Home FilmesCríticasCatálogosCrítica | A Ordem (2024)

Crítica | A Ordem (2024)

Um passado perigosamente presente.

por Kevin Rick
1,7K views

Há um silêncio estranho que paira sobre A Ordem. Não o silêncio da paz, mas o da espera; o momento em que a violência se torna inevitável, mas ainda não aconteceu. É nesse intervalo que o filme constrói sua tensão, reconstruindo um dos capítulos mais sombrios e menos conhecidos da história recente dos Estados Unidos: a ascensão da organização terrorista supremacista branca que deu origem ao nome do filme, inspirada diretamente nos eventos reais do grupo The Order, ativo nos anos 80.

Dirigido por Justin Kurzel, A Ordem evita o espetáculo da violência e aposta em um realismo seco, quase jornalístico, que o torna bastante perturbador, mas também meio procedural. O filme abre com um assassinato, a execução de Walter West, um extremista “traidor”, e a partir daí vai traçando, passo a passo, a teia de um fanatismo crescente que se alimenta de paranoia, ideologia e frustração. Não há pressa, com cada ato de terror surgindo como consequência inevitável de crenças distorcidas e de um país que já carregava ódio dentro de si.

O protagonista, Terry Husk (interpretado com uma contenção melancólica por Jude Law, que claramente entende o desgaste moral de seu personagem), é o olhar racional dentro do caos. Um agente veterano do FBI, cansado de caçar monstros humanos, já tendo lidado com o Ku Klux Klan e a Cosa Nostra, que busca descanso em uma pequena cidade do noroeste americano. O que encontra, porém, é a semente de uma nova forma de extremismo organizada, doutrinada e perigosamente moderna. Sua rotina normal logo é substituída por uma caça ideológica, e o que começa como um caso de falsificação e explosivos improvisados se revela uma conspiração racial que usa literatura de ódio (The Turner Diaries) como manual para a guerra civil.

O roteiro acerta ao colocar Husk em contraponto com Bob Mathews (interpretado com uma mistura magnética de convicção e insanidade por Nicholas Hoult). Mathews é a alma do fanatismo; um homem que acredita estar cumprindo uma missão divina de “purificação racial”, e que vê a violência não como meio, mas como linguagem. O filme nunca tenta humanizá-lo no sentido sentimental, mas o compreende. Mostra como ele acredita, como se constrói a retórica do mártir e como a fé pode ser moldada em arma. Quando Mathews cita versículos ou fala sobre justiça, a câmera o enquadra como se fosse um pregador à beira do apocalipse.

A partir desse estabelecimento dos personagens, o filme se encaminha para um bom drama detetivesco com camadas críticas e temáticas perturbadoras. Não acho que o roteiro consegue elevar tanto os personagens para além de seus arquétipos, com dramas pessoais burocráticos, mas todos servem bem ao competente thriller policial de Kurzel. O aspecto histórico também é bem trabalhado. O filme não se limita a mostrar o nascimento de um grupo terrorista, mas sugere o estado de uma nação fragmentada, onde veteranos desiludidos, desempregados e racistas encontram propósito em ideologias que prometem devolver-lhes “controle”. Essa dimensão política é o que tenta elevar A Ordem acima do simples thriller policial, apesar de não achar que a obra vá muito além do funcional nesse sentido.

Do ponto de vista formal, há mérito. A direção é metódica e paciente, mas capaz de momentos de grande tensão: o assalto ao carro-forte na Califórnia é uma sequência exemplar, não por seu ritmo, mas pelo modo como o caos se instala lentamente, culminando na tragédia. A fotografia adota tons desbotados, reforçando a sensação de um mundo em decomposição moral; tudo parece lavado, frio, corroído pela ideologia. A trilha sonora é discreta e pontual, sustentando um clima constante de ameaça.

A Ordem não é um filme fácil. É denso, incômodo e desprovido de alívio. Em tempos em que ideologias extremas voltam a circular com novas roupagens, revisitá-las no contexto de sua gênese histórica é um ato de lucidez. O filme mostra que o terror não nasce do nada, é cultivado em discursos, legitimado por omissões e normalizado pela indiferença. No cômputo geral, ainda penso que o material não foge tanto de ser um eficiente thriller policial, com personagens convencionais (mas ainda bons dentro de clichês, vale ressaltar), mas com um contexto político e social que ajuda a tornar a produção uma discussão que vai além da perseguição de gato e rato da trama. No meio da busca policial, temos o retrato de um país à beira de um colapso moral, e de um homem tentando contê-lo enquanto ainda acredita em instituições que já começaram a ruir.

A Ordem (The Order) – Canadá, EUA, Reino Unido, 2024
Direção: Justin Kurzel
Roteiro: Zach Baylin (baseado no livro The Silent Brotherhood, de Kevin Flynn e Gary Gerhardt)
Elenco: Jude Law, Nicholas Hoult, Tye Sheridan, Jurnee Smollett, Alison Oliver, Marc Maron
Duração: 116 min.

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais