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Crítica | A Pedra Filosofal (1958)

por Luiz Santiago
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Baseado em um conto de Parasuram (pseudônimo de Rajsekhar Basu, também grafado como Parashuram), A Pedra Filosofal (ou Parash Pathar, no original) foi o primeiro filme de Satyajit Ray fora do Universo de Apu, sendo também a sua primeira comédia. O texto do diretor, em parceria com o próprio Parasuram, explora uma situação mística, fantasiosa, providencial na vida de um bancário mal pago de classe média, na cidade de Calcutá, o Sr. Paresh Chandra Dutt (Tulsi Chakrabarti). Misturando um sonho dourado de ascensão social com um pensamento religioso, o texto coloca o personagem em uma posição de grande privilégio, tendo em sua posse uma pedra capaz de transformar qualquer metal em ouro.

Satyajit Ray não está preocupado em filosofar a respeito da pedra. O espectador não encontrará aqui nenhum tipo de busca química, física, racional ou mesmo mística sobre o significado dela. Em apenas dois momentos da obra isso vem à tona (um no pedido da “fórmula” e outro no pedido do secretário de Paresh para estudar o objeto), mas ambas as situações são apenas indicações breves de outros possíveis olhares e relações com a pedra filosofal. Apesar do espanto, do maravilhamento, o protagonista não quer entender como ou por quê ela funciona dessa forma. Ele aceita o milagre como uma prenda dos deuses e é rapidamente convencido pelos sonhos de posses, cargos e reconhecimento a tirar vantagem daquilo.

A comédia, aqui, se desenvolve em fases. Num primeiro momento, ela é marcada por um certo receio no uso da pedra filosofal, mas aparece juntamente com as caras e bocas de Paresh após a descoberta. O comentário social do roteiro surge na forma como essa vontade de possuir coisas cresce cada vez mais para o protagonista. Sua vida é revisada e posteriormente temos uma explicação de como ele alterou a sua situação financeira, após começar a usar a pedra filosofal — momento do filme em que a montagem nos traz um salto temporal e onde não temos muitos detalhes sobre essa ascensão. Quanto ao pulo, não penso que fique faltando nada para o andamento do filme. É um salto compreensível, vindo, inclusive, após uma leve preparação, com cenas de pensamentos aburguesados de Paresh, imaginando-se como um herói, um notável social, portanto, não causa uma surpresa negativa e nem deixa o espectador perdido… apenas sem um pedaço de explicação até bem mais adiante no filme.

Essa ascensão, todavia, parece ter um limite diante dos códigos da sociedade indiana dos anos 1950, e então temos um dos momentos mais interessantes e também engraçados do filme, que é a noite do coquetel onde Paresh fica bêbado, não é reconhecido pelos “pares burgueses” no local da festa, sente-se diferente, humilhado, desprezado, e acaba utilizando a pedra filosofal na frente de todos. Nessa ocasião, a “mágica” faz com que ele passe de um indesejável estranho no local para um indivíduo minimamente aceitável, afinal, pode mostrar alguma coisa de valor naquele meio, comprando simbolicamente a sua carta de integração social.

O ato final junta todas essas pontas, direcionando a crítica não mais para o meio civil, mas sim para o meio militar, para as mãos da polícia. A atuação de Tulsi Chakrabarti tem aqui o seu ponto alto, entre momentos de hilária representação do desespero e afirmação da verdade. Enquanto ele tenta convencer à polícia de que não é um contrabandista de ouro, o responsável pelo caso está pessoalmente muito interessado em colocar as mãos na pedra filosofal. A possibilidade de ganhar algo com um “possível crime” de um indivíduo fala mais alto aqui, e as ações dos policiais seguem quase a linha da vingança contra Paresh, querendo-o fazer pagar não porque “comercializou com ouro mágico“, mas porque não foi capaz de entregar a pedra nas mãos das autoridades competentes.

Por ser muito fechado em atos onde o personagem reage à aquisição, ao gozo e às preocupações que a pedra filosofal lhe traz, o espectador não sente uma grande fluidez no desenvolvimento do filme. O ato final é o que acaba sendo mais fechadinho nesse sentido, trazendo ações em montagem paralela, uma boa dose de suspense e uma forte toada cômica, lidando com a frustração da ambição dos policiais e o fim de uma Era na vida de Paresh, que conseguiu, em partes, o que queria: um período de prosperidade na sua vida e na vida de alguns necessitados ao seu redor. O fim dessa Era, porém, acabou com a mágica do ouro para todos, trazendo crise não apenas para os ajudados, mas para todo o país.

Cheio de aceleração de imagens, uma trilha sonora que brinca com a comicidade de determinadas situações (imitando os passos dos personagens através da percussão, por exemplo) e uma incomum jornada de ascensão e queda social, A Pedra Filosofal é um filme muito diferente em forma e conteúdo dos dois que Satyajit Ray dirigira até então. Uma prova de versatilidade que seria bem melhor trabalhada por ele nos anos seguintes.

A Pedra Filosofal (Parash Pathar / ‘পরশ পাথর’) — Índia, 1958
Direção: Satyajit Ray
Roteiro: Satyajit Ray, Rajshekhar ‘Parashuram’ Basu
Elenco: Tulsi Chakraborty, Kali Bannerjee, Ranibala, Gangapada Basu, Haridhan Mukherjee, Jahar Roy, Chhabi Biswas, Bharati Devi, Chandrabati Devi, Jahar Ganguli, Subodh Ganguli, Tulsi Lahiri, Kamal Mitra
Duração: 111 min.

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