Crítica | A Revolução Dos Bichos, de George Orwell

Décadas atrás, escrever algo sobre A Revolução dos Bichos que demonstrasse qualquer espécie de brevidade ou sintetismo seria inevitavelmente ignóbil, ou ao menos visto como uma imperdoável inexpressividade. Hoje, porém, muito já foi dito, por pessoas mais diletas do que eu, sobre o contido relato político para o qual Orwell prestou-se, a fim de expressar sua indignação com a descaracterização do socialismo russo. Por isso, estender-me em esforços hermenêuticos seria completamente dispensável. Devo, portanto, me ater a uma análise puramente estrutural, e contentar-me em somente abordar esporadicamente a erudição crua que o autor transportou para o livro. Tarefa ingrata, sobretudo porque trata-se da característica mais encantadora e inebriante de sua prosa.

Para uma sinopse, sinopticamente: cansados da exploração a que são submetidos pelos humanos, os animais da Granja do Solar rebelam-se contra seus donos e tomam posse da fazenda, com o objetivo de instituir um sistema cooperativo e igualitário. Mas não demora muito para que as coisas comecem a fugir do controle.

Para um comentário moderado: num roman à clef disfarçado de fábula heterodoxa, aborda-se, com sutil bom humor, o poder.

E é sobre o pretexto de uma luta pelo poder que Orwell consegue contextualizar os animais da granja num incessante conflito com as normas preestabelecidas do “animalismo”. E da forma como é feita, parece dispensável que se discorra sobre o alinhamento das representações, afinal, por mais que sejam todas, de fato, representações, as reações parecem orgânicas de tal forma que nunca é necessário apelar ao fantasma da história e da inexplicabilidade de certos acontecimentos.

Outra coisa que torna esse livro ainda mais incomum e curioso é a falta de envolvimento do autor nas minuciosidades dos acontecimentos os quais resolveu relatar com desfaçatez, em contraste com a irretocável verossimilhança encontrada em todos os fatos e em todas as decisões e ações das personagens. Servindo-me de outros exemplos, como Contraponto de Huxley e Os Demônios de Dostoiévski, o processo mais razoável para compor um roman à clef seria o contrário, no entanto, Orwell encontra uma naturalidade inabalável e inusual em um romance histórico.

Uma das principais conquistas narrativas é a entonação. No principio, contando as especulações do porco, sábio e profeta, que poderia representar Karl Marx, e logo depois sobre os bichos herdeiros enfeitiçados com essas ideias, o livro expia um otimismo irreparável, a medida em que todas as intenções dos nossos “heróis” são inexoravelmente concretizadas. O prosseguimento, porém, exala uma decepção gritante, sendo que os ideais que antes encantaram agora são usados contra os bichos para poderem sustentar uma luta inescrupulosa pelo poder.

O final, e com isso digo a frase final do livro, é uma das melhores formas de finalizar uma estória. Não sei ao certo dizer se é um relato pessimista, ou se é puramente relatório, mas certamente trata-se de uma manifestação excelentemente excêntrica sobre um dos períodos mais curiosos da história moderna.

A Revolução dos Bichos (Animal Farm) – Inglaterra, 1945.
Autor: George Orwell.
Editora: Companhia das Letras.
Tradutor: Heitor Aquino Ferreira.
Páginas: 144.

PEDRO PINHO . . . Pedro é um apreciador parcialmente incentivado, porém nada financiado, de algumas coisas que ele mesmo considera importantes. Suas intenções não são tão claras, e ao que tudo indica ele fará de tudo para impedir que sejam, tem medo que se mostrem esplêndidas ou ridículas demais, ou na pior das hipóteses que não despertem qualquer reação. As coisas que fala ou escreve revelam tanto sobre ele quanto esse texto. Minha tarefa em decifra-lo continua frustrada.