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Crítica | A Porta no Muro, de H.G. Wells

por Luiz Santiago
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Em dado momento de A Porta no Muro, eu tive uma leve sensação de desalento e medo que normalmente me surgem quando leio algo, por exemplo, de H.P. Lovecraft. A expectativa de um grande mistério indizível tomando para si o narrador surge em cena logo nos primeiros parágrafos do presente conto de H.G. Wells, e o leitor é tomado pela curiosidade a respeito de uma porta verde em uma parede branca que o perturbado protagonista encontrou pela primeira vez quando era criança. E ainda lembrando de Lovecraft, o fato de o elemento misterioso aqui ser algo que desde a infância marcou a vida do personagem, não pude deixar de lembrar dos eventos de A Tumba, o que tornou a leitura ainda mais macabra para mim.

Conto de 1906, The Door in the Wall pode ser lido de três formas, embora a dubiedade que junta essas versões seja a síntese que torna tudo mais interessante, e creio que esta foi, na verdade, a intenção de H.G. Wells ao conceber o texto. Um desses caminhos que podemos seguir, é enxergar os eventos aqui como uma metáfora para os sonhos perdidos, para as projeções de vida abandonadas no meio do caminho, em detrimento das ocupações, dos compromissos, do dinheiro, dos cargos que perseguimos durante a vida e que não deixam tempo para os nossos projetos do coração.

O segundo caminho é a visão puramente realista para o que este homem narra ao seu amigo, pouco tempo antes de sua morte. Toda a história da porta no muro, do jardim, dos animais e do encontro com duas figuras femininas diferentes não passam de produto de uma mente doente, de um indivíduo histérico, talvez louco, alucinado, e que vê coisas onde não existe nada. Por fim, existe a explicação que puxa a fantasia para a aventura, acreditando de fato naquilo que o narrador no apresenta, considerando a existência dessa porta e sua influência na vida daquele que atendeu a um chamado nos primeiros anos de sua vida, e teve, a partir daí, sua existência completamente modificada.

Particularmente, considero essa história uma forma curiosa de interação entre gêneros literários e sensações dramáticas diversas. Há uma pequena camada de mistério, uma pitada de macabro e boa dose de fantasia que o próprio autor faz questão de misturar a um explicação possivelmente realista, daí a minha opinião de que a concepção de A Porta no Muro foi realmente organizada para refletir tudo isso ao mesmo tempo.

É uma história que nos captura e que nos faz pensar em oportunidades desperdiçadas, em escolhas únicas que a vida nos dá e também em consequências que teremos em nossa vida se seguirmos determinados caminhos, se entrarmos em determinadas portas. Mas também é um relato simbólico sobre a visão que temos diante de um determinado evento, e como essa visão pode mudar de pessoa para pessoa. Nas palavras de H.G. Wells: “Aí está o maior mistério desses sonhadores, desses homens de visão e de imaginação. Nós vemos o mundo simples e comum, o muro de tábuas e o buraco. Pelos nossos padrões, ele saiu da segurança para a escuridão, o perigo e a morte. Mas foi assim que ele viu?

A Porta no Muro (The Door in the Wall) — Reino Unido, 1906
Autor: H.G. Wells
Tradução: Regiane Winarski
No Brasil: Sociedade das Relíquias Literárias – Série: Contos Fantásticos (Editora Wish, 2020)
Capa e projeto gráfico: Marina Avila
79 páginas

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