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Crítica | A Rosa e o Gládio (Asterix)

por Ritter Fan
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Foram necessários mais quatro anos de intervalo desde As 1001 Horas de Asterix, de 1987, para que um novo álbum da série fosse lançado. A Rosa e o Gládio, de 1991, seria, aliás, um dos apenas dois álbuns de histórias inéditas de toda a década de 90, um forte contraste da produção anual nos anos 60 e 70 e que marcaria praticamente a aposentadoria de Albert Uderzo, que só escreveria mais três álbuns entre 1996 e 2005 – A Galera de Obelix, Asterix e Latraviata e O Dia em que o Céu Caiu –  e uma subsequente seca de Asterix que só viria a acabar com a passagem completa do bastão criativo da série em 2013.

Os temas de A Rosa e o Gládio é o feminismo e a emancipação feminina, assuntos que Uderzo aborda de maneira claudicante e com tato duvidoso. Estruturalmente, a história começa com a demissão de Chatotorix como professor da escola da aldeia e sua substituição por Maestria, mulher moderna, que usa calças no lugar de vestidos e que vem de Lutécia não exatamente para ensinar a criançada, mas sim para criar uma revolução feminista, arregimentando todas as esposas dos aldeões, especialmente Naftalina. Paralelamente, por sugestão de Claudius Tomônibus, Julio César organiza uma centúria especial e secreta formada de legionárias e comandada por uma centuriona, enviando-a para substituir os legionários do acampamento de Aquarius. O objetivo é depender da galanteria gaulesa, que impede os homens da aldeia de baterem em mulheres, para obter uma vitória fácil.

A coincidência das duas linhas narrativas já demonstra uma certa preguiça do roteiro, mas o problema maior está no fato de que em momento algum é cogitado dar a poção mágica às mulheres da aldeia para que elas resolvam o problema no tapa, já que não seria a primeira vez em que elas arregaçariam as mangas. Sei muito bem que o objetivo de Uderzo foi criticar aqueles que dizem que as mulheres têm que ficar em casa cozinhando, lavando louça e cuidando dos filhos enquanto os homens vão guerrear, mas o tiro sai pela culatra na medida em que elas próprias se resignam a colocar Maestria como negociadora de uma paz obviamente impossível.

Mesmo que a história tenha bons momentos, especialmente no começo quando cada homem da aldeia – incluindo Panoramix e Asterix, normalmente tão calmos e controlados – perde as estribeiras com a revolução que está acontecendo e abandona suas respectivas mulheres para viver na floresta, algo que Chatotorix já havia feito, a questão é que essa situação perde a novidade muito rapidamente, passando a ser repetida ad nauseam até a metade do álbum sem que muita coisa seja acrescentada. Quando, então, a centúria finalmente chega – e ela é mantida em segredo por mais tempo do que talvez devesse -, a forma como Uderzo a utiliza é simplista demais, com uma resolução não beligerante que, longe de afirmar a independência feminina, só ratifica os estereótipos do gênero, como medo de bichos e insetos, incapacidade de resistir a compras e assim por diante.

Em outras palavras, Uderzo parece Penélope, esposa de Ulisses, em que em um momento costura um manto e, em seguida, o descostura. O autor trabalha Maestria como indutora de mudanças somente para fazer com que essas mudanças não perdurem por mais do que poucas páginas. E, mesmo assim, são alterações no status quo da aldeia que começam bem, mas, depois, rendem-se à visão do Homem sobre o papel da Mulher. Tudo bem que o álbum não foi escrito nos dias de hoje, mas não estamos falando de algo dos anos 60, mas sim de 1991, em que Uderzo já deveria ter sido capaz de demonstrar maior esclarecimento e, principalmente, finesse para lidar com a questão ou, se não se sentisse à vontade, que então nem abordasse o assunto. No momento em que ele arregaçou as mangas para falar de feminismo, ele deveria ter sido pelo menos respeitoso, mesmo mantendo a necessária pegada satírica que é a marca das aventuras de Asterix.

Sua arte, pelo menos, mantém-se de alta qualidade e, quando ele aborda as mulheres da aldeia, ele consegue encontrar um bom equilíbrio visual com os novos figurinos que elas passam a usar. Ele não acerta tanto no caso da centúria, pois desenha toda as legionárias da mesma forma, com corpos longilíneos e bonitos na linha de Falbalá de Asterix Legionário, só alterando a cor dos cabelos, enquanto a centuriona é uma matrona abrutalhada. Novamente, ele deixou-se levar pelos estereótipos que, claro, divertem, mas que parecem anacrônicos, desabonando a própria história.

A Rosa e o Gládio é uma tentativa muito falha de Albert Uderzo em abraçar os tempos modernos. Teria sido preferível que ele continuasse com as aventuras tradicionais de Asterix e Obelix sem navegar por caminhos que ele muito claramente não conhecia bem que direção tomar.

A Rosa e o Gládio (La Rose et le Glaive, França – 1991)
Roteiro: Albert Uderzo (baseado em criação de René Goscinny e Albert Uderzo)
Arte: Albert Uderzo
Editora original: Les Éditions Albert René
Editora no Brasil: Editora Record
Páginas: 48

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