Crítica | A Rede 2.0

Quando observado diacronicamente, A Rede pode ser visto como um filme premonitório, antecipador do que seria a nossa relação negativa, diante de tantas possibilidades também positivas, no contato com as tecnologias da informação. Golpes, roubos de identidade, clonagem de cartões, etc. Na época, a produção foi considerada irregular e exagerada, com sucesso relativo graças ao desejo das pessoas em conferir Sandra Bullock em seus primeiros anos de carreira, uma atriz ainda incipiente no que se refere ao desempenho dramático,  famosa após o sucesso consecutivo de Velocidade Máxima e Enquanto Você Dormia, ação e comédia romântica, dois gêneros por onde a artista circulou durante vários anos, até conseguir se estabelecer em papeis mais maduros e consistentes.

Sem o protagonismo de Sandra Bullock, A Rede com certeza seria apenas mais um filme ao estilo Supercine. Por isso não compreendemos bem porque após uma década de seu lançamento, o filho do cineasta da produção de 1995 decidiu assumir a direção de A Rede 2.0, uma suposta continuação apenas no título e no roubo de identidade. Sem vínculo algum, sequer uma citação dos acontecimentos anteriores, o que justificaria um filme antológico, o telefilme dirigido por Charles Winkler, direcionado pelo roteiro de Rob Cowan, acompanha a trajetória insipida de Hope Cassidy (Nick Deloach), uma analista de sistema que recebe uma proposta de trabalho incrível para desenvolvimento em Istambul e descobre ser parte de um esquema gigantesco de fraudes que colocam a sua reputação profissional em risco.

O perigo de morte vem na esteira das consequências. Na Turquia, a personagem adentra a seara da angústia logo no primeiro dia. James Haven (Neil Hopkins), seu namorado, não quis acompanha-la. Sozinha num lugar em que não conhece ninguém, Cassidy chega com a sensação de isolamento, mas também com um desejo imenso de desenvolver o seu trabalho e prosperar profissionalmente. Do táxi falastrão ao cadastro de entrada no hotel, a moça conhece Z.Z (Keegan Connor Tracy), uma mulher que aparentemente divide as mesmas questões, isto é, o mergulho num lugar exótico para o que estão acostumadas na vida cosmopolita estadunidense.

Há ainda o consulado que lhe informa dados sobre o passaporte que precisa ser reorganizado, pois o visto de turista não se aplica ao que ela de fato exercerá por lá. Como esperado, os seus dados serão trocados e o nome incorreto no documento é o primeiro passo para a jornada infernal da personagem num território que se revela hostil e cenário de uma intriga aterrorizante. No retorno ao hotel, Cassidy precisa sair logo mais, haja vista um alerta de incêndio que se revela uma falcatrua para o roubo de seus objetos pessoais. Assim, com os documentos roubados, conta zerada e outros pormenores que a transformam na “mulher errada”, tal como a personagem de Sandra Bullock no filme anterior, Cassidy percebe que a sua ida para Istambul possui planos que não foram agendados por conta própria.

Há uma imensa rede destrutiva em torno da oferta e a revelação se faz quando ela chega ao local de trabalho para pedir ajuda e descobre que Z.Z agora utiliza a sua identidade e finge sequer conhece-la. É a próxima etapa da jornada rocambolesca que envolve assassinatos que ela não cometeu e perseguições genéricas entre a jovem analista e os policiais, personagens cinematográficos que representam o despreparo total das instituições de “manutenção da ordem”. Presa, Cassidy narra os fatos para a Dra. Kakav (Demet Akbog), profissional que não acredita numa palavra sequer da estadunidense presa por assassinato e crimes cibernéticos.

Por meio de flashbacks, a personagem explica os acontecimentos. A edição vai e volta para o seu depoimento, numa estratégia aparentemente preocupada em dar um ritmo diferente ao convencional formato linear. Contratada para assegurar a rede de internet de uma empresa russa, a protagonista se tornou alvo de uma conspiração que envolve o roubo de U$14 milhões do traficante de armas Ivanakov (Malit Frgenç). O que a ajuda neste processo é a pulseira fornecida pela aeromoça Roxelena (Sebrem Donmez), personagem que se revela mais presente que uma mera figurante, parte de uma trama com potencial, mas que por causa da quantidade de vezes que já foi contada, juntamente com a direção e roteiro medianos, acaba se tornando mais do mesmo de tudo que o cinema hollywoodiano já fez (e muito melhor).

A cibercultura, desta vez, ganha breve espaço na história. Há o acesso da personagem para algumas questões breves, mas A Rede 2.0 se revela um filme de ação com suspense mesclado com roubo de identidade. Em algumas passagens da abertura, os créditos emulam a linguagem dos computadores, num trabalho metalinguístico interessante da equipe de efeitos visuais, gerenciada por Tim Sasson, mas nada memorável ou que não tenha sido feito melhor em tantos outros filmes. A condução sonora de Stephen Endelman, tal como a direção de fotografia de Steven Douglas Smith e o design de produção de Mete Yilmaz, cumprem as suas funções de maneira comum, sem empregar grandes momentos estéticos ao filme.

Importante ressaltar a falta de habilidade da produção, mesmo com seu orçamento limitado, de tornas os aspectos visuais mais instigantes e atraentes, pois nos cenários da Turquia, a direção de fotografia tinha em mãos muitos aspectos deslumbrantes para captar. Mas a estética não aparenta ser a preocupação de A Rede 2.0, filme que também não cumpre bem o seu papel nos requisitos dramáticos, algo que o torna apenas um trabalho burocrático que precisa ser cumprido para dar conta dos lançamentos em home vídeo ou ser parte da programação televisiva de um canal que precisa entreter os seus telespectadores. Ademais, nada de reflexivo ou empolgante, pois a narrativa é arrastada, preguiçosa. Não há, sem perdão para o trocadilho, conexão. E, sem conexão, não estabelecemos contato com nada ofertado por esse suspense abaixo da média.

A Rede 2.0 (The Net 2.0) – EUA, 2006
Direção:
 Charles Winkler
Roteiro: Irwin Winkler, Michael Ferris, Rob Cowan
Elenco:  Nikki Deloach, Demet Akbag, Sebnem Dönmez, Neil Hopkins, Güven Kiraç, Keegan Connor Tracy, Halit Ergenç, Emir Tekeli
Duração: 95 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.