Home QuadrinhosArco Crítica | Monstro do Pântano: A Maldição

Crítica | Monstro do Pântano: A Maldição

por Luiz Santiago
229 views (a partir de agosto de 2020)

SPOILERS!

Uma das perguntas que ocorreu a Alan Moore e a seus parceiros artistas enquanto guiavam o Monstro do Pântano por uma de suas melhores fases (para alguns, a melhor), foi a seguinte: como é possível manter um personagem já retirado das cinzas e bastante explorado em seu “novo formato”, ainda atraente para o grande público? O que encontraram como resposta tinha dois núcleos à vista; o primeiro estava o tempo inteiro nos jornais, revistas e noticiários: a ameaça nuclear, a era M.A.D.. O segundo, estava no conhecimento e nas histórias populares de diversos lugares do mundo, as lendas urbanas sobre o domínio dos espíritos, de criaturas das mais variadas ‘espécies’ e também sobre algumas pessoas capazes de ter contato direto com o “mundo espiritual” e ainda continuar vivendo normalmente em nosso plano — ou qualquer outra coisa que chegasse perto disso.

Entre as edições #35 e 42 da Saga do Monstro do Pântano, Moore, Bissette, Totleben e outros artistas convidados trouxeram esses núcleos narrativos para as páginas da revista, explorando o universo místico e ao mesmo tempo trabalhando elementos críticos e em crise de nossa sociedade, como a poluição nuclear e os efeitos causados pela radiação, o racismo e a misoginia e, por outro lado, a ocorrência criaturas fantásticas e medonhas como vampiros, lobisomens e zumbis, estes últimos, lembrando bastante o tratamento dado a este mesmo tema por Len Wein em Monstro do Pântano #10 (Vol.1): O Homem Que Não Quis Morrer!

Estes dois lados (social e espiritual) que de alguma forma afetam diretamente a vida das pessoas chegam para o Pantanoso e para Abigail da forma mais invasiva e traumatizante possível — pontas que seriam amarradas no futuro, no crossover com o evento da Crise nas Infinitas Terras.

plano critico a maldiçao monstro do pantanoplano critico a maldiçao monstro do pantano

As duas primeiras edições do volume chamadas pelos autores de “Gótico Americano” mas cujo arco foi nomeado Notícias do Fuça-Radioativa (partes 1 e 2) são uma obra-prima sobre dejetos de Usinas Nucleares e transformações de um corpo, seja ele humano ou vegetal. Desde que modificara toda a concepção do Monstro do Pântano no arco do Homem Florônico, Moore ainda não tinha explorado outra grande mudança na constituição do personagem, algo que ele faz neste conjunto de edições, começando com a contaminação do Musguento pelas mãos do Fuça-Radioativa e terminando com o domínio do personagem sobre a sua própria reconstrução natural depois de umas poucas conversas enigmáticas com John Constantine, que aparece pela primeira vez na edição #37.

A concepção de Steve Bissette e John Totleben para estas edições iniciais é sensacional. O trabalho de colagem feito por Bissette  e a finalização capaz de destacar essas notícias de forma a fazer sentido para a história e estarem bem integradas nas páginas coroa as edições e, além disso, traz representações marcantes do Fuça e do sofrimento do Pantanoso que renasceria no número seguinte, Padrões de Crescimento.

A diagramação de página dessa edição é extremamente inteligente, conseguindo aglutinar várias histórias de forma aceitável e entendível para o leitor. O texto de Alan Moore explora mais uma vez o íntimo do Monstro do Pântano, refletindo sobre o seu crescimento e sentindo, como uma planta frágil, além dos dissabores de estar na natureza e não ter muito controle sobre ela. Há diálogos e passagens que não existe outra palavra para definir além de “fofa e cruel” (o monstrinho do pântano pedindo para Abigail não lhe colocar inseticida porque ardia é um exemplo), muito embora a edição nos apresente a chegada de uma sombria criatura à qual todos os contatos de Constantine parece dar um nome diferente, nenhum deles aludindo a algo bom — mais uma vez, pontas que seriam amarradas quando a Crise chegasse.

plano critico monstro do pantano cidade assombrada

O arco seguinte, formado pelas edições Águas Paradas (#38) e História de Pescador (#39) apesar de manter o componente artístico em alta, possui um roteiro que peca no propósito e na finalização com cara de Deus ex machina. Mesmo entendendo toda a crônica dos vampiros submersos como algo que o Monstro do Pântano deveria enfrentar para maturidade própria, toda a história está bem aquém aquilo que a edição #37 nos havia preparado. A grande ameaça provoca uma das encarnações mais louváveis do Monstro do Pântano até agora, mas após a água se tornar corrente, todos se desfazem quase que como em um passe de mágica. Sinceramente, achei o final levemente decepcionante. Só não dá para descartar a história porque sua construção e as participações do Musguento, de Constantine e dos personagens coadjuvantes realmente se destacam com louvor. Sem contar que esta história termina algo plantado na revista desde a era de Martin Pasko.

As duas aventuras finais apostam novamente em questões místicas, uma chamada A Maldição (#40), com a mulher-lobisomem e uma história da “cabana vermelha” que alude aos ritos de alguns povos — separando as mulheres no período de sua menstruação, como se estivessem impuras (o subtexto bíblico também se faz presente na crítica de Moore) –; e finaliza com a trama dos negros zumbis em Mudanças Sulistas (#41) e Estranhos Frutos (#42), cuja primeira edição recebe uma das melhores artes-finais do volume, assinada por Alfredo Alcala, realizando um trabalho que não deve nada ao de Totleben.

Dominação dos mais fracos pelos mais fortes, injustiças sociais, desajustes familiares, inquietações espirituais, problemas urbanos das mais diversas ordens e questões ambientais discutidas sob um viés filosófico estão entre os temas das histórias que formam as edições #35 a 42 do Monstro do Pântano e, exceto pela finalização da trama com os vampiros aquáticos, o trabalho de Moore é, mais uma vez, excepcional.

A Saga do Monstro do Pântano – Livro 3 (Monstro do Pântano #35 a 42) — Swamp Thing #35 – 42  — EUA, 1985
Roteiro: Alan Moore
Arte: Steve Bissette (#35, 36, 39 a 42), Rick Veitch (#37), Stan Woch (#38)
Arte-final: John Totleben (#35 a 40 e 42), Alfredo Alcala (#41)
Cores: Tatjana Wood
Letras: John Costanza
Capas: Steve Bissette, John Totleben
Editoria: Karen Berger
Data original de publicação: abril a novembro de 1985
Publicação deste volume (no Brasil): A Saga do Monstro do Pântano – Livro 3 (dez, 2014)
212 páginas (encadernado)

Você Também pode curtir

11 comentários

Paulo 4 de julho de 2020 - 01:14

Beleza, Luiz? Sei que faz tempo que você leu… (Mas qualquer coisa dá uma olhada novamente) Fiquei com uma pulga atrás da orelha sobre a sequência de quadros que mostra os amigos/contatos do Constantine sofrendo um tipo de ataque. Uma deles morre, inclusive, depois de ser meio que assombrada por um desenho que ela mesma estava fazendo. Isso tinha alguma relação com a história que eu não percebi ou é algo explicado mais pra frente na fase? Abraços!!

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 4 de julho de 2020 - 02:21

Beleza, cara! Qual é o número dessa edição que você está se referindo?

Responder
Paulo 4 de julho de 2020 - 13:19

37, a primeira aparição do Constantine. Páginas 16 à 21.

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 4 de julho de 2020 - 14:02

Verei lá e volto aqui pra gente conversar.

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 4 de julho de 2020 - 16:44

@disqus_PtpVfn1E6w:disqus voltando aqui. Essa artista é a Emma e não há nada ligado especificamente a ela (pelo menos da revista do Pantanoso) que seja importante. Mas em relação ao desenho que ela faz, sim.

Através do subconsciente dela, acaba desenhando essa figura grotesca que é uma entidade demoníaca chama INVUNCHE.

A criação dessa criatura veio por um coven de bruxos chamado BRUJERÍA e você terá contato com esses caras nas próximas edições, fique tranquilo.

Paulo 4 de julho de 2020 - 23:30

Muito esclarecedor!! Valeu mesmo, legal trocar um ideia com alguém que manja kkkkkk.
Qualquer hora volto para comentar mais! Tâmo junto!

Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 5 de julho de 2020 - 02:12

Quando terminar o arco volte para dizer o que achou da história até aqui!

JJL_ aranha superior 28 de abril de 2017 - 16:45

Antes de ler esse arco juro que não sabia que alan moore havia criado o constantine, a propósito o moore já chegou a escrever hellblazer?

Responder
Luiz Santiago 28 de abril de 2017 - 19:22

Infelizmente não, @joao_lucas_ribeiro_lopes:disqus!

Você está acompanhando esses arcos agora? Está saindo do Livro 3?

Responder
JJL_ aranha superior 29 de abril de 2017 - 02:00

Já li todos, uma das melhores hq’s e um dos melhores personagens, cada arco é um tapa de qualidade.

Responder
Luiz Santiago 29 de abril de 2017 - 14:35

Verdade. É cada história tão criativa, tão bem escrita e ilustrada que a gente nem acredita. Que fase sensacional essa do herói pelas mãos do Moore!

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais