Crítica | A Repossuída

Há um trecho teórico do campo dos estudos literários que nos permite um diálogo ilustrativo sobre a metalinguagem: é O Trabalho da Citação, de Antoine de Compagnon. O estudioso afirmou que a citação é um processo de leitura e escrita, pois, ao mesmo tempo em que escreve, o escritor, em nosso caso, o cineasta, o roteirista e a atriz em questão, unem também o ato de leitura. Desta forma, esta reescrita se concebe como devir do ato de citação. Ao produzir, o artista recorre ao processo de input de toda a sua vida.

Em A Repossuída, Linda Blair recorre ao filme que representou toda a sua carreira, pois diante de tantas polêmicas e contradições, misteriosamente não conseguiu deslanchar a sua carreira, algo que as pessoas chamaram de a “maldição” pós O Exorcista. Na paródia em questão, a atriz não está em casa ou numa sala de cinema observando como o seu texto, neste caso, o seu desempenho dramático, foi reconstruído e dessacralizado, ao contrário, ela mesma refaz a si, num processo estranho e autodestruidor, aliado aos esquemas da paródia.

Sendo assim, a paródia pode ser considerada um “filho rebelde” ou um “espelho invertido”, apresentado por meio de exageros e deformações, tal como numa lente, muito parecido com o que se faz na charge e na caricatura. Para o elucidativo ensaísta Affonso Romano de Sant´anna, “sendo uma religião”, a paródia é parricida, pois mata o “texto pai” e instaura a busca por uma possível diferença, criando assim um conflito, expulsando, de certa forma, a linguagem do seu espaço celestial. O Exorcista, clássico absoluto do horror dos anos 1970, ganha nesta produção um olhar paródico representado por um dos elementos mais importantes de sua composição: a “menina possuída”.

Lançado em 1990, A Repossuída foi pouco compreendido pela crítica especializada, provavelmente por conta da participação de Blair. Escrito e dirigido por Bob Logan, o filme nos apresenta uma garota chamada Nancy. Ela está possuída pelo demônio e para isso, será preciso um ritual com o Padre Jebedaiah (Leslie Nielsen). A coisa ganha proporções tão intensas que o exorcismo começa a ser registrado por meio de um reality show, exibido ao grande público, com direito aos cabos que sustentam a personagem em suas levitações e a deflagração de outros truques de bastidores que satirizam as estratégias narrativas do filme de William Friedkin.

A edição de Jeff Freeman até se esforça para dar um ritmo dinâmico ao filme, bem como o design de produção de Shay Austin, repleto de elementos que profanam o sagrado, mas mesmo que tenha sido feita para rir, a comédia A Repossuída é erguida por meio de poucos bons momentos. A abertura de Todo Mundo em Pânico 2, por exemplo, é uma versão paródica muito mais divertida, com menor tempo de projeção em tela, mas ainda assim, melhor no quesito eficiência.

Ganhador do troféu Framboesa de Ouro de Pior Canção, o filme pretendia alavancar a carreira de Linda Blair, mas não deu certo. A atriz vinha de uma série de problemas pessoais, como detenção por uso de cocaína e perseguição por parte de grupos religiosos extremistas, que alegavam associação demoníaca na realização das cenas de possessão em O Exorcista, além da participação em filmes de terror bem abaixo da média, tais como “o capenga” Bruxas – Encontros Diabólicos, o slasher Noite Infernal e o “mais dramático” Ruas Selvagens.

Como refúgio, a atriz tentou mudar a sua vida, envolvendo-se em causas sociais. A inscrição como membro da PETA, pelo direito dos animais, foi um dos caminhos para a “luz”. O convite de Wes Craven para uma ponta em Pânico também chamou à atenção do público, relevância social retomada com o relançamento da versão com 11 minutos inéditos de O Exorcista, em 2001, nas salas de cinema. O evento promoveu uma série de encontros e entrevistas focados na relação intrínseca da atriz com o filme que nunca a deixou. Terá sido uma maldição?

A Repossuída (Repossessed, Estados Unidos – 1990)
Direção: Bob Logan
Roteiro: Bob Logan
Elenco: Linda Blair,  Leslie Nielsen, Annie Waterman, Army Arched, Anthony Starke, Barbara Alyn Woods, Ben Kroner, Bob Drew, Jesse Ventura, Greg Lewis
Duração: 80 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.