Crítica | A Outra (1988)

estrelas 5,0

O famoso aforismo do Templo de Apolo em Delfos, “Conhece-te a ti mesmo“, pode ser visto como um plano de fundo realista e imperativo para a história que acompanhamos em A Outra, a coroação da lista dos filmes mais maduros de Woody Allen, ao lado de Interiores e Setembro.

Gena Rowlands interpreta aqui uma personagem complexa, que apesar do tratamento compassado do roteiro, inunda a tela com suas reflexões a respeito de seu casamento, de suas conquistas pessoais, seu relacionamento com amigos e familiares, seus sonhos jamais realizados, sua auto-enganação de que a vida é perfeita, que está tudo bem e que tudo o que poderia ser feito, já foi feito. No momento que vemos essas reflexões passarem de forma inicialmente indireta na tela, notamos que há algo de desalentador na postura da protagonista que nos faz duvidar de todo aquele círculo de amigos, encontros todos os dias da semana, extremo sucesso profissional. Marion é o tipo de mulher e pessoa que se cercou de sucessos para tentar se convencer de que não é um fracasso, mas então é confrontada com o fato de jamais ter ido ir atrás daquilo que realmente queria para si. E a partir deste ponto as coisas se tornam verdadeiramente intricadas no filme.

Contando com o fotógrafo Sven Nykvist, o mais importante diretor de fotografia de Ingmar Bergman, Allen criou um ambiente esteticamente convidativo em contraste com o inquietante tema retratado em seu texto. A paleta utilizada é predominantemente quente, alternando-se, no início e no fim, com tons de marrom e bege, dando-nos uma ideia de acolhimento ao mesmo tempo que representa uma chamada austera e sombria para a [verdadeira] realidade. O efeito disso no público é tremendo e dá suporte à jornada de Marion em sua maturidade tardia e seu conhecimento de si. Como complemento, a direção de arte foca essencialmente em ambientes isolados e vazios ou com desenho de produção simples, alternando, nos flashbacks, com sets visualmente completos e escuros, parte visual da memória que o roteiro finaliza com perfeição de historiador no último monólogo de Marion.

Ao fazer a sua versão de Morangos Silvestres, Allen mergulhou com profundidade nas mais diversas crises de alguém ao longo da vida, como a passagem pelos 40 e 50 anos, o legado que se pode deixar após a morte, a busca por um amor verdadeiro e a incômoda pergunta “o que eu fiz da minha vida ao longo de todos esses anos?“. Para dar conta dessas reflexões existenciais, o diretor fez uso de narração off e demarcação do presente em basicamente dois âmbitos textuais, um na residência de Marion e todos as coisas a ela relacionada e outro no seu “escritório” alugado para conseguir escrever o livro (bloco que a fará conhecer a personagem de Mia Farrow) e a partir dos quais veremos desencadeadas algumas das decisões mais difíceis de sua vida madura.

Contam aí também uma sequência de sonho em que vemos pelo menos três níveis cênicos — dentre eles um teatral que é gloriosamente bem dirigido e fotografado –, projeções confusas da personagem e, na reta final, uma fixação maior do presente, como se ela de fato tivesse alcançado o seu maior objetivo e conseguido encontrar esperança. A partir desse momento, o “dia de hoje” deixa de ser desalentador e passa a ser um horizonte de novidades, parte de um recomeço. É como se mudássemos do Torso Arcaico de Apolo, o analístico e introspectivo poema de Rilke citado no início da obra, para A Esperança I (1903), de Klimt, o quadro com uma mulher grávida que de fato nos dá a impressão de que algo belo está acontecendo e se mantém ali, temporariamente parado, cheio de possibilidades, esperando o momento certo para vir à luz. Em última análise, A Esperança também é “a outra mulher” do título original, aquela que dá a Marion a vontade de mudar; papel diferente da também “outra mulher”, personagem de Farrow, que desencadeou o processo que fez Marion olhar para dentro e depois para fora e então perceber que algo estava muito errado com praticamente tudo em sua vida.

A Outra é um filme sobre um despertar. Um drama forte, dirigido de maneira criativa por Woody Allen e com um roteiro que pode poupar ao espectador pelo menos uns 5 anos de análise. E gerar aquele sentimento de que não custa nada sentar ou deitar um pouco, colocar a Gymnopédie Nº 1 de Erik Satie para tocar e tentar encontrar núcleos de esperança que possam gerar um novo começo. Uma outra história. A outra mulher.

A Outra (Another Woman) — EUA, 1988
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Gena Rowlands, Mia Farrow, Ian Holm, Blythe Danner, Gene Hackman, Betty Buckley, Martha Plimpton, John Houseman, Sandy Dennis, David Ogden Stiers, Philip Bosco, Harris Yulin, Frances Conroy, Fred Melamed, Kenneth Welsh
Duração: 81 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.