Crítica | A Origem do Falcão Negro (Military Comics, 1941)

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Durante a Segunda Guerra Mundial, a indústria de quadrinhos americana voltou uma grande parte de sua produção e novas criações para os dramas de guerra, incentivando soldados e reafirmando para a população o sentimento de patriotismo. Praticamente todo herói e personagem com algum tipo de linha de ação em suas revistas, na época, lutaram na Segunda Guerra, da Mulher-Maravilha (tanto na Sensation Comics quanto na Mulher-Maravilha Vol.1) ao Capitão América (veja Capitão América #1 a 5, de 1941). Da Sociedade da Justiça ao Falcão Negro e, em pouco tempo, ao seu Esquadrão — chamado aqui no Brasil, por um tempo, de Os Falcões (cabendo também versões sem o “Os” na frente) ou simplesmente Falcões Negros.

O personagem apareceu pela primeira vez na edição de estreia da revista Military Comics Vol.1, com data de capa de agosto de 1941. Sobre sua polêmica criação, vamos dizer inicialmente que o roteiro foi assinado por Bob PowellWill Eisner e a arte por Charles “Chuck” Cuidera (também colaborando na concepção do enredo para a primeira aventura). Quanto à “polêmica criação”, a questão é a seguinte. Cuidera  afirmava que Eisner apenas nomeou o personagem e seu Esquadrão, enquanto ele e Powell criaram sozinhos o conceito, o texto da primeira edição e os desenhos para o Falcão Negro. Já Eisner dizia foi ele quem criou o Falcão Negro, tendo, no processo, também participado da criação, Cuidera e Powell.

O presente compilado traz as primeiras duas edições de Falcão Negro (Blackhawk + Blackhawk Squadron), publicadas na estreante revista Military Comics, entre agosto e setembro de 1941.

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A Origem do Falcão Negro

The Origin of Blackhawk — Military Comics #1 (agosto de 1941)

O roteiro não deixa dúvida nenhuma quanto ao lugar, o conflito e a nacionalidade do herói. Varsóvia, Polônia, 1939. Invasão Nazista. Nesse começo de série, o protagonista é polonês (uma de suas versões futuras, também polonesa, se chamaria Janos Prohaska), mas depois teria sua nacionalidade mudada para americana, em tese, para acompanhar os eventos políticos que já não eram mais os da 2ª Guerra Mundial, portanto, um exímio piloto polonês com grande habilidade de combate mano-a-mano fugia um pouco do que os tempos pós-Guerra precisavam — isso, segundo os editores, claro, uma vez que com um bom roteiro e competente contextualização é possível transformar até um homem com fantasia de morcego em alguém relevante para os quadrinhos, logo, a desculpa não cola nem um pouco. Mas foi isso que disseram quando alteraram a nacionalidade do personagem.

A primeira parte da história é centrada de fato na origem do Falcão. Vale dizer que não é dado nenhum nome para ele. Acompanhamos o ataque impiedoso dos Nazistas, as ordens do carniceiro Capitão Von Tepp, e então, o foco no FN pilotando, sozinho, um avião contra o pesado ataque alemão. Ele derruba várias aeronaves e chama a atenção de quem está no solo, amedrontando os inimigos pela habilidade nas manobras e pela forma destemida com que leva adiante os seus ataques. Eventualmente ele acaba caindo, escapando da morte por pouco (o ponto heroico e forçado do roteiro que a gente sabe que vai acontecer, mas ainda bem, passa rápido) e indo para a sua fazenda, apenas para encontrar a irmã Connie morta e o irmão Jack quase morrendo, o que de fato acontece, em pouco tempo, nos braços do piloto.

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As duas primeiras páginas de Falcão Negro.

Como uma boa história de guerra, temos segmentos militares aqui que pensam em estratégias de combate — algumas expostas de maneira muito corrida, outras, insuficientes –, além de planos de ataque colocados em prática pelos dois lados da moeda e, um pouco diferente do esperado, um final que abraça o código de honra que será a marca do Falcão Negro, dando a oportunidade de seu inimigo lutar contra ele com as mesmas armas, apenas atacando de outra maneira, como acontece no final, quando é traído. Com uma pequena indicação amorosa entre o protagonista e a enfermeira inglesa resgatada na França e levada para a Blackhawk Island, e uma promessa de luta contra as forças inimigas no Continente, A Origem do Falcão Negro estabelece muito bem o novo personagem, que carrega desde os valores esperados de um bom soldado, até uma linha peculiar de humor e canalhice que se contextualiza pela época e que faz dele alguém muito próximo de nós, facilmente relacionável.

