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Crítica | A Outra Face da Violência

Vigilantismo de categoria.

por Ritter Fan
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Desejo de Matar não foi o único, mas provavelmente foi o maior responsável pela moda dos “filmes de vingança” ou “filmes de vigilante”, que, dentre outros subgêneros – como o de “filmes de desastre” – tomaram de assalto os anos 70. Claro que o longa dirigido por Michael Winner não criou o subgênero, mas certamente sedimentou uma fórmula, com os protagonistas das obras que se seguiriam sendo vividos por atores sem grandes latitudes dramáticas, mas capazes de atrair todas as atenções quando entram em cena e que vivem personagens sérios, que transparecem poucas emoções para além de raiva, fúria, frieza e ferocidade, além de serem sempre muito econômicos em palavras.

Via de regra, as situações que servem de gatilho narrativo para esses filmes são as mais terríveis possíveis – no caso do Paul Kersey de Charles Bronson, sua esposa é espancada até a morte e sua filha é estuprada, ficando catatônica – de forma que o vigilantismo ganhasse uma “justificativa” que pudesse ser encarada pelo espectador como suficiente para as mortes que se seguem, normalmente em obras menos do que cuidadosas em seu desenvolvimento. Mas nem todo os filmes em que uma pessoa comum parte para fazer justiça extrema com as próprias mãos são iguais. Desejo de Matar mesmo tem sua inegável qualidade na construção de sua atmosfera e esse é também o caso do esquecido A Outra Face da Violência, dirigido pelo igualmente pouco lembrado John Flynn, com base em história original de Paul Schrader que o próprio Schrader, no ano seguinte a seu trabalho em Taxi Driver e Trágica Obsessão, transformou em roteiro com Heywood Gould que, por sua vez, no ano seguinte, seria responsável pela adaptação de Meninos do Brasil, romance de Ira Levin.

Estrelado por um William Devane que estava se posicionando para ser um astro de ação, algo que nunca aconteceria de verdade, ainda que ele tenha tido (e, na data de publicação da presente crítica, continue tendo, na verdade) uma carreira prolífica, o longa lida com o retorno de seu personagem, o Major Charles Rane, de um campo de prisioneiros no Vietnã, ao lado de seu colega, o Sargento-Mestre Johnny Vohden (Tommy Lee Jones ainda galgando seu caminho em Hollywood). Recebidos como heróis, cada um segue para sua respectiva vida, com Rane ganhando homenagem de sua cidade na forma de um Cadillac conversível vermelho e uma maleta com 2.555 dólares de prata, um para cada dia em que ficou em cativeiro, e logo recebendo notícia diretamente de sua esposa de que ela, no tempo em que ele passou desaparecido, apaixonou-se pelo policial local e está para casar com ele.

Rane recebe o acolhimento e a rejeição da mesma maneira, com uma completa e absoluta passividade, algo que eu prefiro interpretar como uma escolha deliberada de Flynn ao instruir Devane em seu papel, como se o personagem tivesse tido sua vida sugada dela pelo tempo no cativeiro, algo que vemos apenas em flashes muito rápidos para o passado. E, quando a desgraça se abate sobre ele e sua família, com um grupo de bandidos assaltando sua casa para roubar os dólares de prata, sua reação durante e após o evento que custa sua mão (depois substituída por um gancho prostético que Rane, claro, afia para usar como arma) e sua família continua igual, ainda que seja possível notar que Rane mudou e, agora, só tem a vingança em seus olhos.

Aliás, a sequência da invasão domiciliar é um primor de crueza e violência, sem que, em momento algum, essa violência seja realmente explícita, em um daqueles exemplos claros de que, às vezes, não ver é muito mais poderoso do que ver, algo esquecido nas obras de ação de hoje em dia. Rane tem sua mão decepada pelo triturador de pia e tudo o que vemos é a sugestão do que acontece, com a câmera, então, virando para seu filho e esposa, mas com a revoltante execução – revoltante não só pelas vítimas em si, mas porque ela é rápida, fria, como se fosse mais um dia qualquer para o assassino – acontecendo completamente off screen, o que imediatamente evoca o pior na mente do espectador.

E, da mesma maneira que tudo que leva à esse momento tem um ritmo lento e quase sem linhas de diálogo, tudo que se segue a ele continua da mesma maneira. O roteiro de Schrader não tem interesse algum em transformar seu protagonista em uma máquina de matar infalível e imortal (essa é a característica dos filmes do gênero dos anos 80, não 70) e a direção de Flynn mantém essa abordagem, primeiro pareando Rane com Linda Forchet (Linda Haynes), uma garçonete loira que o admira, e, depois, com seu amigo Vohden que convenientemente reaparece na história para a sequência final de pancadaria que é crua, lenta e até desorganizada visualmente, mas que consegue o efeito de fazer o espectador mergulhar no realismo quase tosco do fuzilamento inclemente dos vilões em um prostíbulo no México.

A Outra Face da Violência talvez possa ser considerados por muitos olhares modernos como um filme trash sobre um homem com um gancho em uma mão e uma espingarda calibre 12 na outra matando aqueles que lhe fizeram mal e à sua família, mas o cuidado e o ritmo da direção de John Flynn, a consistência do roteiro de Paul Schrader e a intensidade quase assustadora da atuação de William Devane coloca o filme alguns degraus acima dessa classificação. Trata-se de um dos melhores exemplares deste subgênero que apareceu nos anos 70 como resultado da moda iniciada por Desejo de Matar.

P.s.: Caso alguém tenha curiosidade, o título original – Rolling Thunder – refere-se à operação militar aérea homônima empreendida pelos EUA no Vietnã que consistia no bombardeio gradual e sustentado do país entre 1965 e 1968.

A Outra Face da Violência (Rolling Thunder – EUA, 1977)
Direção: John Flynn
Roteiro: Paul Schrader, Heywood Gould (baseado em história de Paul Schrader)
Elenco: William Devane, Tommy Lee Jones, Linda Haynes, James Best, Dabney Coleman, Lisa Blake Richards, Luke Askew, Lawrason Driscoll, James Victor, Cassie Yates, Jordan Gerler, Randy Hermann, Charles Escamilla, Pete Ortega, Jacque Burandt, Paul A. Partain, James N. Harrell
Duração: 95 min.

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