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Crítica | A Pequena Sereia (1989)

por Ritter Fan
629 views (a partir de agosto de 2020)

Os anos 70 e 80 foram massacrantes para a Disney como um todo e especialmente para seus longas-metragens de animação. Entre 1967 e 1977, os únicos dois grandes sucessos da produtora nessa área foram Mogli – O Menino Lobo e Bernardo e Bianca e, depois desse último, ela somente acertaria novamente com A Pequena Sereia, 12 anos depois, filme que veio a reboque do festejado Uma Cilada para Roger Rabbit, um ano antes.

Foi A Pequena Sereia que trouxe a chamada Renascença da Casa do Camundongo, gerando mega-sucessos como A Bela e a Fera, que concorreu ao Oscar de Melhor Filme, a primeira vez que uma animação conseguiu esse feito, e, claro, O Rei Leão. E essa revitalização continua até hoje, com diversos outros exemplos da empresa que simplesmente inventou o longa de animação na década de 30, apesar do preconceito reinante à época de Branca de Neve e os Sete Anões, abrindo caminho para diversos outros gênios da animação ao redor do mundo se empolgarem com o processo.

Esse pequeno contexto histórico é importante para compreendermos o quão essencial A Pequena Sereia foi para a Disney e para o cinema de animação. Sem essa demonstração de que o gênero ainda tinha fôlego, é muito provável que nosso presente fosse muito diferente, bem mais pobre, com menos cores e vitalidade.

Mas, mesmo que a fita não fosse importante historicamente, ela, por si só, merece os maiores aplausos, pois é um dos grande exemplos da animação moderna pré-computação gráfica. Ron Clements e John Musker, que já haviam trabalhado juntos nos ótimos, mas infelizmente esquecidos O Caldeirão Mágico (1985) e As Peripécias do Ratinho Detetive (1986) para a Disney, acertaram em cheio em seu cuidadoso trabalho de adaptação e atualização do famoso conto de Hans Christian Andersen, mantendo a classe do material fonte e, claro, sua relevância narrativa.

Ariel (voz de Jodi Benson) é uma princesa sereia fascinada pelo mundo dos humanos, mas seu pai, o Rei Tritão (Kenneth Mars), proíbe que os seres do fundo do mar tenham contato com os da terra. A jovem se sente prisioneira de um pai tirânico (como todos os jovens alguma vez já se sentiram ou se sentirão) e, depois que salva o príncipe humano Eric (Christopher Daniel Barnes) de um naufrágio, apaixonando-se por ele, é seduzida pelas promessas da vilanesca Úrsula (Pat Carroll), caindo em uma armadilha montada pela bruxa para derrubar Tritão do trono.

A história é bastante linear, mas muito bem estruturada. Nada parece forçado ou arrastado. Ariel, que vive recolhendo e colecionando objetos dos humanos no fundo do mar com seu amigo Linguado, é a jovem sonhadora que, deparando-se com o perigo, resvala no amor de sua vida. Esse magnetismo imediato é manobrado pela bruxa, clássica encarnação do diabo, para desespero de Sebastian (Samuel E. Wright), o siri jamaicano conselheiro do rei e babá a contra-gosto da menina. Suas aventuras no mar e na terra representam, com beleza e propriedade, a busca de aventuras e o amadurecimento de uma jovem, pontilhado de inesquecíveis números musicais Alan Menken e Howard Ashman.

Se já é difícil esquecer de Ariel, com seus olhos enormes brilhantes, que almejam abraçar o mundo com voracidade, o que dizer de seus coadjuvantes, com especial destaque para Sebastian e o trabalho de voz imbatível de Samuel E. Wright. Afinal, fica ao encargo de Wright as melhores canções de Menken e Ashman, como Under the Sea e Kiss the Girl, que invariavelmente tomam de assalto os sentidos e impedem qualquer tentativa de não cantarolar as letras. Em termos de design de personagens, a fita é só triunfo atrás de triunfo, mesclando elementos clássicos como a cidade submarina do rei Tritão, desenhada com toda a pompa e circunstância, passando pelos personagens em si, como a inesquecível Úrsula, que combina o estilo “cantora de blues” com um polvo e suas duas moreias, Flotsam e Jetsam, cada uma com um olho tipo farol, que nos faz lembrar dos crocodilos de Bernardo e Bianca. Tudo é pensado para encantar – e sim, assustar um pouquinho os bem pequenos – e para tirar a obra do lugar-comum.

