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Crítica | A Regra de Três, de Jeffery Deaver

Uma divertida leitura descompromissada.

por Ritter Fan
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Em A Boneca Quebrada, romance de narrativa única, mas espertamente dividido em quatro contos entrelaçados como parte das publicações desse tipo da iniciativa Amazon Original Stories, que vem gerando bons frutos, o prolífico romancista americano Jeffery Deaver, certamente mais conhecido por ser o autor de O Colecionador de Ossos, que foi adaptado para o cinema em 1999 em um longa estrelado por Denzel Washington e Angelina Jolie, criou a eficiente agente especial Constant Marlowe, do Departamento de Investigação Criminal de Illinois (semelhante ao FBI, mas com jurisdição circunscrita ao estado), que tem como maior característica ser uma ex-pugilista profissional que aproveita todas as oportunidades que encontra para metodicamente guardar as armas de fogo dela e de seu oponente em um cofre portátil que costuma carregar para lidar com ele somente com os punhos e sua técnica. Percebendo que sua criação poderia levar a outras histórias, Deaver tratou de aproveitá-la dois anos depois em A Regra de Três (The Rule of Threes), que, diferente da história em que ela surgiu, a coloca indubitavelmente no centro da narrativa.

No thriller investigativo, Constant (e não Constance, vale lembrar) parte para a pequena cidade de Clark Valley para tentar localizar o serial killer conhecido como BRK que estuprou e assassinou duas mulheres por lá. Quando ela chega por lá, xerife local a pareia com a delegada Zo Eventide, uma nativa americana e as duas estabelecem imediata conexão, passando a trabalhar com vigor atrás do assassino. Em paralelo, mas aparentemente sem conexão alguma com o caso, existe a questão de um tratado antigo com a Nação Indígena local que fora recém-encontrado e que está em processo de estudos e eventual ratificação pelo governo, o que serve de gatilho para que moradores racistas da região se movimentem para sabotar o que seriam as linhas demarcadoras de território. E, finalmente, há uma terceira história contada sob o ponto de vista de um homem misterioso que é obcecado pelos número três, justificando o título e criando um elemento estranho que é costurado muito inteligentemente em meio a uma investigação que cada mais mais se revela como complexa e frustrante (para os investigadores, não para o leitor, só para ficar claro).

Entre todos esses elementos – sem nos esquecer nos momentos de pugilismo de Constant – e uma família que pode ou não ter testemunhado BRK em ação durante um piquenique em um parque e que, por isso, passa a precisar de proteção policial, Jeffery Deaver tem uma pluralidade de aspectos para fazer o que faz de melhor: reviravoltas atrás de reviravoltas. Sou o primeiro a dizer que histórias que dependem demais de reviravoltas acabam perdendo a força, porque as reviravoltas acabam sendo a razão da existência da obra, sejam elas literárias ou audiovisuais, mas, aqui, o autor consegue criar uma sucessão de situações que variam entre meros pontos de vista equivocados, interpretações errôneas e, claro, o criminoso fazendo de tudo para desviar a atenção da polícia, mas sem que ele precise forçar demais a barra. Claro, há momentos que exigem um pouco mais da suspensão da descrença do leitor, mas isso faz parte, pois, no geral, tudo flui muito bem e existe dentro de um contexto bem erigido e estabelecido que faz de cada twist uma diversão e não algo para revirar os olhos. E isso sem contar que Constant Marlowe é uma ótima protagonista durona que é construída em cima de clichês do gênero, mas que, como as reviravoltas, funcionam bem. Alguns poderão coçar a cabeça com o final completamente aberto que Deaver deixa, mas ele fez o mesmo em A Boneca Quebrada, pelo que, apesar de eu não adorar essa estratégia, ela é sem dúvida uma interessante provocação.

A Regra dos Três não é alta literatura, não é nada particularmente original ou espantoso, mas o romance é sim uma pura diversão bem escrita e bem concatenada que prende o leitor do começo ao fim e que nos desafia a tentar pensar mais rápido que o autor. Jeffery Deaver pode não acertar sempre no que faz e pode não ter a pretensão de escrever algo sutil ou particularmente complexo, mas suas aventuras da agente especial Constant Marlowe tem se mostrado deliciosas e não há nada como um livro bom e descompromissado para nos ajudar a relaxar entre leituras mais complexas, não é mesmo?

A Regra de Três (The Rule of Threes – EUA, 2022)
Autoria: Jeffery Deaver
Editora original: Amazon Original Stories
Data original de publicação: 1º de março de 2024
Páginas: 264

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