O conceito da reencarnação é ao mesmo tempo fascinante e perturbador. Na perspectiva da doutrina espírita, a ideia da reencarnação é vista como algo natural, uma chance de aprendizado e evolução para o nosso espírito. Por outro lado, há um certo fator enervante na possibilidade de enfrentarmos consequências de uma vida que, para todos os efeitos, não foi a nossa, ou o que pode ser ainda mais assustador, descobrir que fizemos ou passamos por coisas terríveis em outras vidas, levantando a pergunta se devíamos ter esse tipo de conhecimento. Houve uma leva de obras literárias de terror e suspense nos anos 70 que lidaram com a angústia que um conflito com a vida passada pode causar, gerando adaptações como As Duas Vidas de Audrey Rose (1977), ou A Reencarnação de Peter Proud, objeto desta resenha.
Na trama, Peter Proud (Michael Sarrazin) é um jovem professor universitário, que está atormentado por um pesadelo recorrente, onde testemunha uma mulher chamada Marcia (Margot Kidder) matar um homem a golpes de remo em um lago. Além disso, Peter está sofrendo com uma estranha dor em seus quadris que nenhum médico parece conseguir tratar ou explicar a causa. Ao ver na televisão um local em que ele nunca esteve, mas que tem certeza de que viu antes em seus sonhos, Proud começa uma investigação que mudará a sua vida para sempre.
Dirigido por J. Lee Thompson a partir de um roteiro escrito por Max Ehrilich, que adapta o seu próprio romance homônimo, A Reencarnação De Peter Proud é um drama com toques de suspense que possui uma premissa bastante interessante, mas que acaba sendo desenvolvida de forma um tanto quanto enfadonha por seu diretor. O primeiro terço do filme gira todo em volta do protagonista tentando desvendar o significado de seus sonhos recorrentes e da inexplicável dor em seu quadril. Para isso, acompanhamos várias visitas de Peter a médicos, psicólogos e afins. Tudo isso é monótono e didático pra caramba, e não ajuda o público a se envolver com o drama do personagem principal e o mistério que ele investiga.
O filme, entretanto, cresce bastante em sua segunda metade, quando Peter conhece Marcia e a filha dela, a bela Ann (Jennifer O’Neil). A partir daqui, o roteiro de Max Ehrilich consegue desenvolver um drama mais interessante, já que vemos o dilema de Peter ao tornar-se apaixonado por uma garota que se revela a sua filha da encarnação anterior, ao mesmo tempo em que acompanhamos o desespero de Marcia, que se vê assombrada pela figura desse homem, que ela vê como um fantasma do passado. Aliás, devo destacar aqui o ótimo trabalho realizado por Margot Kidder, que consegue transmitir toda a culpa e a loucura crescente de sua personagem, tanto em sua fase jovem quanto em sua fase mais velha.
A direção de J. Lee Thompson, responsável por clássicos como Círculo Do Medo (1962), é eficiente em retratar o mergulho do protagonista nesse mundo mais etéreo, à medida em que ele vai aceitando as causas espirituais do mal que o está afligindo. Da mesma forma, a decupagem e a direção de fotografia adotam um tom mais cru quando se foca na personagem de Kidder, por seus dramas girarem em torno de questões muito mais psicológicas do que espirituais. É uma direção que, mesmo que careça de um momento mais forte, é competente o suficiente para navegar entre os seus diferentes tons com desenvoltura.
Infelizmente, apesar de possuir os seus méritos, A Reencarnação De Peter Proud se revela um longa-metragem excessivamente monótono e sem ritmo. Ele possui uma boa premissa, que parece ter sido desperdiçado em uma obra que nunca consegue se conectar com as emoções de seus personagens.
A Reencarnação de Peter Proud (The Reincarnation of Peter Proud) – EUA, 1975
Direção: J. Lee Thompson
Roteiro: Max Ehrlich (Baseado no próprio romance)
Elenco: Michael Sarrazin, Jennifer O’Neill, Margot Kidder, Cornelia Sharpe, Paul Hecht, Stuart Thomas, Norman Burton, Anne Ives, Debralee Scott, Steve Franken
Duração: 105 min.
