Crítica | À Queima-Roupa (2019)

“Você está recriando a Capela Sistina no quarto do garoto?”

Aos desavisados, À Queima-Roupa pode terminar remetendo-se ao clássico de 1967, de mesmo nome, dirigido por John Boorman. Porém, o longa-metragem de ação distribuído pela Netflix é um remake de outra obra, comandada por Fred Cavayé. Lançada em 2010, À Queima-Roupa é uma produção francesa, que gerou várias refilmagens ao redor do mundo, como em Bollywood e, agora, nas terras americanas. O seu enredo, que é reiterado, apresenta um enfermeiro obrigado a extrair um suspeito de assassinato do hospital que se encontra, em troca da vida de sua esposa grávida, sequestrada. Da maneira como Joe Lynch executa tal premissa, no entanto, a originalidade pesa consideravelmente, não apenas por À Queima-Roupa ser uma refilmagem – nenhum problema aí -, mas por ser um projeto extremamente insosso. Em quinze minutos, a obra já se encaminhou por tantos pontos, mas sem executar nenhum deles realmente bem, que um real investimento do espectador por todo o seu restante torna-se simplesmente impossível. O longa, pelo menos, nunca consegue se tornar extremamente detestável, por ser curto e se sustentar no interesse dos atores principais envolvidos na produção – e, no mais, por possuir momentos pequenos mais espirituosos.

Quando comentado sobre espirituosidade, entretanto, não pense que esta pontuação mais positiva tenha a ver com algum conceito do gênero de ação melhor explorado ou até alguma característica mais notória que esteja presente constantemente na obra – o elenco é o que há de consistente e só. Tais bons momentos são realmente avulsos, como se fossem parte de um outro longa, sem ter um envolvimento concreto com a unidade temática do restante – e inclusive surgindo tardiamente. É o encontro de Paul (Anthony Mackie), o enfermeiro, e Abe (Frank Grillo), o seu paciente, com um grupo de criminosos, após escaparem da morte certa em outras oportunidades. O curioso, no caso, é que os novos personagens são amantes de cinema, margeando uma pontuação que torna-se uma piada contínua. O cinema é metalinguisticamente usado para salvar os protagonistas. Parece completamente dissonante querer comentar sobre isso, mas é quase impossível não se deliciar no carisma de personagens que estão assistindo casualmente e engrandecendo William Friedkin na sala de estar (??). Com isso, estereótipos são subvertidos, ao mesmo tempo que Os Selvagens da Noite é referenciado. Contudo, seria uma heresia aproximar o nome de Lynch ao de um Walter Hill.

A verdadeira pena é Joe Lynch não usar dessas inspirações como forma para crescer a sua obra, soando gratuitas. Cria-se uma empatia momentânea entre o público e o projeto, por conta desses personagens curiosos, justo quando ele está prestes a acabar. Quem tem a ousadia de citar o nome de John Carpenter, referenciado por meio de dois dos seus clássicos, também deveria ter a ousadia de investir mais no longa-metragem em si. Injusto, contudo, seria apontar a condução das cenas de ação como totalmente inoperantes, o que não é o caso. A fotografia traz um realismo, torna a narrativa pé no chão, e Lynch brinca bastante com a câmera, girando-a por certos cenários. Na cena em que Paul rouba medicamentos do estoque, o ponto de vista passa a ser o da bolsa, enquanto o personagem rodeia o ambiente e vasculha os armários – o enquadramento acompanha isso. A questão é que, como Joe Lynch não consegue pensar sequências realmente energéticas, o cineasta precisa tentar satisfazer o seu público com umas brincadeiras cinematográficas um tanto aleatórias. Como ao ir além do quarto de onde estava internado Abe, seguindo a escapatória do seu invasor e ultrapassando qualquer senso rítmico para esperar um mascarado chegar à esquina.

O problema que realmente incomoda nem é essa criatividade mais gratuita, surpreendentemente o menor dos pesos, no entanto, a incapacidade da obra em orquestrar qualquer impulso dramático ou sugerir as nuances narrativas do roteiro. Assim sendo, a trama referente à personagem vivida por Marcia Gay Harden, os mistérios que são propostos e a reviravolta principal praticamente não conseguem ser compreensíveis. Citar uma reviravolta é até um elogio, visto que Joe Lynch não se preocupa em estabelecer um ponto de virada mais impactante, movendo uma revelação apesar de nunca a construir. Em termos de valor dramático, que imergiria o espectador em cena, o cineasta fracassa em fundamentar os vínculos emocionais mínimos, como o entre a grávida e seu marido. Nos primeiros quinze minutos, ademais, acontecem muitas coisas no longa, mas a condução não cria um tom. Mesmo com a curta duração, À Queima-Roupa demonstra, portanto, incessantemente a sua insensibilidade em convencer enquanto projeto relevante, com alguma coisa a inventar ou a propor, nem que fosse um entretenimento sem pretensões. Consequentemente, surpreende o quão a troco de nada é essa já quarta ou quinta refilmagem, de uma obra lançada há nem 10 anos atrás.

À Queima-Roupa (Point Blank) – EUA, 2019
Direção: Joe Lynch
Roteiro: Fred Cavayé, Adam Simon
Elenco: Anthony Mackie, Frank Grillo, Marcia Gay Harden, Teyonah Parris, Boris McGiver, Christian Cooke
Duração: 86 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.