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Crítica | A Princesinha (1995)

Uma princesa de cabeça e alma.

por Iann Jeliel
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Depois que chamou a atenção com seu primeiro filme, Alfonso Cuarón rapidamente foi convidado por Hollywood para encabeçar grandes adaptações de livros conhecidos. A primeira foi A Princesinha, um clássico infantil de fantasia escrito no início do século por Frances Hodgson Burnett, a mesma autora de O Jardim Secreto, que dois anos antes havia ganhado uma adaptação recepcionada de maneira calorosa, consequentemente, influenciando uma nova adaptação para o outro famoso conto da escritora. Ambas as obras já haviam sido adaptadas em outros momentos, tanto no cinema quanto na televisão, mas estas releituras americanas foram concebidas para serem as versões “definitivas”, levando em conta a modernização da mentalidade do material do livro para o “presente” dos anos noventa.

Tal período no gênero da fantasia começava a subverter um pouco das convenções tradicionais do conto de fadas, seja as desvinculando de um universo elitista e levando-as para outras culturas, seja considerando um aspecto realista opressor como pretexto para a fantasia ser uma ferramenta alegórica de fuga de realidade. A premissa de A Princesinha acaba se encaixando perfeitamente em ambos os espectros, afinal, a protagonista Sara Crewe (Liesel Matthews) sai do status social de ser cuidada como uma princesa na Índia para virar praticamente uma escrava no internato luxuoso comandado pela Srta. Minchin (Eleanor Bron) após ficar órfã com a morte do pai, o capitão Crewe (Liam Cunningham). Essa transformação não veio do nada, Sarah, quando chega na escola onde sua mãe também havia estudado, traz toda uma mentalidade diferente das outras alunas ali presentes, sem filtros de desigualdades burguesas, o que irrita a professora a ponto de levá-la para o sótão assim que as contas param de ser pagas.

A inocência e principalmente a capacidade imaginativa de Sarah em contar histórias sobre as lendas do seu país de origem vão conquistar as demais crianças no desenvolvimento do primeiro ato, justamente por fornecer uma fuga daquela metodologia de ensino robotizada e das regras rígidas do internato. Ela é o centro da fantasia mais até do que a história que a conta, que, obviamente, no decorrer da narrativa vai ganhando um caráter concreto em que os personagens presentes ganham vida para ajudá-la a fugir também da realidade, quando começa a ser oprimida, além de espelhada aos eventos dentro do orfanato. Contudo, o grande “macguffin” mágico da história é a mentalidade da personagem, pois é ela que, na prática, transforma aqueles arredores. Os momentos íntimos de sua relação de amizade com Becky (Vanessa Chester) – outra criança, negra, colocada para trabalhar como servente às alunas – são os que melhor exemplificam essa ideia.

Cuarón a constrói com uma abordagem sensível. Infantil, mas bastante sóbria ao comunicar imageticamente sentimentos por meio da escolha da paleta de cores da fotografia, especialmente os tons de verde, que podem transmitir tanto uma melancolia fria e solitária como esperança e vivacidade. É bem reconfortante como da metade para o fim ele busca um revés do que foi feito no primeiro ato, que encaminha o filme cada vez mais para o ceticismo, subvertendo essa caminhada para trazer uma mensagem simples e bonita da reciprocidade do destino: “Quem faz o bem uma hora recebe o bem”. A questão é que a abordagem mais sutil da direção acaba desaparecendo no terço final com o otimismo vigente da mensagem tornando a conclusão óbvia e bobinha demais.

A Srta. Minchin acaba sendo a mais prejudicada nisso tudo, pois na história ela também é afetada emocionalmente pela presença de Sarah, mas não tem tempo de ser desenvolvida no seu lado mais humano, ou seja, ela nem chega a funcionar como a pura bruxa chata e maniqueísta que gostamos (ou não) de odiar, nem se torna uma vilã mais complexa quando nos é mostrado um pouco da sua intimidade. Inclusive, a falta de desenvolvimento das crianças secundárias em particular prejudica o senso de plausibilidade da conclusão por efeito manada, mesmo considerando o subtexto fantástico. Para olhares infantis, certamente é conquistador, mas com uma mentalidade adulta, o filme perde um pouco do seu brilho. Ainda assim, foi graças aos méritos mencionados de A Princesinha que Cuarón conseguiu crédito para dirigir O Prisioneiro de Azkaban no futuro.

A Princesinha (A Little Princess | EUA, 1995)
Direção: Alfonso Cuarón
Roteiro: Richard LaGravenese, Elizabeth Chandler (baseado no livro homônimo de Frances Hodgson Burnett)
Elenco: Liesel Matthew, Eleanor Bron, Liam Cunningham, Rusty Schwimmer, Arthur Malet, Vanessa Chester, Errol Sitahal, Heather DeLoach, Taylor Fry, Darcie Bradford, Rachael Bella, Alexandra Rea-Baum, Camilla Belle, Lauren Blumenfeld, Kelsey Mulrooney, Kaitlin Cullum, Alison Moir, Time Winters
Duração: 97 minutos

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