Crítica | A Padeira do Bairro

Embora tenha iniciado a carreira em 1950, com o curta-metragem Journal d’un Scélérat (hoje perdido) o cineasta e escritor Éric Rohmer só foi ganhar relevância nos cinemas quando lançou O Signo do Leão (1962) seu sexto filme e segundo longa-metragem. Em seguida, o diretor criou um projeto cinematográfico bastante pessoal, onde trabalharia questões morais ligadas ao cotidiano de personagens parisienses. Os chamados Seis Contos Morais de Rohmer começaram com este curta-metragem de 23 minutos intitulado A Padeira do Bairro, que é uma curiosa história de paixão à primeira vista e suas consequências a longo prazo.

Dirigido e escrito por Rohmer, A Padeira do Bairro é uma obra simples, bastante dinâmica e com bons momentos de delicadeza, contando a história de um rapaz (Barbet Schroeder) que se apaixona por uma jovem (Michèle Girardon) vista constantemente no bairro onde mora. Ele e o amigo estão estudando para os exames finais na Universidade e passam a seguir a bela mulher, enquanto o rapaz e também narrador da fita cria coragem para convidar a moça para sair. Até que ela desaparece. E nos dias que passeia pelas ruas procurando-a, o rapaz começa a visitar uma padaria onde compra doces todos os dias, e onde conhece Jacqueline (Claudine Soubrier) a padeira citada no título.

O naturalismo típico dos filmes do diretor é misturado aqui ao tom abertamente irônico e cínico do protagonista, que desde cedo mantém a curiosidade, o orgulho e o ego de perseguir sua paixão, enquanto come doces e lança charme para a padeira que parece corresponder, em algum momento, as suas deixas despreocupadas. Existe um dilema mudo desde o ponto em que o moço entra na padaria e a moralidade aqui está na honestidade (ou falta dela) com que ele guiou toda a situação. Em dado momento do roteiro — na parte final — ele também percebe isso, mas o abandono da “diversão” é a atitude covarde e moralmente questionável que ele toma.

Em tratando-se de questões amorosas, sempre estaremos num complexo leque de condições e situações onde agir ou deixar de agir pode ser perigoso. Rohmer considera alguns elementos desse dilema, como o fato de o narrador estar brincando com os sentimentos da padeira e ao mesmo tempo confundindo os seus próprios sentimentos. É curioso que na reta final haja uma dubiedade na escolha do rapaz, algo entre o “encontro da mulher ideal” e o “encontro com a mulher real“. Talvez o curto tempo do filme seja o principal problema de sua conclusão rápida demais, após um desenvolvimento mais compassado de outras questões.

Dois minutinhos que dessem um melhor contexto para o drama serviriam para firmar o novo status do personagem e expandir a questão moral em voga. Surfando nos rompantes do amor e naquilo que a gente pode fazer por ele — ou impulsionados pela paixão, pelo desejo, pela idealização de uma pessoa — Rohmer nos mostra que por mais doce que seja um momento de nossa vida, por mais mais promissor que possa parecer, haverá sempre o peso de uma ideia fixa. E no momento em que ela for alimentada, a tendência será abandonar a doçura para viver o enlevo de uma paixão perseguida, idealizada e idolatrada. Nosso estranho dilema amoroso e moral com data de validade para acabar.

A Padeira do Bairro (Six Contes Moraux: 1 – La boulangère de Monceau) — França, Argélia, 1963
Direção: Éric Rohmer
Roteiro: Éric Rohmer
Elenco: Barbet Schroeder, Claudine Soubrier, Michèle Girardon, Fred Junck, Michel Mardore, Bertrand Tavernier
Duração: 23 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.