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Crítica | A Perseguição (2011)

por Leonardo Campos
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Salvaguardadas as devidas proporções, o desenvolvimento dramático em A Perseguição nos permite lembrar bastante da estrutura de No Limite, de 1997, protagonizado por Anthony Hopkins e Alec Baldwin, produção de aventura com altas doses de reflexões filosóficas, com direito ao encontro entre seres humanos e animais selvagens, neste caso, um urso bastante feroz e desafiador, em defesa de seu território. Aqui, Liam Neeson é o protagonista da história, inspirada no conto Ghost Walker, material literário transformado numa narrativa de 117 minutos, lançada em 2011, sob a direção de Joe Carnahan, cineasta em um de seus filmes mais “artesanais”, apurado milimetricamente na estética e no desenvolvimento dos diálogos, elaborados por Ian Mackenzie Jeffers, dramaturgo que assina o roteiro. Na trama, acompanhamos um grupo de homens distantes de qualquer sinal de civilização. Sem chance de resgate, descampados, privados de alimentação e, para piorar, perseguidos por lobos que pretendem deixa-los em constante tensão e alerta.

Compõem o grupo:  Ottway (Neeson), líder da expedição, juntamente com Talget (Dermot Mulroney), Henrick (Dallas Roberts), John Diaz (Frank Grillo), Jackson (Nonso Anozie), Todd (Joe Anderson) e Lewenden (James B. Dale). Eles estão nesta situação por serem operários de um posto remoto de extração de petróleo no Alasca, vitimados por um acidente de avião que culmina no arriscado momento divisor de águas em suas vidas. Sozinhos, esfomeados e perseguidos por lobos persistentes, o grupo batalha para manter-se vivo e em meio ao processo de busca pela sobrevivência, dialogam sobre a vida, a morte, a existência humana, o acaso, dentre outras questões de ordem filosófica, boas para promover algum aprofundamento no desenvolvimento do filme, mas ruins para quem estava mais interessado num entretenimento próximo aos exemplares do subgênero horror ecológico, com os lobos mais presentes até o desfecho da história, não abandonados em parte da narrativa, como foi feito no avanço das questões em A Perseguição.

O clima é um dos grandes pontos problemáticos dessa história, pois o gelo insuportável deixa os personagens cada vez mais desanimados e sem esperança de conseguir sair da situação bastante peculiar. Vivos após a tragédia com o avião, eles agora precisam estabelecer estratégias e táticas de sobrevivência para outra grande ameaça, os mencionados lobos, onipresentes graças ao excelente trabalho de Mark Gingras como design de som do filme. A trilha sonora de Marc Streitenfeld é outro setor que cumpre bem as suas funções ao estabelecer uma boa atmosfera para a produção, gélida, sombria, tensa, mesmo nos momentos de maior marasmo, haja vista o interessante, mas relativamente excessivo falatório existencialista dos personagens que deixam a ação de lado para concentrar o ritmo do filme nos diálogos. Não fosse o som dos lobos uivantes propiciado pelo ótimo trabalho de Gingras, as criaturas teriam impacto ainda menos do que tiveram nos desdobramentos das situações envolvendo os personagens esféricos de A Perseguição.

Os lobos, aqui, funcionam também como animais alegóricos para os personagens que vivenciam crises e precisam expurgar os seus demônios internos. Introspectivos, os diálogos vão da profundidade já mencionada ao didatismo que nalguns momentos, expõem a fragilidade do texto. Ainda assim, A Perseguição é um filme de alto nível, desenvolvido para o grande público, mas não necessariamente hollywoodiano a ponto de criar apenas cenas deslumbrantes e lobos em efeitos visuais sofisticados. Na produção, o cineasta Joe Carnahan capricha no comando de sua equipe e entrega um filme de classe, bastante acima da média. Gunnar Hansen (não, este não é o famoso ator intérprete de Leatherface) é o supervisor de efeitos visuais e promove um conjunto de cenas muito bem orquestradas, junção de cenários reais e artifícios computacionais que não criam qualquer sensação de fragilidade diante do que estamos assistindo. Outros dois setores que dialogam bem e fazer o filme funcionar esteticamente é a direção de fotografia de Masonobu Takayanagi e o design de produção de John Willett, responsáveis pelo estabelecimento da paleta de cores acinzentada, bem como a efetiva movimentação da câmera nas cenas de tensão e a seleção ideal de quadros milimetricamente funcionais para os momentos de maior introspecção, transmitida pelos personagens que compõem este ótimo elenco.

A Perseguição (The Grey, EUA – 2011)
Direção: Joe Carnahan
Roteiro: Ian Mackenzie Jeffers
Elenco: Liam Neeson, Dermot Mulroney, Joe Anderson, James B. Dale, Frank Grillo, Dallas Roberts, Nonso Anozie
Duração: 117 minutos

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