para abrir espaço para excepcionais sequências de luta. Como em Operação Invasão e sua continuação, é aqui que está o verdadeiro filé mignon de A Noite nos Persegue e é isso que realmente interessa para a apreciação da fita.

Cada minuto que sucede a virada de Ito de um matador do grupo Seis Mares para um defensor dos fracos e oprimidos é dedicado a hipnotizar o espectador com momentos sublimes de coreografia mortal que ganha muitos pontos por jamais ser repetitiva. As variações são muitas, com as lutas marcais corpo-a-corpo ganhando, diria, menor relevo em comparação com as lutas com o uso de uma pletora de armas, sejam brancas ou de fogo. Mas é a mistura que realmente encanta, além de alguns planos-sequência particularmente complexos, notadamente no apartamento de Shinta. Cada personagem ganha seus “cinco minutos de fama”, matando e morrendo espetacularmente em uma sucessão interminável – no bom sentido – que não deixa o espectador descansar os olhos.

Claro, há algumas reviravoltas completamente previsíveis, além de umas conveniências de roteiro cansativas, como salvamentos mágicos no último minuto, mas que, no cômputo geral, não detraem do divertimento que a obra oferece. Diferente de Operação Invasão, por exemplo, há uma grande variedade de sets que o diretor de fotografia Gunnar Nimpuno usa sabiamente tanto com tomadas abertas em plano geral, como em momentos claustrofóbicos, tensos e extremamente sanguinolentos. A montagem também merece destaque, por trabalhar sem a estrutura hollywoodiana de cortes de milissegundos, permitindo não só que a ação seja corretamente situada, como evitando confusões por parte do espectador, ainda que o filme, talvez, tenha uma duração maior do que devesse, trazendo uma certa repetição que poderia ter sido evitada. De toda forma, nota-se muito claramente um cuidado grande para tornar as lutas – e os braços e tendões cortados, lógico – os centros das atenções de cada sequência ao ponto de o CGI por vezes muito artificial demais nem atrapalhar.

A Noite Nos Persegue é mais um grande exemplar do cinema asiático de pancadaria que tem cada vez mais se deslocado para o sul da região, com o protagonismo crescente da Indonésia nesse mercado. Uma ótima diversão capaz de acordar defunto e marcar para sempre aqueles com corações mais, digamos, delicados, he, he…

A Noite Nos Persegue (The Night Comes for Us, Indonésia – 19 de outubro de 2018)
Direção: Timo Tjahjanto
Roteiro:  Timo Tjahjanto
Elenco: Joe Taslim, Iko Uwais, Asha Kenyeri, Sunny Pang, Salvita Decorte, Abimana Aryasatya, Zack Lee, Dimas Anggara, Julie Estelle, Dian Sastrowardoyo, Hannah Al Rashid, Shareefa Daanish, Ronny P. Tjandra, Morgan Oey, Epy Kusnandar, Revaldo, Otig Pakis
Duração: 121 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.