Crítica | A Nova Ilha do Tesouro

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A Nova Ilha do Tesouro (1947) é, para todos os efeitos, o primeiro real trabalho em mangá de Osamu Tezuka. Sua primeira investida na área artística, O Diário de Ma-chan (1946), foram diversas tiras que ele desenhou e escreveu, em pequenos textos, para o jornal infantil da Escola de Mainichi. No ano seguinte, durante o mês de janeiro, Tezuka teve a oportunidade de criar uma nova história, agora com um roteiro mais longo, não fazendo apenas o desenho de situações cômicas e atrapalhadas de um garotinho levado. Mesmo com os estudos da Faculdade de Medicina, o artista seguia com a sua atividade de desenhista, abrindo as portas para o que seria a sua carreira futura.

Ao contrário do que o título sugere, esta não é uma continuação ou recriação do Universo de Robert Louis Stevenson no famoso A Ilha do Tesouro (1881 – 1882), existindo apenas elementos em comum com a obra literária, tais como a ilha, o tesouro e o garoto ao lado de piratas. O roteiro nos faz acompanhar Pete, que tem um mapa deixado pelo pai, com a direção para… adivinhem só… uma ilha com um tesouro escondido, e este é o motivo pelo qual o vemos dirigir um carro à toda velocidade (sim… mas tudo bem, é um mangá de fantasia!) na abertura da história.

O roteiro explora laços de amizade e traz uma instigante cadência de acontecimentos, elemento igualmente elogiável através da excelente arte de Tezuka, com destaque para todas as cenas de ação, cheias de nuances de passagem do tempo que equivalem a cortes de cena muitíssimo bem feitos. Claro que há um número grande de segmentos forçados aqui, além de alguns preconceitos de época (especialmente na representação dos nativos na ilha, mas chamo a atenção para o fato de isto ser compreensível através de uma contextualização histórica, como também se fizeram necessárias na obra de Hergé, em Tintim no Congo e A Estrela Misteriosa), mas no final, a saga se mantém acima da média e garante um bom entretenimento, especialmente por misturar gêneros e modelos de personagens que já conhecemos de aventuras similares.

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Aquela ação com diagramação cinematográfica que você respeita.

A primeira versão deste projeto, entregue por Tezuka para a Ikuei Shuppan, tinha em torno de 250 páginas, o que estava muito além do que fora solicitado para a história. Foi quando Shichima Sakai entrou em cena. Ele fez inúmeras alterações no texto de Tezuka, assim como o corte de 60 páginas da versão original do projeto, ação que não deu nem tempo para que o autor ficasse bravo, porque desde a publicação da primeira parte, o público simplesmente amou a proposta, tornando A Nova Ilha do Tesouro um sucesso imediato, vendendo de maneira muito rápida algo em torno de 400.000 cópias, o que era um número notável para um mercado editorial com publicação de entretenimento infantojuvenil, apenas dois anos depois do término da Segunda Guerra Mundial.

Com o passar dos anos, Tezuka meio que desprezou o trabalho, por não considerá-lo de fato “seu”, dadas as grandes modificações feitas por terceiros, mas o autor sempre foi muito ciente de que, depois do sucesso (inesperado) que este trabalho teve frente ao público, ele ganhava reais chances de conseguir espaço como desenhista profissional, garantindo que seus projetos futuros fossem publicados. Com referências a Peter Pan e uma interessante abordagem sobre maturidade e escolha coerente de caminhos — mesmo que por uma criança a quem é oferecida uma realidade alternativa — A Nova Ilha do Tesouro dá o verdadeiro começo para a carreira de mangaká de Osamu Tezuka. Oficialmente nascia o pai do mangá moderno.

A Nova Ilha do Tesouro (Shin Takarajima) — Japão, 1947
Roteiro: Osamu Tezuka (modificado por Shichima Sakai)
Arte: Osamu Tezuka (alterada por Shichima Sakai)
Publicação original: Ikuei Shuppan (janeiro de 1947)
190 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.