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Crítica | A Prisão de Arsène Lupin, de Maurice Leblanc

por Luiz Santiago
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Fundada em 1905, a revista mensal francesa Je Sais Tout tinha por objetivo servir de indicação enciclopédica para a família, com muitas ilustrações, artigos temáticos e também produções literárias originais. Foi em suas páginas, a partir de julho de 1905, que começaram a ser publicadas as histórias de um personagem que se tornaria um grande clássico da literatura mundial: Arsène Lupin, o Ladrão de Casaca.

Criado por Maurice Leblanc, o personagem fez a sua estreia neste conto intitulado A Prisão de Arsène Lupin, um início questionável para um personagem que se tornou famoso por todos os seus disfarces, maquiagens, astúcia e por aí vai. A esse propósito, vale um parênteses curioso antes de continuarmos: após a leitura dessa primeira história, já fica bastante claro em que fonte as irmãs Luciana e Angela Giussani beberam para criarem, em 1962, o indescritível Diabolik. Agora voltemos a Lupin.

Nessa primeira aventura do famoso ladrão, ele está em um navio que segue em direção aos Estados Unidos. Em dado momento da viagem, avisa-se que Lupin está na embarcação e as características físicas + a primeira letra do nome do bandido (R) é fornecida pelo telégrafo, o que coloca os passageiros em numa situação neurótica, em busca do culpado. O narrador aqui é Bernard d’Andrèzy, que corteja a Srta. Nelly e o tempo inteiro está tirando fotografias com sua inseparável câmera. Esses elementos tornam o conto interessante, fazendo da viagem um teste de nervos para os passageiros e um inferno na vida de um dos homens que possui as características físicas (e o nome iniciado com R) supostamente atribuídas ao criminoso.

A parte negativa da história está em seu final. Há uma mudança de narrador que creio não ter sido benéfica para a trama, considerando a linha adotada pelo autor em todo o restante da obra. Parece uma intervenção confusa, e depois apenas uma piscadela de cumplicidade que talvez possua alguma graça, mas a aventura passaria bem melhor sem ela. O outro ponto, e esse, talvez, o mais problemático, é o fator anticlimático que o conto sugere já pelo seu título. Por mais que tenhamos aqui algumas indicações de que Lupin não vá passar tanto tempo na prisão, ver alguém com essa fama toda ser preso já em sua primeira aventura não é algo muito animador.

Alguns leitores podem enxergar esse caminho como uma louvável quebra de expectativas, mas penso que se o autor cria uma notável mística em torno de um personagem (e não estou fazendo uma análise de conjunto da obra ao longo dos anos. Esse próprio conto de estreia já faz isso!), o mínimo que deveríamos ver em cena era algo que sustentasse essa mística toda. Por outro lado, é bom ver que a classe e o orgulho de Lupin permanecem e ele não parece assim tão preocupado com o fato de estar sendo preso. Depois de tanto tempo — há uma montanha de eventos passados que não conhecemos aqui — o inspetor Ganimard leva a melhor sobre o icônico ladrão. E logo em sua primeira aventura publicada…

A Prisão de Arsène Lupin (L’Arrestation d’Arsène Lupin) — França, 1905
Autor: Maurice LeBlanc
Publicação original: Je Sais Tout #6 (julho de 1905)
Primeira coletânea: Arsène Lupin, Gentleman-cambrioleur (1907)
Edição lida para esta crítica: O Ladrão de Casaca: Edição Bolso de Luxo
Tradução: André Telles, Rodrigo Lacerda
Editora: Zahar
35 páginas

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