Crítica | A Onda (2008)

Desde o fim do Terceiro Reich, uma pergunta que assombrou a história do século XX e também do século XXI foi se um regime tão destrutivo como aquele poderia retornar e sobre quais bases se ergueria para conseguir isso. De Theodor Adorno e Hannah Arendt ao cinema contemporâneo, a exemplo do recente filme alemão Ele Está de Volta, muitas foram as respostas a essa questão. Mas, ainda falando da sétima arte, provavelmente a melhor delas tenha sido dada alguns anos antes pelo diretor Dennis Gansel com o magnífico A Onda. Baseando-se em um episódio real acontecido na Califórnia em 1967, o longa-metragem de Gansel é, na verdade, uma refilmagem de um média-metragem estadunidense. Mas o fato de ser um filme feito por alemães na Alemanha dá um peso histórico incomparável ao remake.

Fica claro, de saída, o cuidado dos realizadores (excessivo ou não, fica o julgamento para o público) com o tema tratado. A aula sobre nazismo do professor Rainer Wenger (Jürgen Vogel) se transforma em uma aula sobre “autocracia”. A escolha de uma terminologia mais genérica, mais do que advertir o público de que personalidades autoritárias estão longe de serem exclusividades do nazi-fascismo, funciona para tornar os acontecimentos exibidos na tela um pouco menos traumáticos para o espectador alemão médio. Além disso, penso que escancarar o grupo formado em sala de aula por Wenger como uma gangue neonazista poderia inflamar e encorajar os impulsos mais mórbidos de grupos neonazistas de fato. A escolha me parece acertada em todos os níveis. Em A Onda, a coragem não se opõe à cautela. Após examinar os duríssimos últimos dias do Reich em A Queda – As Últimas Horas de Hitler, o cinema alemão toma novo fôlego para responder à questão mais urgente de nossa história recente.

O roteiro traça todo o perfil de um grupo liderado por uma personalidade autoritária. Não se torna nem superficial nem excessivamente intricado. Existe algo de didático em A Onda que é essencial para atingir seu objetivo, isto é, convencer o público de sua resposta. Há a figura de um líder forte e que agrega os seus comandados. Quando Wenger veste o personagem, automaticamente seus alunos o reconhecem como seu comandante, adotando sua postura, seu modo de agir e de falar. Os comportamentos ritualísticos (tão presentes no vilarejo de Haneke em A Fita Branca) chamam novamente a atenção nesse percurso. Todo aluno, para falar, precisa se levantar. Não se admite qualquer exceção à regra. Todos eles despem-se de seu ego para assumir o de seu líder. Assim se forma a massa de A Onda. Todos os elementos de coesão do grupo são fornecidos pelo roteiro de Dennis Gansel e Peter Thorwarth – da camisa branca que lhes serve de uniforme à saudação fascista obrigatória e à logo que os identifica.

Mas o texto escrito por Gansel e Thorwarth, por sua vez baseado no livro homônimo, vai além e localiza com precisão alguns dos mecanismos pelos quais se forma a massa. O processo de identificação dos alunos com seu professor inicialmente ocorre de modo pouco claro para ambas as partes, ainda que a maioria o tenha eleito seu líder. Com o avanço da narrativa, entendemos como fragilidades biográficas podem funcionar como pontos de ancoragem para esse processo. Algo que Freud chamaria de regressão em Psicologia das Massas e Análise do Eu, um de seus mais importantes textos sobre a cultura. O personagem Tim Stoltefuss (Frederick Lau), por exemplo, cujas carências familiares são deixadas implícitas (quando exclama “A Onda é tudo o que eu tenho!” na trágica cena final), acaba se identificando a Wenger como a um pai. É formidável a construção dessa ideia na cena em que o menino vai à casa de seu professor e acaba ajudando-o a lavar louças. Mais extraordinário é notar como Rainer Wenger é mostrado permissivo com todo esse processo, seduzido por sua própria posição de comando. Algo que sua esposa acusa.

Mas, se o roteiro de A Onda é suficientemente rico para suscitar muitas discussões e análises, a montagem também contribui bastante para que a história flua bem. Via de regra, escolhe cortes secos e ágeis, proporcionando o ritmo intenso do longa-metragem. Após a primeira aula do experimento de Rainer Wenger, o montador entrecruza os diálogos dos adolescentes com seus pais através de uma sequência de match cuts. Um estudante parece responder ao outro por meio de uma rima audiovisual, já que não estão fisicamente no mesmo cenário. Com isso, a montagem nos transmite todo o impacto inicial do experimento sobre os alunos. Os raccords dão a nítida sensação de conexão imediata entre os estudantes, unidos por uma ideia como uma autêntica massa, mesmo quando longe do ambiente escolar onde se reúnem. O montador Ueli Christen amarra seus planos refletindo a própria sutura ideológica do grupo. É gratificante notar que A Onda, por mais que se permita ser um filme acessível, também sabe ser sutil e sofisticado.

Quanto à direção de Dennis Gansel, ainda que ele não invente a roda, é preciso reconhecer que suas escolhas funcionam muito bem, por mais previsíveis que sejam. Há algumas espertezas do diretor realmente dignas de nota. Na famosa cena final, ele opta por um plano traseiro extremamente poderoso no momento em que Wenger entra no auditório para discursar a seus alunos. A referência é clara, ousada e utilizada no momento certo – após o público ter se aclimatado ao doloroso tema. Rainer entra no palco e se põe diante de seu séquito, despido de qualquer traço de professor, tal como Hitler fazia na Odeonsplatz diante da multidão que o aguardava. Após a óbvia alusão, a câmera em contra-plongée acompanha suas primeiras palavras, indicando seu domínio sobre a plateia. Gansel não faz nada que já não tenhamos visto em outros filmes, mas o efeito impressiona. Golpeia a própria consciência história dos alemães.

A maior advertência que A Onda deixa, após sua tragédia final, é a de que regimes totalitários podem se tornar inacreditavelmente grandes e poderosos. Maiores que seu próprio líder. Indomáveis até por ele mesmo. Isso sim nos fornece uma boa pista sobre como se atingem números tão astronômicos como os da destruição provocada pelo nazi-fascismo. E, para aqueles que chegarem ao final da projeção ainda duvidando da viabilidade de tais regimes em nosso tempo, sempre haverá o maravilhoso último plano quebrando a quarta parede como resposta.

A Onda (Die Welle) – Alemanha, 2008
Direção: Dennis Gansel
Roteiro: Dennis Gansel, Peter Thorwarth, Todd Strasser (romance)
Elenco: Jürgen Vogel, Christiane Paul, Frederick Lau, Jacob Matschenz, Jennifer Ulrich, Max Mauff, Max Riemelt
Duração: 107 minutos

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.