Crítica | A Nova Catacumba e Outras Histórias, de Arthur Conan Doyle

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No presente compilado de críticas, trago três contos do escritor Arthur Conan Doyle, publicados em diferentes ocasiões e coletâneas aqui no Brasil. O primeiro deles, A Nova Catacumba, de 1898. O segundo, O Caso de Lady Sannox, de 1893. E por fim, O Funil de Couro, de 1902. Todas as três histórias analisadas são classificadas dentro do gênero “terror”, e cada uma adota um princípio distinto para a geração e conclusão do medo. Vocês conhecem esses contos? O que acham deles? Não deixem de comentar! E boa leitura a todos!

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O Caso de Lady Sannox

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Diferentes ilustrações para o conto, realizadas entre 1893 e 1906.

Um tanto aquém dos outros dois contos deste compilado (e o mais curto também), O Caso de Lady Sannox foi inicialmente publicado em jornais americanos em outubro de 1893, e no jornal britânico The Idler cerca de um mês depois, com onze ilustrações feitas por Misses Hammond. E assim como o autor faria em uma narrativa posterior (A Nova Catacumba), o enrendo aqui está centrado em uma vingança muito peculiar, desta vez, contra uma mulher e um homem.

Como o título nos diz desde o início, a história gira em torno de Lady Sannox, ícone da sociedade londrina, e que mantém um caso com Douglas Stone, um jovem e arrogante cirurgião. Ocorre que Lady S. é casada, mas as pessoas atribuem as suas muitas infidelidades (todas muito bem disfarçadas, mas mesmo assim, amplamente conhecidas) ao fato de que seu esposo é um “velho cego” — algo que o homem não era: nem uma coisa, nem outra. A narração desse comportamento libidinoso por parte de Lady S. e do teimoso cirurgião Douglas Stone chega às vias do escândalo, e é quando algo acontece, algo que vem para abalar as estruturas de toda a cidade e que, pela forma como o conto começa, já nos é possível adivinhar o destino dos personagens antes mesmo de a grande jogada ser descortinada para o leitor.

Como existem muitos detalhes nesse caso, algumas cenas parecem meio jogadas ou mal conectadas às ações que os personagens tomam a seguir, mas a proposta central do conto é perfeitamente compreensível e atingida pelo autor, com a realização de uma punição de fundo moral através da violência física, em uma sociedade conservadora (e hipócrita) como a londrina de finais do século XIX (como se não fosse a mesma coisa no mundo todo ainda hoje, não é mesmo?). Mas aqui ainda há um tempero adicional. Porque a punição acaba atingindo duas pessoas. Pois é… tem gente com quem não se deve brincar de jeito nenhum. Especialmente os quietinhos.

The Case of Lady Sannox (EUA, Reino Unido, outubro de 1893)
Autor: Arthur Conan Doyle
Publicação original: The Idler
No Brasil: L&PM Pocket (novembro de 2001)
Tradução: João Guilherme B. Lincke
30 páginas

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A Nova Catacumba

A NOVA CATACUMBA PLANO CRÍTICO

Diferentes ilustrações para o conto, realizadas entre 1898 e 1906.

Publicado no mesmo ano que O Gato do Brasil, com quem guarda muitas semelhanças, A Nova Catacumba é um conto genial em toda a sua simplicidade e temas que aborda. Quando publicado pela primeira vez, no The Sunlight Year-Book, o texto tinha como título Burger’s Secret, tendo o autor mudado-o para The New Catacomb a partir da coletânea The Green Flag and Other Stories of War and Sport, publicada no Reino Unido, Estados Unidos, Canadá e Dinamarca entre março e abril de 1900.

