Crítica | À Prova de Morte (Trilha Sonora Original)

estrelas 4

À Prova de Morte é a sexta grande incursão industrial de Quentin Tarantino no cinema. No filme, um dublê misógino usa a postura asquerosa e um “carro personagem” para assustar as suas vítimas, enquanto nós, espectadores, do lado de “cá”, contemplamos o cineasta na alimentação de seu fetiche por referências dentro de um esquema industrial saturado. Ciente das abordagens que faz, oriundas da postura cinéfila militante desde jovem, Tarantino vai além das citações que transbordam. Ele emula elementos alheios, mas cria algo próprio. O ponto de partida nunca se torna o elemento central.

É apenas uma bussola inicial para nos guiar diante de algo autoral. Para quem acompanha, no entanto, a experiência precisa fica mais completa quando se conhece os elementos repaginados, um exercício de decodificação inteligente e interessante. Tal como os filmes anteriores, a explosão de diálogos criativos, juntamente com um conjunto de cenas bem elaboradas visualmente transformaram a experiência em mais um objeto de culto bem-sucedido. Desta vez, ele discute a relação entre filme e público, bem como a estetização da violência, etc.  Em seu mergulho no pantanoso terreno da metalinguagem, Tarantino faz trabalhar com inversões temporais no contexto externo de sua obra, ao nos levar para a estética dos anos 1960 e 1970, mas guiados por alguns tópicos da atualidade.

A trilha sonora traz elementos da música soul, blues, rock, pop, hard rock, glam rock, diálogos pontuais de personagens, surf music e outros ritmos já delineados nas críticas das trilhas de Cães de Aluguel, Pulp Fiction – Tempo de Violência, Jackie Brown etc. Com tais gêneros dominantes em sua trilha, Tarantino flerta com as suas palavras-chave, ora coadunando com o que é exibido, ora ironizando sequências, característica comum aos seus filmes, interpretações bem-humoradas e muitas vezes politicamente incorretas, do “modo de fazer, sentir e distribuir cinema”.

As seguintes faixas compõem o álbum: The Last Race, de Jack Nitzsche; Baby It’s You, de Smith; Paranoia Prima, composição de Ennio Morricone; Planning and Scheming, diálogo entre Eli Roth e Michael Bacall; Jeepster, de T Rex; o diálogo extraído de Stunt Mike; Staggolee, de Pacific Gas e Electric; The Love You Save (May Be Your Own), de Joe Tex; Good Love, Bad Love, de Eddie Floyd; Down In Mexico, de The Coasters; o diálogo Hold Tight; Sally and Jack, diálogo extraído de Um Tiro na Noite, filme com trilha mixada por Pino Donaggio; It´s So Easy, de Willy Deville; o diálogo Whatever, However; Riot In Thunder Alley, de Eddie Beram; e Chick Habit, de April March.

Em The Last Race, a guitarra de Jack Nitzsche estabelece o clima sonoro do filme. É a condução dos créditos de abertura que nos remete de alguma forma à atmosfera musical de Pulp Fiction – Tempo de Violência. Baby It’s You, de Smith, música lançada originalmente em 1969, surge de maneira diegética, executada pelos personagens e contemplada interna e externamente na narrativa. Ao longo de Paranoia Prima, de Ennio Morricone tem o seu momento de contemplação, um de vários outros, sendo este uma referência ao giallo O Gato de Nove Caudas, de Dario Argento, num som que também nos remete ao trabalho musical de John Carpenter. O diálogo misógino de Eli Roth e Bacall antecede o country e o glam rock diegético de Jeepster, faixa que se encaixa no entendimento sobre o tal “carro personagem”.

Ademais, o tema de amor trágico de Pino Donaggio, Sally and Jack traz a homenagem de Tarantino ao cineasta Brian De Palma, um de seus prediletos, além do blues e da música soul de Eddie Floyd, da batida acelerada, acompanhada por um violão intenso em Riot In Thunder Alley, de Eddie Beram, e Chick Habit, rock pesado com uma letra que versa sobre o abuso de mulheres, conduzida por April March. Há ainda alguns trechos de rockabilly, surf music, diálogos sobre o lado sombrio dos relacionamentos humanos e jogos perigosos que as pessoas se habilitam a desenvolver, dentre outros.

A trilha, tal como as incursões anteriores, é parte do selo Tarantino de trilhas sonoras: diálogos divertidos, mixagem entre o contemporâneo e o retrô, postura musical nostálgica ao resgatar velhos sucessos do passado, bem como algumas pérolas esquecidas na extensa malha pop rock das últimas décadas. Sanguinário, intenso, visceral. Assim é À Prova de Morte, o filme e a trilha, elementos indissociáveis que no cinema tarantinesco ganha dimensões pouco alcançadas no cinema. Híbrida e com artistas diversos, foi uma experiência positiva, ponte para o projeto que viria adiante, o esfuziante e catártico Bastardos Inglórios.

Death Proof (Original Soundtrack)
Compositor:
 Various Artists
Gravadora: Maverick Records
Ano: 2007
Estilo: Surf Rock, Latino, Pop, Country, Soundtrack.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.