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Crítica | A Pequena Caixa De Gwendy, de Richard Chizmar e Stephen King

por Rafael Lima
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Alguém disse certa vez que para testar o caráter de uma pessoa, deve-se dar poder a ela. Esse “teste”, digamos assim, existe em vários níveis. Sabemos quando é certo usar esse poder? E mais importante, quando não usar? Pois esse teste de caráter proporcionado pelo poder está no centro da noveleta A Pequena Caixa de Gwendy, coescrita por Stephen King e Richard Chizmar. A trama começa em 1974, quando Gwendy Peterson, uma menina de doze anos que vive na pequena cidade de Castle Rock, conhece um homem misterioso chamado Richard Farris durante uma caminhada. Ele dá a Gwendy uma caixa com oito botões, pedindo que ela a guarde por um tempo. Antes de desaparecer, Farris avisa que enquanto um dos botões fornece a ela um chocolate mágico e um dólar de prata por dia, os outros, se apertados, podem trazer consequências mais caóticas. Esse encontro muda a vida da jovem para sempre, com a caixa passando a ter grande influência em sua vida nos anos seguintes.

A Pequena Caixa de Gwendy é um livro que traz reflexões interessantes sobre a nossa relação com o poder, utilizando para isso a história de amadurecimento de uma garota deixando a infância para entrar na adolescência, e por fim, na vida adulta. Essa jornada passa pelos desejos e anseios da jovem, metaforizando através da caixa a autoafirmação, e a redescoberta da própria identidade, tão comuns na adolescência. A protagonista é apresentada como uma pré-adolescente tentando perder peso por causa do bullying que sofre, e temendo que o casamento dos pais possa estar no fim. Assim que recebe a caixa de Farris, o maior interesse de Gwendy é nos pequenos chocolates mágicos diários que a caixa fornece, que não só são deliciosos, mas a nutrem por um dia todo, o que ajuda a jovem a emagrecer. Entretanto, logo as notas dela aumentam, e seus pais se reaproximam, sugerindo que a caixa é mais poderosa do que aparenta.

Mas não são apenas os ganhos que a caixa supostamente concede a Gwendy que fascinam a garota, mas também o potencial poder de destruição que ela contém. Não que a garota seja uma pessoa má, mas à medida em que os anos passam, a curiosidade da jovem sobre o que certos botões são capazes de fazer quando apertados cresce, afinal qualquer um com qualquer tipo de poder se pergunta o que é realmente capaz de fazer. Os autores se utilizam de forma inteligente de eventos reais como o massacre de Jonestown, em 1978, para introduzir ambiguidade sobre o que a caixa realmente pode ou não fazer, ao mesmo tempo em que desenvolve a compreensão da protagonista sobre responsabilidade e consequências de suas ações.

Ao longo dos anos, Gwendy deixa de ser uma criança apelidada maldosamente de Goodyear para se transformar em uma das garotas mais populares e desejadas de sua escola, além de uma atleta estelar. A noveleta faz de forma natural a transição entre as preocupações mais infantis e inocentes de Gwendy para as problemáticas adolescentes e florescer sexual da personagem, mantendo a coesão da protagonista. Dentro desse universo adolescente, onde um dos valores de maior poder social é a popularidade, os autores apontam como o poder pode cegar e nos tornar indiferente mesmo sem percebermos, o que é representado aqui pela relação entre Gwendy e sua amiga de infância Olive. O poder, entretanto, pode ser tanto uma benção quanto uma maldição, especialmente um de origem desconhecida. Ao longo da narrativa, a protagonista sente-se cada vez mais pressionada pelo peso e pela responsabilidade de guardar a caixa. Além disso, a jovem passa a se perguntar o quanto de seus méritos e conquistas são realmente seus, ou apenas uma consequência da presença da caixa em sua vida. 

A obra articula de forma habilidosa os aspectos fantásticos da trama, com os problemas mundanos enfrentados por Gwendy. Embora deixem claro que a caixa é mágica, muito de suas reais capacidades são deixadas ambíguas; o que aumenta o fator de suspense em torno do objeto e da relação que a protagonista mantém com ele. É uma pena que em seu epílogo, grande parte da ambiguidade em torno da trama central seja sacrificada por uma explicação extremamente didática dada por um personagem. Ainda que ainda haja espaço para ambiguidade, o didatismo do epílogo soa deslocado.

Os estilos de escrita dos dois autores são articulados de forma a criar uma voz única, o que é sempre um ponto positivo em um livro coescrito. Os leitores de King podem estranhar um pouco a narrativa muito mais focada em desenvolver os personagens no fluxo da ação do que pela introspecção, o que acredito seja o estilo de Chizmar fazendo-se presente. Deve-se observar que este também é um livro que tem muito menos páginas do que aparenta, não só pela opção de estruturar a obra em capítulos curtos, mas também contendo ilustrações de página inteira ao fim de alguns capítulos. Por outro lado, me incomoda um pouco que a única personagem que ganha desenvolvimento real é a própria Gwendy, enquanto todos os demais personagens surgem simplesmente como arquétipos simplificados, o que é um pouco decepcionante com um livro com o nome de King na capa.

A Pequena Caixa De Gwendy é uma leitura rápida, possuindo uma protagonista carismática, e jogando bem com as ambiguidades propostas pela trama em torno do sobrenatural e sobre o peso do poder. Por outro lado, o livro carece de coadjuvantes mais desenvolvidos; e seu desfecho extremamente didático torna a obra menos intrigante do que era antes de seu epílogo. Ainda vale a leitura, mas é um trabalho menor de Stephen King, e um cartão de visitas tímido para Richard Chizmar.

A Pequena Caixa De Gwendy (Gwendy’s Button Box)- Estados Unidos, 2017
Autores: Richard Chizmar, Stephen King
Editora Original: Cemetery Dance
Editora Brasileira: Suma das Letras
Tradução: Regiane Winarski
Ilustrações: Keith Minnion
167 Páginas

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