A trama começa com uma conversa meio indignada entre os estudiosos Dr. Julius Burger e seu amigo Mr. Kennedy, especialistas em antiguidade romana que discutem a origem de um bom número de valiosos e raros artefatos históricos encontrados por um deles. Num primeiro momento, a conversa segue livre de indicações macabras e se enquadra puramente em um patamar histórico, tendo em cena uma declarada rivalidade entre os dois estudiosos. E é justamente em torno dessa rivalidade que o autor lança a semente que nos levará para o horror. E tudo é feito de maneira sutil e orgânica, com um plano que foi claramente bem pensado para caber à personalidade da vítima, muito curiosa e insistente para qualquer novidade em sua área de pesquisa (quem nunca?).

Se na primeira parte ainda temos algumas pequenas lombadas no cruzamento da história dos dois indivíduos, na metade final, tudo flui perfeitamente bem. E é aí que as coisas ficam interessantes. A justificativa para o título ganha mais força e as muitas sugestões da primeira parte começam a se tornar realidade. Em poucas cenas, Conan Doyle cria uma profunda sensação de claustrofobia, medo (adicionado a um maravilhamento profissional, o que torna tudo ainda mais macabro), perfeita execução de uma intricada vingança e a abertura de uma discussão sobre a medida de punição de um crime fora das vias legais. Uma trama assustadora sobre um modo diferente de fazer alguém pagar por algo horrível que fez. O que também diz muito sobre o algoz da vez.

The New Catacomb (Reino Unido, 1898)
Autor: Arthur Conan Doyle
Publicação original: The Sunlight Year-Book
No Brasil: L&PM Pocket (novembro de 2001)
Tradução: João Guilherme B. Lincke
48 páginas

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O Funil de Couro

PLANO CRÍTICO O FUNIL DE COURO

Ilustrações originais do conto, feitas por André Castaigne.

Originalmente publicado na McClure’s Magazine (novembro de 1902) O Funil de Couro é mais um dos exemplos da habilidade de Arthur Conan Doyle em construir histórias de terror a partir de uma premissa simples, de onde surgem contatos históricos, pistas e adendos para que o público tire suas conclusões e, na reta final, as terríveis respostas para as nossas perguntas. A primeira publicação do conto foi nos Estados Unidos e a segunda no Reino Unido, pela The Strand Magazine, em junho de 1903.

Na trama, o narrador faz uma visita ao seu estranho amigo Lionel Dacre, que tem uma coleção de livros e artefatos ligados às mais obscuras fontes, poderes e acontecimentos duvidosos, um detalhe que o narrador simplesmente despreza (por achar tudo isso uma bobagem) mas que não faz com que ele se afaste de Dacre, a quem muito estima. A preparação do terreno para que o protagonista seja apresentado ao funil de couro do título é muitíssimo bem feita. Os eventos, mesmo costurando-se de maneira um tanto difícil no início, rapidamente encontram seu lugar e deixam o leitor tenso, sem saber exatamente o que esperar — e confesso que aqui tive receio de que a história seria facilmente entregue ao elemento clichê que se ensaiava, mas nada disso! O conto só cresce em qualidade.

A história então nos põe em contato com Marie-Madeleine Marguerite d’Aubray, a Marquesa de Brinvilliers (ou Brinvilliers-Lamotte), conhecida como a primeira mulher da História a cometer envenenamentos em série. A descrição da cena de um sonho no conto é fielmente baseada em pinturas e a narração feita com o tom correto de suspense, terror e indignação, onde mais uma vez o autor dosa as informações e deixa uma boa quantidade de sugestões e pistas para que o leitor cumpra o seu papel na criação desse cenário. Sem anticlímax, Doyle consegue quebrar algumas expectativas e conduzir o destino dos personagens no passado e no presente para um excelente encerramento, mantendo a atmosfera sombria intacta. Um conto sobre torturas e justiça medievais e sobre o terror de ser transportado para outro tempo e ver um dos piores monstros que existem: seres humanos em atos de maldade.

The Leather Funnel (Reino Unido, EUA, novembro de 1902)
Autor: Arthur Conan Doyle
Publicação original: McClure’s Magazine
No Brasil: L&PM Pocket (novembro de 2001)
Tradução: João Guilherme B. Lincke
40 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.