Crítica | A Senhora da Van

“Sr. Bennett, esses homens que saem de madrugada. Eu sei quem eles são.
Oh, Jesus.
Eles são comunistas!”

O que move uma pessoa a ser quem ela mostra ser hoje, possivelmente grosseira e complicada? Quais são as verdades sobre esses seres humanos, sobre nós mesmos, quando um imenso tempo já as separam, no passado, do agora? Uma origem incerta nos apresenta à personagem central, mas não a protagonista realmente, de A Senhora da Van, uma comédia amena que contém traços pontuais de acidez e provocação. O protagonista será um apoio à compreensão dessa mulher. O que é pensar a velhice, senão explorar um mundo anterior subjacente e às vezes omisso, também experiências passadas e nostalgias que se encontram em meio ao começo de uma vida e àquela etapa que já é o seu fim.  Todos merecem um terceiro ato, até mesmo quem crê que não necessite.

Essa resolução em questão, no caso, é para a Sra. Sheperd (Maggie Smith), personagem que será investigada pelo protagonista, querendo saber mais sobre o seu passado para conseguir usar as informações em uma possível escrita sua – o que torna-se uma realidade metalinguística. Por meio de prévias situações e que ainda são desconhecidas, margeia-se, quase que invariavelmente, uma trajetória de retomada do que aconteceu. Amarram-se, portanto, as pontas soltas de uma costura que chama-se vida. Com a gigantesca artista que possui para viver essa semi-caricatura, A Senhora da Van poderia, assim sendo, originar um grandioso ato que encerrasse com chave de ouro uma trajetória revista sobre os olhos detetivescos de um escritor, que narra sua crise artística.

Nicholas Hytner, conhecido por já ter adaptado inúmeras vezes as obras de Alan Bennett, agora contará uma das histórias mais interessantes do autor, que desponta como o próprio protagonista desse longa-metragem. Interpretado por Alex Jennings, Alan Bennett reconta sua experiência – inspirada em acontecimentos reais – com uma personalidade curiosa, sem residência ou parentes, mas possuidora de uma van. A prestigiada Dama Maggie Smith – conhecida por interpretar a Professora Minerva McGonagall na série Harry Potter – encarna essa personagem, que vive no interior de sua exótica morada, apenas mudando de calçada e/ou de garagem. Essa é uma senhora ríspida e mal-humorada com um passado entristecido que só será descoberto aos poucos.

O protagonista, contudo, é esse escritor de meia-idade vivendo a sua solidão deprimente – e traçando uma jornada própria sem qualquer ritmo, que Nicholas Hytner não consegue intercalar bem entre a revisita ao passado da Senhora da Van. Alex Jennings, para ser sincero, é minimizado perante a interpretação de Maggie Smith, mais carismática, apesar de interpretar uma personagem com uma personalidade árdua de encarar com simpatia. Já Alan Bennett é um homem simplesmente apático e que não parece estar vivenciando um desenvolvimento. Uma pena que, consequentemente, a narrativa não se desenvolva com organicidade, permanecendo com as meras redundâncias que conseguem agradar enquanto unidades, no entanto, não em um conjunto.

O longa-metragem mais parece ser um conjunto de cenas em que essa senhora causa graça, espanto e curiosidade – comandadas por uma deslumbrante Maggie Smith -, que uma obra harmoniosa tematicamente, narrativamente e dramaticamente. O que levaria uma pessoa a deixar uma completa desconhecida morar 15 anos na entrada da sua casa? Essa é uma premissa que não assume o peso dramático principiado. Pois é extremamente cansativo o olhar externo, sem muita uniformidade, conduzido a Sheperd, mesmo que o começo aponte para um protagonismo seu, por meio de um flashback solto. As cores vivas e uma fotografia leve, que agracia qualquer rispidez mais antipática da sua protagonista, não sustentam uma obra sem muita coesão num todo.

O que permanece nos nossos corações, em contrapartida, é uma sacada graciosa que a conclusão apresenta, munindo a dramédia com ares mais fantásticos. É, curiosamente, a única justificativa, em termos de identidade e execução, para a liberdade poética em que o protagonista possui um duplo seu, ideia que visa pensar o alter-ego de um escritor. Igualmente marca o momento em que essa senhora, também tão marcante, atravessa uma rua em sua cadeirinha de rodas, momentaneamente alegre. Maggie Smith é sincera, enquanto o longa não. Uma cena tão livre, mas que poderia fazer parte de um filme menos insosso, embora seja pontualmente belo. O projeto conquista corações, mas é um caso em que não existe muita razão para essa questão da emoção.

A Senhora da Van (The Lady in the Van) – Reino Unido, 2015
Direção: Nicholas Hytner
Roteiro: Alan Bennett
Elenco: Maggie Smith, Alex Jennings, Frances de la Tour, Gwen Taylor, Dominic Cooper, James Corden, Roger Allam, Samuel Anderson, Dermot Crowley, Jim Broadbent
Duração: 104 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.