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O Covarde Morre Duas Vezes

The Coward Dies Twice — Military Comics #2 (setembro de 1941)

Em A Origem do Falcão Negro tivemos mais a “história de um homem” do que de um grupo. Claro que a edição apresentava, no fim, alguns companheiros cercando o castelo francês onde se escondiam os nazistas, mas a trama como um todo estava mesmo é no Falcão Negro. Aqui, em O Covarde Morre Duas Vezes, segunda revista a elencar o personagem, temos de fato a primeira formação do Blackhawk Squadron, que traz, além do Falcão Negro, os seguintes aliados: Baker (piloto de caça britânico); Andre Blanc-Dumont (também conhecido como “Iron Face”, ou “The Man in the Iron Mask”, piloto de caça francês); Boris (piloto russo de um Grumman XF5F Skyrocket); Hans Hendrickson (o mais velho e mais pesado membro do grupo, um piloto alemão que também é médico); Olaf Bjornson (piloto norueguês); e Stanislaus Drozdowski e Zeg (ambos pilotos poloneses). Como o tempo, o Esquadrão iria passar por mudanças, com a saída e entrada de novos membros, assim como modificações de construção de personagens, quando o título deixasse de ser publicado pela Quality Comics.

Nessa história, começamos com uma batalha dos Falcões Negros contra a aviação Nazista, sobre o Canal da Mancha. É importante lembrar que quando esta edição foi publicada, em setembro de 1941, não havia completado nem um ano do encerramento da Batalha da Grã Bretanha, que colocou a Royal Air Force (RAF), do Reino Unido + a Royal Canadian Air Force + diversas forças aéreas aliadas (estrangeiras) contra a Luftwaffe germânica e o Corpo Aereo Italiano/Regia Aeronautica (CAI), que se enfrentaram entre 10 de julho e 31 de outubro de 1940. A lembrança dessa batalha, a tomada de riscos e a ressalva do valor do soldado ou do cidadão aliado/resistente que, a cada novo ato, impedia o avanço dos Nazistas são colocados como um lembrete doloroso nessa saga, que, assim como a anterior, não deixa de representar uma porção de mortes. Inclusive de heróis.

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A edição que traz a primeira formação dos Falcões Negros.

Quando os Falcões Negros se encontram com um jovem desertor britânico, a recepção não é nada positiva. E como o Falcão-mestre fala, os homens ali perderam gente demais e viram coisas ruins demais para suportarem fraquezas alheias. Mas por serem heróis, eles não matam ou maltratam fisicamente o covarde, que em um primeiro momento é forçado na história, certamente como um recurso narrativo para a sua redenção, no desfecho. A perseguição em Paris ganha um ar eletrizante e é muito bem pensada, tanto no uso de um mendigo e aleijado indo para cima dos Nazistas, tentando ajudar os Falcões, quanto na “fuga de última hora“, dando um bom tom de veracidade e tirando a aura de “vitória fácil” que o enredo poderia ter sobre os pilotos aqui. O final traz, de maneira muito curiosa, os Falcões chorando, quando descobrem o sacrifício que o (ex) covarde fez para salvar a vida deles. Mesmo tropeçando no início e com os diálogos um tanto truncados do desenvolvimento, estamos diante de uma boa apresentação desse Esquadrão que teria uma longa e querida história nos quadrinhos daqui para frente.

Military Comics Vol.1 #1 e 2 (EUA, agosto e setembro de 1941)
Publicação original:
Quality Comics
No Brasil: Apenas edição #1, em duas ocasiões: Origens dos Heróis – 3ª Série #6 (Ebal, 1976) e Álbum Juvenil – Série B #14 (Gibizada, 1995).
Roteiro: Will Eisner, Bob Powell
Arte: Chuck Cuidera, com Bill Smith na edição #2
Arte-final: Chuck Cuidera, com Bill Smith na edição #2
Letras: Sam Rosen
Capas: Will Eisner, Chuck Cuidera, Bill Smith
Editoria: Will Eisner
30 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.