A animação, toda manual, no “estilo clássico”, recebeu investimentos altíssimos da produtora, algo que não era feito há décadas, com diversas unidades, inclusive nos parques, sendo utilizadas no trabalho. Além disso, como era comum na época em que Walt Disney era vivo, mas que foi abandonado depois, A Pequena Sereia contou com a filmagem de atores e atrizes como material de referência para os desenhos, em uma espécie de “captura de performance” sem computadores. A produção foi a aposta all in da Disney para reviver seu moribundo departamento de animação de longas, estratégia que se pagou e gerou e continua gerando gigantescos dividendos.

Infelizmente, porém, esse longa foi o último da produtora a realmente fazer uso total dos métodos antigos de animação em células, pois, logo em seguida, em Bernardo e Bianca da Terra dos Cangurus, as cores passaram a ser feitas com ajuda do computador. E, ainda depois, A Bela e a Fera terminou de escancarar as portas digitais com o sensacional uso do CGI na sequência do baile.

A Pequena Sereia é um clássico dos clássicos que, mesmo que não tivesse importância comparável a Branca de Neve e os Sete Anões para a História da Animação (pelo menos em termos de demonstração prática do potencial financeiro da técnica), já mereceria seu lugar no panteão das melhores obras do gênero da Disney. Considerando o que empresa produzira antes e produziria depois, esse não é um feito muito fácil de se alcançar.

*Crítica originalmente publicada em 15 de novembro de 2014.

A Pequena Sereia (The Little Mermaid, EUA – 1989)
Direção: Ron Clements, John Musker
Roteiro: Ron Clements, John Musker (baseado em conto de Hans Christian Andersen)
Elenco (vozes originais): Jodi Benson, Christopher Daniel Barnes, Pat Carroll, Jason Marin, Samuel E. Wright, Paddi Edwards, Kenneth Mars, Pat Carroll, Edie McClurg, Ben Wright
Duração: 83 min.

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19 comentários

Diogo Maia 14 de dezembro de 2020 - 12:46

Uma das minhas obras preferidas da Disney e, sem dúvida, sua melhor animação desde Dumbo. Fora o romance forçado entre Ariel e o príncipe bobo, tudo foi construído magistralmente bem. Admito que parte do meu carinho com o filme é pelo Sebastian, o meu personagem predileto de todo o universo do estúdio, muito porque a personalidade dele é muito parecida com a minha. Passo o filme todo concordando com a lucidez dele que apenas os anos de experiência conseguem alcançar. Destaque para as músicas, todas sensacionais, e para a vilã, que se encontra entre os antagonistas mais icônicos da história da sétima arte. Nota 9/10.

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planocritico 14 de dezembro de 2020 - 21:58

É um filmaço mesmo! Uma grande “recomeço” para a Disney.

Abs,
Ritter.

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Cinderela (1950) 8 de novembro de 2019 - 14:10

[…] de Pinóquio até A Bela e a Fera, passando por Peter Pan e A Pequena Sereia e isso para citar apenas alguns. E isso considerando que essas histórias foram adaptadas de […]

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Aladdin (1992) 7 de novembro de 2019 - 16:14

[…] consolidou essa segunda fase de ouro da produtora. Dando sequência aos acertos indiscutíveis de A Pequena Sereia e A Bela e a Fera, o filme carregava toda a expectativa (e o fardo) de ser a nova colaboração […]

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planocritico 6 de julho de 2018 - 13:13

É como você disse: é tanto personagem memorável que não dá para falar de todos!

Abs,
Ritter.

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Herbie: The Love Bug 6 de julho de 2018 - 10:30

Ótima crítica!
A Pequena Sereia é um clássico. Parece que saiu nos tempos em que o Walt Disney ainda estava vivo. Cada personagem é memorável e carismático. Sinto que Úrsula teve grandes inspirações na Cruella para a personalidade, e um pouco da Malévola no visual. Ela é com certeza uma das melhores vilãs da Disney.
Ah, você esqueceu de falar do Scuttle! Ele também é bem engraçado. O dublador original dele foi o Buddy Hackett.

