Crítica | A Rota Selvagem

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A Rota Selvagem (2017) é um ótimo instrumento para mostrar e ampliar a capacidade dramatúrgica de Charlie Plummer, cuja carreira nos cinemas começou em 2011. No filme, ele dá vida a Charley Thompson, um garoto de 15 anos que mente a idade o tempo todo e que sonha com uma vida diferente para sua família (leia-se ele e o pai, interpretado por Travis Fimmel), já que há indicações de que eles estão em constante mudança. Essa percepção inicial a respeito do comportamento do pai e do filho é muito importante para que o espectador entenda e processe aquilo que a película irá desenvolver a seguir.

A direção e o roteiro aqui são de Andrew Haigh (baseado na obra de Willy Vlautin), diretor muito apegado ao desenvolvimento sentimental e de maturidade de seus personagens, vide o seu trabalho muito interessante nesse aspecto em filmes como Final de Semana (2011) e 45 Anos (2015). Aqui, o cineasta muda a faixa etária do personagem que precisa crescer, aprender, revelar-se. Ele parte do estabelecimento de Charley e seu pai em Portland, no Oregon, e adiciona o emprego do garoto como assistente de treinador de cavalos para cultivar o ponto dramático do filme, o espaço onde o laço irá se quebrar e de onde as ferramentas para o amadurecimento do adolescente sairão. E isso torna o filme muito interessante.

O enredo aqui não é novo em sua concepção (histórias de maturidade em um filme de caráter road é quase uma tradição nos cinemas), mas a proposta inicial funciona porque tem um princípio diferente: partimos de uma tentativa de estabilidade do garoto e talvez de uma maior conexão com o pai ou com a nova cidade, e avançamos para um desmembramento dessas impressões gerais, cabendo no pacote as tragédias típicas da vida, só que por um ponto de vista de alguém que não tem ninguém que o ampare, oriente, ajude. A força de Charley é imensa e a interpretação de Plummer fortalece essa impressão que temos. Ele entende e até deixa vir à tona as suas fraquezas, os seus medos, mas nunca se deixa vencer. A viagem de conhecimento terá essa coluna como sustento. Uma pena que ela é quebrada em contínuos “curtas” dentro de um filme só.

O que mais incomodou no roteiro de Haigh foi a falta de um fortalecimento da linha que liga as “crônicas de maturidade” do jovem com a sua vida presente e sua perspectiva de futuro. A aparência final de cada mudança é de que estamos contando diferentes histórias, onde a parte anterior é quase totalmente esquecida, sendo a pior de todas essas relações a que envolve Del (Steve Buscemi) e Bonnie (Chloë Sevigny). O filme faz questão de investir tempo, texto e delicadeza fotográfica (aliás, um ponto a ser fortemente aplaudido no filme, especialmente nas tomadas noturnas, todas muito bem pensadas) na relação de Charley com essa turrona figura paterna que, devido a um desentendimento envolvendo a vida do cavalo Lean on Pete, desaparece por completo da obra. O texto nem volta a abordar a questão como fechamento de arco, o que me pareceu bastante irresponsável. Junto a isso, ainda temos a trama do cavalo que é muito boa no início, mas aos poucos firma uma possível separação que, sinceramente, põe muita coisa a perder.

Com boas escalações e boas interpretações, o filme consegue nos chamar a atenção e desenvolve a contento muito de sua proposta de laços familiares, bem como de crescimento psicológico e emocional do protagonista. O problema é que algumas dessas janelas permanecem abertas, pondo em risco a completude do roteiro e fazendo o espectador se perguntar, mais de uma vez, “o que aconteceu com fulano…?“, o que nunca é um bom sinal.

A Rota Selvagem (Lean on Pete) — Reino Unido, 2017
Direção: Andrew Haigh
Roteiro: Andrew Haigh (baseado na obra de Willy Vlautin)
Elenco: Charlie Plummer, Amy Seimetz, Travis Fimmel, Steve Buscemi, Jason Beem, Tolo Tuitele, Ayanna Berkshire, Connor Brenes, Kurt Conroyd, Chloë Sevigny, Dennis Fitzpatrick, Rusty Tennant, Julia Prud’homme, Jason Rouse, Lewis Pullman
Duração: 121 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.