Home FilmesCríticas Crítica | A Química que Há Entre Nós (Chemical Hearts)

Crítica | A Química que Há Entre Nós (Chemical Hearts)

por Luiz Santiago
4.187 views (a partir de agosto de 2020)

O processo de crescimento e amadurecimento de um indivíduo depende de diversos fatores. Uma porção deles externos, de caráter social, cultural, familiar; e outra porção deles internos, de caráter emotivo, sentimental. Como o próprio roteiro de Richard Tanne coloca aqui, em sua adaptação para o livro de Krystal Sutherland, não é um período confortável da vida de ninguém. Misturando medo, insatisfações, muita confusão e emoções à flor da pele, a adolescência nos empurra e nos puxa para os mais diversos lugares e situações, fazendo-nos viver experiências que mudam de contexto para contexto de cada pessoa, mas acabam tendo, proporcionalmente a cada recorte, o seu caráter traumático. Além de moldador de caráter e de experiências. É disso que Chemical Hearts fala.

Não bastasse o momento complicado da vida, Grace Town (Lili Reinhart) vive num abismo depressivo desde a morte de seu namorado. A mudança de escola deveria ser um novo começo para ela, mas há uma série de fatores que tornam essa recuperação mais lenta e complexa, para infelicidade e também nova fonte de problemas para Henry Page (Austin Abrams). À primeira vista, estamos diante de um coming of age clássico, com algum tipo de deslocamento, idas e vindas do amor, um problema ou ação escolar, conflitos familiares e por aí vai. Todavia, em A Química que Há Entre Nós, temos um tratamento mais maduro para esse tipo de temática, com menor foco no lado romântico por si mesmo e mais foco nos problemas centrais vividos pelos personagens.

É claro que abordagens dramáticas menos pesadas dão suporte à grande linha que costura a trama, mas tudo acaba se ligando ao luto, depressão e dificuldade de seguir em frente que Grace encarna, tanto por estar cercada pelos objetos de sua dor, quanto pela complexidade meio doentia dos eventos que a cerca — e não digo isso no sentido negativo. O roteiro estabelece um status mórbido para toda a história, sendo introduzido por Grace e sua postura de “tanto faz” em relação ao mundo. Aos poucos, essa aura lúgubre também abraça Henry, que à sua maneira, passa a ser assombrado pelo garoto morto em um acidente de carro, fonte da dor de Grace, agora interesse amoroso de Henry.

Existe tanto um reforço como uma brincadeira do roteiro com o fato de que a vida, constantemente, nos bombardeia por acontecimentos que tiram o chão de nossos pés e nos coloca em uma situação onde não sabemos como agir. Para o período etário da trama isso é ainda mais sério. Eles são forçados a encarar a morte de frente, cada um desenvolvimento seus pensamentos sobre o que é viver e deixar de viver, algo que a direção de Tanne aproveita para cercar os personagens de símbolos que aludem a isso (peixes, cerâmica quebrada, livros com temática de suicídio entre jovens…). E no meio desse terreno inóspito de dor e de fascinação, nasce o sentimento que a tudo pode transformar. O amor.

Para um filme de temática solene, como este, é necessário um cuidado maior no encadeamento da história, para que um bloco não acabe enfraquecendo o outro, dando a impressão de ser composto por segmentos unidos por uma montagem paralela. No primeiro ato, o diretor consegue alternar bem a passagem entre os problemas escolares, a discussão para o jornal, a aproximação entre Henry e Grace e alguns percalços familiares. À medida que o filme avança, a interação entre esses espaços fica mais problemática, surgindo fora do tempo ou por um recurso de transição que parece fazer questão de matar a atmosfera tão penosamente construída na cena anterior.

Tanto Lili Reinhart quanto Austin Abrams constroem personagem complexos, emotivos, cheios de camadas e que mudam bastante ao longo da filme. Lamento um pouco que o mesmo processo de luminosidade emocional, ao fim, não tenha sido adotado para Henry, mas sua contraparte passa por diversos estágios e chega ao derradeiro momento de maneira bem diferente, sendo tratada com a delicadeza necessária por Reinhart, que na verdade carrega o filme, primeiro pelo afastamento que causa no espectador, depois pela aproximação e simpatia que constrói. Aqui, dor, mudanças e amadurecimento andam de mãos dadas. Por um breve momento, o vazio interior desses personagens é preenchido, mas há algo que ainda precisa ser consertado, e essa presença do outro, apenas, não basta. Uma história sobre relacionamentos, luto e superação por um viés realista, honesto e respeitoso.

A Química que Há Entre Nós (Chemical Hearts) — EUA, 2020
Direção: Richard Tanne
Roteiro: Richard Tanne (baseado na obra de Krystal Sutherland)
Elenco: Lili Reinhart, Austin Abrams, Sarah Jones, Kara Young, Coral Peña, C.J. Hoff, Shannon Walsh, Bruce Altman, Meg Gibson, Adhir Kalyan, Robert Clohessy, J.J. Pyle, Catherine Curtin, Anzi DeBenedetto, Jon Lemmon
Duração: 93 min.

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais