Crítica | A Origem Secreta da Patrulha do Destino e Outras Histórias (1966 – 1987)

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Criada na edição #80 da revista My Greatest Adventure, a Patrulha do Destino se estabeleceu com facilidade e rapidamente caiu nas graças do público, graças a uma estranha combinação de tramas bizarras e equipe estranha, com humor ácido e muito mistério envolvendo os próprios membros. Muitas histórias de ficção científica e de fantasia moldaram a jornada da equipe, que um ano depois de ter sido criada, já ganhou título próprio, sendo o carro-chefe do que antes era a MGA. No presente compilado, trago as críticas para as participações da Patrulha do Destino em diversas revistas (fora de seu título solo) entre os anos de 1966 e 1987.

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Codinome Homem-Negativo

Alias Negative Man

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É muito engraçado quando a gente se acostuma com o estilo de um roteirista, no decorrer de uma longa fase, e depois dá de cara com outro tipo de enredo. Esta foi a minha sensação ao ler essa saga da Patrulha do Destino dividindo louros com o Flash (Barry) nas páginas da Brave and the Bold Vol.1. Se eu já achava uma imensa bobagem algumas resoluções de Arnold Drake na Doom Patrol Vol.1, qual não foi a minha surpresa em ver uma sequência de diálogos quase infantis nessa história escrita por Bob Haney, que não soube nem um momento capturar o lado cômico e um tanto sombrio, cínico e bizarro da Patrulha… E vejam, isso é muito curioso de se constatar, porque ele é o co-criador da equipe, ao lado de Drake, mas há certamente uma visão bem diferente entre esses criadores quando o assunto é o tratamento a ser dado para o time.

Aqui, o Chefe é tratado como um papai quase super-poderoso e, no cerne dos problemas, está o Homem-Negativo, que é denominado “o membro mais forte da Patrulha”. Nessa trama, ele é vítima de um plano da Irmandade Negra (claro!). Para ser sincero, a presença do Flash aqui é apenas para valer a capa e a ideia de duplinhas de ação, que eram a base nessa revista. Porque o grande destaque é realmente da Patrulha e até a junção do time com o velocista parece mal-encaixada, com os esquisitões sobrepondo-se ao novo parceiro. A ação funciona em termos de nos deixar curiosos para o que deve acontecer com o Homem-Negativo e quando, enfim, a arte e o roteiro resolvem destacar um pouquinho o Flash, temos aquela sensação de outra história sendo contada. No fim das contas, o enredo não consegue sair da média.

Brave and the Bold Vol.1 #65 (EUA, maio de 1966)
Roteiro: Bob Haney
Arte: Dick Giordano
Arte-final: Sal Trapani
Letras: Stan Starkman
Capa: Bruno Premiani
Editoria: George Kashdan
24 páginas

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A Patrulha do Destino Vive Para Sempre

The Doom Patrol Lives Forever

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Depois da morte da primeira formação da Patrulha do Destino em O Começo do Fim, havia a dúvida se a DC Comics realmente assumiria a morte da equipe ou se arranjaria um jeito para trazê-la de volta à ativa. E como estamos falando de quadrinhos, é claro que a equipe voltou! Mas voltou de um jeito respeitoso frente à primeira formação e explicada um ótimo roteiro de Paul Kupperberg. Essa segunda formação do grupo (que aqui no Brasil recebeu o nome de “Patrulha da Lei”) tinha a segunda versão do Homem-Robô (ainda Cliff, mas num outro corpo, com outro design, cuja explicação de COMO foi reconstruído não é dada aqui. Isso só viria em A Origem Secreta da Patrulha do Destino) mais os seguintes estreantes nos quadrinhos: Celsius (Arani Desai), Mulher-Negativa (Valentina Vostok) e Vendaval ou Tempest (Joshua Clay).

A formação aqui é realmente interessante, com dois homens e duas mulheres, sendo uma hindu, uma russa e um homem negro, algo que mostra uma interessantíssima mudança de perspectiva na condução da editora (lembrando que a última formação da Patrulha acontecera 9 anos antes dessa). Nessa nova equipe, temos a solene reprodução dos momentos finais da Doom Patrol Vol.1 e uma rápida e aceitável explicação para Cliff ser o único a sobreviver à explosão [bem… no futuro, isso seria retconado…]. O que vem em seguida é, de fato, o único passo em falso do roteiro nesse pequeno arco, mas eu ainda acredito que, se a série tivesse engrenado, Kupperberg daria maior suporte às origens (bem explicadas) do novo grupo, começando pela remontagem do Homem-Robô.

O texto utiliza bem o mistério a seu favor, deixando a curiosidade sobre como a Nova Patrulha do Destino chegou ao QG da Patrulha antiga e também como cada um dos membros foi arregimentado para o novo time. Algumas respostas são dadas, outras apenas ensaiadas, mas nesse aspecto não existem problemas de concepção, porque não são coisas que interferem diretamente no aproveitamento da história, da qual o principal vilão é o General Immortus (aliás, a escolha do vilão é bem simbólica aqui, não?). Também temos a visita do Cossaco (em busca da cosmonauta Valentina) e de Matt Cable (sim, o amigo/crush de Abigail Arcane, lá das páginas da Monstro do Pântano Vol.2), o que torna a história cheia de reviravoltas e com uma estrutura de nova formação de equipe que nos mantêm interessados todo o tempo. Uma pena que a saga não continuou. Exceto pelo impasse da abertura, para explorar totalmente a trajetória de Cliff, esse retorno da Patrulha pelas mãos de Paul Kupperberg (e com a arte fantástica de Joe Staton), 9 anos depois da morte da equipe original, é simplesmente sensacional.

Showcase Vol.1 #94 a 96 (EUA, setembro a dezembro de 1977)
No Brasil:
 Patrulha da Lei (Edição Extra de Cinemin), Ebal, 1981
Roteiro: Paul Kupperberg
Arte: Joe Staton
Arte-final: Joe Staton, Frank Chiaramonte, Bruce D. Patterson
Cores: Liz Berube
Letras: Bill Morse, Ben Oda
Capa: Jim Aparo
Editoria: Paul Levitz
24 páginas (cada edição)

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A Guerra da Gravidade

A Matter of Gravity + What Goes Up… Can’t Come Down + The Gravity War

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Não creio que exista no dicionário uma quantidade correta de palavras que consigam expressar o tamanho da chatice que foi ler essas três edições com a Patrulha sendo “participação especial” na revista Superman Family, no bloco das histórias da Supergirl. Como é comum em edições assim, temos um princípio interessante, mas isso só acontece no bloco da Patrulha. Esse princípio se mantém assim ao longo de praticamente toda a primeira edição, mas o grande problema de ordenação da história acaba colocando tudo a perder.

Isso porque a equipe é realmente uma “convidada especial”, não um grupo que dividirá a história com Kara, questão que torna as revistas tremendamente chatas, porque quando a grande ameaça aparece, formam-se duas frentes de batalha e nós só estamos interessados em uma delas. A arte ainda consegue encher um pouco os olhos, mas não é um efeito que dura muito, já que precisamos lidar com as segmentações inúteis do texto Gerry Conway — que para piorar, ainda trazem aquelas horrorosas descrições de ações para o que a arte já está mostrando, e isso em um quadrinho de 1978! Os quadrinhos já tinham há muito abandonado esse tipo de narrativa como base… Enfim, uma história ruim e que é capaz de fazer qualquer um ganhar um campeonato de bocejos…

Superman Family Vol.1 #191 a 193 (EUA, outubro a dezembro de 1978)
No Brasil:
 Supermoça (Edição Extra de Superman), Ebal, 1980
Roteiro: Gerry Conway, Scott Edelman
Arte: Arvell Jones
Arte-final: Romeo Tanghal
Cores: Gene D’Angelo, Jerry Serpe
Letras: Shelly Leferman, Mike Stevens
Capas: Rich Buckler, Dick Giordano, Ross Andru
Editoria: E. Nelson Bridwell
24 páginas (cada edição)

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A Mulher-Negativa Enlouquece

Negative Woman Goes Berserk

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Esta é uma história interessante sobre os dilemas de ser herói, voltando às origens um tanto existenciais da antiga Patrulha. O que pesa nesta trama é que as explicações acabam parecendo muito forçadas, testando progressivamente a nossa paciência e suspensão da descrença. E ainda tem o fato de que surge pela primeira vez nos quadrinhos, justamente nesta edição, o Besouro Bisonho (Ambush Bug), que definitivamente não cabe bem no enredo e acaba desviando muito a a atenção, atrapalhando a ação do Superman e também da Patrulha do Destino, que precisa lidar com uma descontrolada Mulher-Negativa.

O princípio da luta é bom. Não há enrolações por parte do roteiro nesse momento e o Azulão faz o primeiro papel de “salvador do dia”, até antecipando algo que não apareceria muito aqui, já que a ideia original — e isso só descobrimos depois — é contar, de maneira indireta, a origem da Mulher-Negativa. Quando essa explicação chega, fica bem difícil engolir a enorme quantidade de coincidências, mas temos que aceitar o que está posto. Aqui entendemos o por quê da diferença de uso dos poderes por Valentina e Larry e vemos pela primeira vez a heroína soviética com as bandagens especiais, exatamente como o seu antecessor utilizara. O final da história é triste, mas como disse antes, traz à tona algo que era frequente na Patrulha original, ou seja, os dilemas íntimos de cada herói enfrentando sua estranha condição e sua rejeição diante do mundo.

DC Comics Presents Vol.1 #52 (EUA, dezembro de 1982)
Roteiro: Paul Kupperberg
Arte: Keith Giffen
Arte-final: Sal Trapani
Cores: Gene D’Angelo
Letras: Ben Oda, Phil Felix
Capa: Keith Giffen, Dick Giordano
Editoria: Julius Schwartz
24 páginas

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Stand-ins for Supergirl e Re-Enter: Reactron

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Essa história é muitíssimo mais interessante pela ótima arte de Carmine Infantino (com finalização de Bob Oksner) do que pelo básico roteiro, que é bem mais uma jornada pessoal (e, pra ser sincero, bem chatinha) da Supergirl. Mas aqui — pelo menos — temos uma realidade mais palatável que aquela mostrada em A Guerra da Gravidade.

No presente caso, a Patrulha do Destino tem a devida importância e é colocada como uma verdadeira aliada para resolver o problema da vez, aparecendo primeiro no final da edição #7 (bem… a Mulher-Negativa aparece) e participando de uma caçada pessoal que se liga ao drama da kryptoniana no andamento da jornada. A mudança de blocos é o ponto que a gente mais gosta aqui, principalmente quando sumimos das cenas chaaaaaatas que mostram Kara na Universidade. A verborragia, os momentos posteriores com o típico “drama de jovem universitário americano” é daqueles que nos fazem revirar os olhos. Em compensação, quando a luta começa de fato, a gente aproveita toda a movimentação, tanto do lado da Supergirl quanto do lado da Patrulha do Destino, o que faz com que a história termine solidamente acima da média.

Supergirl Vol.2 #8 e 9 (Daring New Adventures of Supergirl) — EUA, junho e julho de 1983
Roteiro: Paul Kupperberg
Arte: Carmine Infantino
Arte-final: Bob Oksner
Cores: Tom Ziuko
Letras: Ben Oda
Capas: Gil Kane
Editoria: Julius Schwartz
24 páginas

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A Origem Secreta da Patrulha do Destino

The Secret Origin of the Doom Patrol!

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Ah, que maravilha é ler uma história bem escrita da Patrulha do Destino, com explicações racionais e bom tratamento para todos os personagens em cena! Parte da série Origens Secretas (que neste Vol.2 trazia as histórias de origem pós-Crise para os principais grupos e personagens da DC) essa trama explora as duas versões da equipe que existiram até aquele momento, ajustando de maneira lógica os eventos de cada uma delas, do seu nascimento ao seu desmembramento. E tudo começa com Cliff voltando para casa, numa temporalidade que ainda não conhecemos, mas que ficará clara do meio da saga para frente.

O roteiro de Paul Kupperberg utiliza essa trama como um “esquenta” para um futuro título solo da Patrulha que ele escreveria (Doom Patrol Vol.2). A chegada de Cliff ao antigo QG da antiga equipe é o pivô para a recontagem orgânica de como tudo começou… Em suas memórias, o texto e a maravilhosa arte (aqui, a cargo de John Byrne) nos fazem passar de maneira rápida e com escolhas mais do acertadas pelos principais eventos do passado da equipe, organizados de maneira cronológica, facilitando um melhor aproveitamento desses acontecimentos. A Patrulha sempre esteve envolvida em mistérios, e os detalhes da vida passada do trio de heróis + o Chefe (vidas das quais só conhecemos o básico nas páginas da My Greatest Adventure #80) foram dados de maneira picotada ao longo do tempo, e quando se tratou da segunda formação da Patrulha… nem isso.

Aqui, porém, o roteiro corrige essas estranhezas relacionadas à formação do grupo e retoma as batalhas contra principais vilões icônicos e bizarros. A diagramação inteligente de Byrne acrescenta ainda mais fluidez a esses eventos, e é impressionante que uma grande quantidade de história seja condensada em tão pouco espaço e que tudo faça o mais perfeito sentido, além, é claro, de divertir o leitor. O momento atual da vida de Cliff só é conhecido na reta final, quando nos é revelado o que aconteceu com a Nova Patrulha; quem fez o modelo 2.0 do Homem-Robô; a parceria de Cliff com os Titãs e os novos caminhos políticos e burocráticos de Valentina, a Mulher-Negativa. Tudo, nessa origem secreta, transpira nostalgia e carrega um denso ar crepuscular. Coisa realmente incrível de se ler e uma baita preparação para o futuro (e 2º) título solo da Patrulha do Destino.

Secret Origins Vol.2 – Annual #1 (EUA, setembro de 1987)
Roteiro: Paul Kupperberg
Arte: John Byrne
Cores: Carl Gafford
Letras: Albert DeGuzman
Capa: John Byrne
Editoria: Robert Greenberger
30 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.