Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | A Queda (1978)

Crítica | A Queda (1978)

por César Barzine
262 views (a partir de agosto de 2020)

No início de A Queda, Ruy Guerra e Nelson Xavier expõem imagens arbitrárias da pobreza que assola o povo brasileiro. Ou talvez, imagens não tão arbitrárias assim dentro do contexto do filme. Pessoas na rua, comida precária, miséria e degradação. Em seguida, vemos uma outra classe social, um povo fora da condição de vida daqueles mendigos recém apresentados, mas na mesma posição periférica dentro da hierarquia que rege o capitalismo. De um lado, os desempregados; do outro, a classe operária – pedreiros em exercício numa construção civil. São homens desamparados em quase todos os aspectos, indo do salário às condições de segurança no trabalho. Esta última acaba levando a um acidente que produz a morte de um pedreiro por negligência da empresa em que atuava. O homem deixa uma mulher, filhos e amigos. Mas para seus superiores há apenas dívidas e processos. 

A partir desse ponto surge o drama do filme, que não está no luto por um trabalhador, mas na luta de classes de todos os trabalhadores. É como se a canção Construção, de Chico Buarque, ganhasse um outro corpo; isto é, a vida do personagem-chave da música/filme chega ao fim tendo em sua morte um momento de meditação da significância daquele indivíduo. E a significância dele representa o valor de todos os seus colegas, já que não há diferenças entre eles; são meras peças homogêneas que agem como gado. Tensões se alastram não através de greves ou reivindicações, mas explorando as relações que giram em torno do acidente ocorrido no início do longa. A tragédia se estende a um ponto onde a elite se mantém insensível a qualquer coisa que fuja de seu ideal de lucro.

Ruy Guerra e Nelson Xavier conduzem um filme pelas ações e tensões em virtude de tal fato, um acontecimento que tem abordagens éticas diferenciadas para cada núcleo do roteiro. A mulher do recém falecido é a única que encara aquela morte como o autêntico acontecimento que ele, claramente, é. Seu rosto manifesta a sua desolação, que surge tanto pelo luto quanto por suas consequências perturbadoras e burocráticas. Tudo isso sendo, em certo momento, sintetizado em um intenso close-up, onde a câmera captura tamanha dor através de um movimento abrupto e apressado, dando uma amarga intensidade para aquele plano cujo enquadramento será repetido da mesma forma em um outro momento.

Desta vez, o close-up está em um colega do sujeito morto, Salatiel, um homem preso num dilema onde o lado mais duvidoso parece ser amor e compensador. Inclinado pelo alto escalão de seu trabalho, ele terá que manipular a esposa do funcionário morto para que ela retire o processo contra a empresa em que seu marido trabalhava. A dualidade ética perante as decisões de Salatiel já abre a noção de que ele não é um personagem unidimensional, pois desde o início da proposta recebida há a demonstração de alguma ambiguidade pela estima dele por seu antigo amigo. Sua personalidade sofrerá variáveis desdobramentos até cair numa inesperada situação que fecha o seu arco e o ciclo do filme.

E toda essa multiplicidade do personagem, interpretado por Lima Duarte, é centrada em um aspecto de seu comportamento que também é marcado pela versatilidade: se trata de sua cordialidade. Conduta tanto amigável quanto hostil, ela sempre é pautada nos instintos e emoções que o afloram no calor do momento. Duarte constantemente é movido por impulsos, pela inquietude de alterar o seu caminho, oscilando entre o clima burlesco e o dramático nos mais variados níveis. Vemos isso no churrasco em que ele negocia sobre os direitos da viúva, em seu afeto com o falecido amigo, na solidariedade com a esposa dele, na fúria que nutre por consequência de seus erros; todos esses momentos têm na cordialidade a representação do protagonista. Com uma interpretação sólida para cada lado de sua personalidade, Lima Duarte transpira um humanismo que nunca faz com que o espectador o abandone e tenha antipatia por ele. Seus erros e suas tentativas de consertá-los, acompanhados das mudanças que ele tanto aspira, o colocam como uma figura amigável apesar dos males provocados por ele.

Cenas de Os Fuzis, também dirigido por Ruy Guerra, se intercalam com o filme atual. Elas surgem ao decorrer do longa como uma espécie de intervalo para aquela narrativa, configurando uma montagem de alternância dividida em dois lados que se passam em épocas e territórios distintos. Dessa mesma forma, não há muita coesão na síntese entre os dois trabalhos. Os Fuzis também é um retrato do povo pobre sofrido e de seu embate com os mais poderosos, mas tais semelhanças se mantêm presas à superfície. Esse maneirismo surge mais como um exibicionismo do que como um elemento que agrega algo à narrativa. Em ambos os filmes as massas se movem num clima de tensão social ligada ao aspecto humano, portanto pode-se dizer que essa junção não incomoda tanto, embora perdure um distanciamento entre elas.

A esposa do trabalhador morto diz que não quer mais saber de dinheiro. Ela, atormentada pelos inúmeros problemas criados pelo acidente, agora vê os seus direitos mais como transtornos do que como qualquer outra coisa. Um incômodo também atinge o personagem de Lima Duarte, que está revigorado em relação aos seus atos e parte para a brutalidade como método de justiça. Ele também recusa o formalismo e a burocracia, porém a sua angústia se concretiza não na inércia e no desejo pelo isolamento, mas pela ação. O personagem de Duarte caminha para a violência, faz da sua cordialidade algo carregado de agonia e tremor. É o contato mais direto no duelo entre ricos e pobres: uma arma ameaçando a cabeça de um burguês.

A Queda forma, junto com Eles Não Usam Black-Tie e O Homem Que Virou Suco, a tríade de filmes sindicalistas focados no trabalhador braçal, apresentando suas dificuldades e suas ânsias por direitos. Ruy Guerra e Nelson Xavier criam um filme “das massas”, que toma um caso individual como signo para o coletivo. Este ponto fica evidente na decupagem, onde o diretor diversas vezes faz uso de planos longos explorando as costas dos personagens enquanto eles estão juntos no trabalho. A longevidade do tempo e da quantidade de personagens sob um olhar inverso (a parte traseira dos corpos) exibe um senso de penetração do realizador na vida daqueles homens. Sujeitos que, ao contrário da visão dos diretores, servem apenas para atrapalhar a passagem do tráfego quando sofrem uma queda.

A Queda – Brasil, 1978
Direção: Ruy Guerra e Nelson Xavier
Roteiro: Ruy Guerra, Nelson Xavier
Elenco: Leonidas Bayer, Carlos Alberto Baía, Hugo Carvana, Murilo de Lima, Jurandir de Oliveira, Ginaldo de Souza, Ivan De Souza, Luiz Antônio de Souza, Cosme dos Santos, Lima Duarte, Marco Antônio Esteves, Markus Konká, Maria Sílvia, Alvaro Freire, Luiz Rosemberg Filho, Isabel Ribeiro
Duração: 120 minutos.

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais