Há algo de conceitualmente fascinante em A Noiva!, o novo filme dirigido por Maggie Gyllenhaal. A premissa parece irresistível ao pegar o imaginário clássico de Frankenstein e de A Noiva de Frankenstein (1935) e transportá-los para uma Chicago de 1936 dominada por crime, cinema e decadência urbana, enquanto a própria Mary Shelley (Jessie Buckley, que também interpreta a protagonista) aparece como narradora espectral tentando contar uma nova história após sua morte. É um ponto de partida que sugere muitas possibilidades, entre uma reflexão metalinguística sobre autoria, um comentário sobre o mito de Frankenstein na cultura moderna ou até um noir grotesco sobre monstros que tentam viver em um mundo humano.
O problema é que a produção nunca decide que tipo de filme quer ser e, pior, parece constantemente acreditar que a simples acumulação de ideias excêntricas já é suficiente para gerar significado. Mas antes disso, contexto: a história tem seu estopim no encontro entre a criatura de Frankenstein, aqui chamada simplesmente de Frank, interpretada por Christian Bale, e a cientista Cornelia Euphronius (Annette Bening). Frank procura a cientista para pedir aquilo que o monstro sempre desejou desde o romance original: uma companheira. A solução encontrada ao ressuscitar um cadáver ecoa diretamente o imaginário do clássico de 1935, mas deslocado para um contexto urbano e criminal.
Esse é, talvez, o ponto em que o filme parece mais promissor. A ideia de dois “renascidos” atravessando uma América decadente durante os anos 1930 poderia render uma espécie de romance gótico noir. No entanto, o roteiro prefere transformar essa jornada em uma espécie de road movie caótico de crimes e perseguições, que oscila entre o melodrama, a sátira social e a farsa violenta sem nunca encontrar um tom consistente nesse pastiche de Bonnie e Clyde.
Grande parte dessa sensação vem da forma como o filme trata sua dupla protagonista. Buckley constrói uma Noiva inicialmente frágil, quase infantil, resultado da perda de memória após a ressurreição. Aos poucos, a personagem se transforma em uma figura cada vez mais errática e impulsiva, participando de assassinatos e fugas com um entusiasmo que o roteiro nunca consegue justificar plenamente. O arco dramático da personagem parece querer dialogar com temas de identidade, autonomia e rebelião feminina, mas esses elementos surgem de maneira dispersa, como ideias que nunca são realmente desenvolvidas.
Frank, por sua vez, é um personagem que o filme tenta humanizar através de sua solidão secular e de sua admiração por um ator de cinema, Ronnie Reed (Jake Gyllenhaal). Esse detalhe poderia funcionar como comentário sobre a relação entre monstros e cultura popular, mas a ideia acaba sendo explorada de forma superficial. Bale interpreta Frank com um misto de melancolia e brutalidade, mas o roteiro raramente oferece material que permita que essa dualidade se transforme em algo realmente trágico.
Essa dificuldade de aprofundar suas próprias ideias se reflete na estrutura do filme. A narrativa parece avançar por episódios desconectados: o encontro inicial no laboratório, a fuga de trem, o caos em uma sessão de cinema, o refúgio em uma festa aristocrática e o confronto final no drive-in. Individualmente, muitas dessas sequências têm potencial visual ou conceitual, mas o filme nunca consegue integrá-las em um arco dramático coerente. A sensação é de assistir a um projeto constantemente interessado em parecer excêntrico e exagerado, mas raramente preocupado em construir tensão ou desenvolvimento emocional.
Tecnicamente, a obra também vive de contrastes. A ambientação da Chicago dos anos 1930 é rica em detalhes, com design de produção que mistura o imaginário gótico do laboratório de Frankenstein com elementos de cinema noir e decadência urbana. O laboratório de Euphronius, por exemplo, é um dos poucos cenários que realmente capturam a atmosfera expressionista que o filme parece querer evocar. No entanto, essa estética não se mantém de forma consistente. Muitas sequências externas, especialmente as da fuga do casal, parecem visualmente genéricas, sem a identidade estilística que o conceito do filme sugeria.
A direção de Gyllenhaal também demonstra certa hesitação tonal. Há momentos em que o filme parece buscar um humor macabro quase cartunesco, especialmente nas cenas de violência abrupta. Em outros, tenta assumir uma gravidade quase operística, com discursos inflamados da Noiva sobre liberdade e identidade, tudo extremamente raso.
Nem mesmo o elenco consegue salvar completamente o projeto. Buckley é magnética como sempre, mas sua personagem nunca encontra uma trajetória emocional clara. Bale, mesmo com sua habitual intensidade, acaba limitado por um roteiro que transforma Frank em uma presença mais simbólica do que dramática. Bening, por sua vez, surge em momentos pontuais como a cientista Euphronius, mas sua personagem parece existir apenas para facilitar os eventos da trama. Isso sem falar de alguns detetives coadjuvantes que nada agregam ao enredo.
No fim, A Noiva! é um filme cheio de ideias, mas estranhamente vazio de propósito. Ele quer ser ao mesmo tempo uma releitura feminista do mito de Frankenstein, uma fábula sobre identidade, uma história de amor monstruosa, um noir criminal e uma sátira cultural sobre Hollywood e violência. Em vez de escolher uma dessas direções ou encontrar uma forma de conciliá-las, o filme tenta abraçar todas numa abordagem excêntrica, e acaba não desenvolvendo nenhuma. O resultado é uma obra curiosa, por vezes visualmente interessante e repleta de talentos diante e atrás das câmeras, mas que deixa a impressão constante de ser um projeto conceitualmente ambicioso que nunca encontrou sua forma final.
A Noiva! (The Bride!) – EUA, 2026
Direção: Maggie Gyllenhaal
Roteiro: Maggie Gyllenhaal (baseado em obra de Mary Shelley)
Elenco: Jessie Buckley, Christian Bale, Peter Sarsgaard, Annette Bening, Jake Gyllenhaal, Penélope Cruz
Duração: 126 min.
