Crítica | A Partida Final (End Game)

  • Leiam, aqui, as críticas de todos os indicados à categoria de Melhor Documentário em Curta-Metragem no Oscar 2019.

Obras cinematográficas que lidam com a morte ou a proximidade dela são invariavelmente desconfortáveis e difíceis de se assistir. No caso de um documentário, essa afirmação é ainda mais verdadeira e A Partida Final (título em português que o Netflix determinou para End Game), filmado com câmera intrusiva, colocando-nos em meio às conversas de familiares ou dos próprios moribundos em seus dias finais, é ainda mais contundente.

O que os diretores Rob Epstein e Jeffrey Friedman tentam entregar, porém, é uma abordagem positiva para a morte, focando em um grupo de pessoas – médicos, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais e voluntários – que, sendo muito diretos com a situação de cada um, fazem de tudo para dar o máximo de conforto em todas as frentes às famílias e ao doente, seja com visitas constantes ao hospital, seja transferindo a pessoa para asilos onde receberão o cuidado necessário para que ela tenha uma vida digna até que venha o inevitável abraço da morte. O resultado do esforço, porém, apesar de nobre, é um tanto desequilibrado.

Sem narração ou contextualização, o documentário de 40 minutos (o mais longo curta nessa categoria concorrendo ao Oscar 2019) depende da captura das interações entre médico/assistente e família/paciente e é nesse aspecto que a obra de Epstein e Friedman demonstra sua força, força essa que é particularmente focada em um caso apenas, o de Mitra, paciente terminal de câncer que vive cercada de sua carinhosa e desesperada família. Ao fazer o espectador trafegar pelo dia-a-dia de Mitra, de sua mãe e de seu marido – e depois sua irmã, que chega da Suíça – o documentário nos arremessa para uma verdade que poucos efetivamente querem ver, mas que muitas vezes, infelizmente, somos forçados a encarar. O grupo de pessoas que está lá para assistir à família e à doente é o que faz a diferença e nos traz uma espécie de estranha serenidade, algo que vem notadamente de um médico jovem que, em razão de um acidente no final da adolescência, perdeu um braço e duas pernas, o que por si só já acrescenta outra camada narrativa ao documentário.

No entanto, os diretores insistem em também abordar outros pacientes terminais, estes sem a família (com exceção de uma senhora que sempre aparece acompanhada do marido) e não internados no hospital, de forma talvez a lidar com situações diferentes e a efetivamente mostrar um pouco do trabalho dos assistentes também no asilo. No entanto, esses lados do documentário não são muito bem explorados e quase que parecem apenas exemplos ilustrativos do trabalho deles, com pouca profundidade e pouca relevância, o que acaba por subtrair tempo que poderia ser dedicado à Mitra e aos seus.

Ficou parecendo que os diretores tinham material suficiente para um longa-metragem, mas preferiram trabalhar com a estrutura de um curta, mas, no final das contas, não souberam equilibrar os espaços dados a Mitra e aos demais. E, dessa forma, nem Mitra tem o espaço que desejamos e nem os demais chegam a ser mais do que “ocupantes” do espaço de Mitra, se é que me fiz entender bem. E, no meio dessa “briga” por tempo de câmera, o próprio trabalho do grupo médico e assistencial não é desenvolvido e acabamos sabemos muito pouco deles. Ficam dúvidas básicas desde como eles são organizados até quem eles atendem. Seriam quaisquer pacientes terminais, sejam em hospitais públicos e privados? Haveria algum tipo de pagamento envolvido? Quem exatamente eles são e que como operam no dia-a-dia?

Talvez não tenha sido o objetivo dos documentaristas trazer esse tipo de informação, mas o problema é que, estruturalmente, o documentário não traz muito mais coisa. Mesmo o lado humanitário da abordagem dos pacientes terminais não parece seguir uma ordem lógica, um ordenamento causal mais claro.

É importante, porém, saber separar os aspectos técnicos do conteúdo da obra. Se tecnicamente minha análise pode parecer fria, isso de forma alguma deve refletir no foco do documentário em si. Fui claro ao abrir a presente crítica afirmado o quão é difícil assistir uma obra que lida com a morte tão próxima e essa dificuldade permanece aqui independente da forma de apresentação escolhida pelos documentaristas. A tristeza, o desespero da família de Mitra em contraste com a aparente serenidade da paciente é de esmagar corações, assim como os pacientes entrevistados no asilo e a senhora que se recusa a conciliar a vindoura morte como algo aceitável, parte da terapia que lhe é passada. São momentos pungentes, fortes e muito bonitos, mas que não curam o lado técnico do documentário.

Apesar de falho, A Partida Final é falho quando enxergamos além do lado humano da história. Mesmo assim, é um documentário que mexerá com o espectador.

Direção: Rob Epstein, Jeffrey Friedman
Duração: 40 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.