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JJL_ aranha superior 12 de março de 2017 - 15:59

Gostaria de uma crítica de a pequena sereia 2, nesse é possível notar o amadurecimento da ariel, agora no papel de mãe, sem falar que a razão para a melody querer ir para o mar é uma vontade genuína de liberdade e de encontrar seu lugar no mundo, e em nenhum momento é ofuscada pela presença de um príncipe, por exemplo. Acho que esse filme pode até ser considerado um clássico disney subestimado.

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planocritico 13 de março de 2017 - 15:12

@joao_lucas_ribeiro_lopes:disqus , não temos planos de fazer essa crítica, mas colocaremos aqui em nossa lista, pode deixar!

Abs,
Ritter.

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Herbie: The Love Bug 6 de julho de 2018 - 10:17

A única coisa ruim que pega é esse nome…Melody.
Pelo que me lembro nesse filme, essa Melody tem uma boa voz.

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GiacomoTasso 25 de novembro de 2014 - 09:19

Excelente crítica!
Essa animação está no meu top da Disney!
E fiquei feliz por você ter citado no texto outro que está no meu top: As Peripécias do Ratinho Detetive! Adoro essa animação que inclusive tem a voz de Vincent Price!
Gostei muito da crítica e espero ver outras de clássicos Disney!
Abraço!

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planocritico 25 de novembro de 2014 - 14:53

Obrigado pelo elogio, @GiacomoTasso:disqus!

A Pequena Sereia é um clássico moderno da animação. Tenho grande apreço pelo desenho, como você percebeu. E também adoro tanto o Ratinho Detetive quanto – e especialmente – O Caldeirão Mágico, que vieram logo antes.

Pode deixar que, aos poucos, traremos outros super-clássicos da Disney por aqui. Em 2015, vários deles fazem aniversário que merecerão críticas comemorativas como foi o caso de A Pequena Sereia. E faremos um especial Pixar também.

Abs, Ritter.

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Pedro Duzzi 17 de novembro de 2014 - 12:20

Excelente crítica, Ritter. Eu gosto muito desse filme e meus irmãos menores sabem praticamente todas as falas hahahaha.
Vocês estão fazendo Especial Disney também?

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planocritico 17 de novembro de 2014 - 15:17

Obrigado, @pedroduzzi:disqus.

Não estamos fazendo Especial Disney não. Esse nós fizemos pois o filme fez 25 anos no dia 15/11. Mas, ano que vem, em antecipação ao novo da Pixar, Divertida Mente (Inside Out), faremos um Especial Pixar com tudo que eles já lançaram, inclusive os curtas. Que tal?

Abs, Ritter.

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Pedro Duzzi 28 de novembro de 2014 - 09:55

Felicidade a mil ao ler essa resposta. Lindo demais! Pixar é muito amor. Uma animação melhor que a outra. Desde já: parabéns. Vocês são o melhor site de críticas desse país, não tem jeito!

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planocritico 29 de novembro de 2014 - 17:58

Valeu, @pedroduzzi:disqus!

Abs, Ritter.

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Rafael Gardiolo 15 de novembro de 2014 - 12:53

Ritter, Toy Story 3 também concorreu ao Oscar de melhor filme. Uma crítica do subestimado Tarzan seria legal também!

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planocritico 15 de novembro de 2014 - 14:49

Nossa, estou REALMENTE ficando velho… Como pude esquecer disso em relação a TS3? Obrigado, @rafaelgardiolo:disqus! Já corrigi no texto.

Sobre outras animações como Tarzan, vou anotar aqui para fazer. Esse merece mesmo uma crítica.

Abs, Ritter.

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Handerson Ornelas. 15 de novembro de 2014 - 02:00

Ritter fazendo crítica da “Pequena Sereia” e dando 5 estrelas. Está aí uma coisa que não se vê todo dia hahaha

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planocritico 15 de novembro de 2014 - 04:06

Sou um grande apreciador de desenhos animados. E A Pequena Sereia é um clássico! Sei todas as músicas de cor em inglês… 🙂

Abs, Ritter.

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