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Crítica | A Sereia (1904)

Uma versão do mito pelas lentes do cinema mágico de Mélies.

por Leonardo Campos
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Interesse das artes da era da reprodutibilidade técnica, as sereias são criaturas mitológicas que estão presentes na cultura cinematográfica desde os primeiros ensaios do que se convencionou a chamar de sétima arte. Em 1904, o mágico George Mélies produziu e exibiu A Sereia, curta que perdeu as suas versões colorizadas ao longo do tempo, mas ainda pode ser encontrado em sua versão mais básica, em preto e branco, com algumas limitações por causa da conservação, mas possível de ser contemplado enquanto material de pesquisa histórica. Em seus quase 04 minutos, acompanhamos a história de uma sereia em seu processo de transformação em humana, com um protagonista mágico que chega ao palco de seu espetáculo fumando um cigarro e se apresenta ao público, para depois, iniciar o processo de mudança do ser mitológico que faz parte de um cenário teatral devidamente retomado por Martin Scorsese em sua homenagem metalinguística ao período no nostálgico A Invenção de Hugo Cabret, um mergulho do cineasta contemporâneo na mágica era dos truques narrativos de uma linguagem ainda embrionária, latente em sua expansão.

Em seu esquema de realização, Mélies mexiam com sobreposição de fotografias, inserção de planos múltiplos em busca da profundidade de campo ideal, utilização de esculturas e outros mecanismos que fazem jus ao título de sétima arte dado ao cinema no manifesto futurista do italiano Ricciotto Canudo, isto é, uma modalidade que flerta com a literatura e sua construção de narrativas e personagens, o teatro e a representação, a musicalidade que acompanhava as exibições numa era ainda prévia ao som sincronizado, dentre outros traços de volume e simetria que abrangem a escultura, a arquitetura e a pintura, esta última, base para a evolução das câmeras e seus respectivos eixos de captação de imagem. Com A Sereia, a perspectiva mitológica ganha um olhar básico, numa produção que hoje nos ajuda a compreender melhor os mecanismos que engendravam as bases da linguagem cinematográfica, ressonante na arte de Mélies, um artista que colaborou bastante com a formação da gramática audiovisual, mas morreu sem o devido reconhecimento em torno de suas produções grandiosas e sofisticadas para a época, prévia ao processo de industrialização do cinema tal como conhecemos hoje.

Na seara estética, o que podemos vislumbrar em A Sereia é um painel de características desta fase tão peculiar do cinema: o espaço cenográfico era bastante simples e teatral, com deslocamento dos atores geralmente pelas laterais, perspectiva que acentuava a sensação de platitude (monotonia) e de teatralidade do espetáculo. Nesta época, devido ao peso e pela ausência de maior conhecimento da linguagem que se experimentava, a câmera ficava estática, de modo a mostrar o corpo inteiro de um conjunto de pessoas. Assim, era realizadas panorâmicas apenas para reenquadrar certas ações mais movimentadas, esquemas que segundo o historiador Andre Gaudrecult, é parte do que nas origens do cinema, tinha-se como mostração e a narração. A mostração envolvia a cena indireta de fatos, ao passo que a narração envolvia a manipulação desses acontecimentos pela atividade constante do narrador. Podemos encontrar estes detalhes ao assistir A Sereia, complementados pela leitura do elucidativo capítulo sobre o Cinema Mudo, hoje chamado de Não Sonoro, parte integrante da coletânea História do Cinema Mundial, conteúdo acadêmico de perspectiva histórica abrangente, organizada por Fernão Mascarello.

É neste mesmo material que encontramos a opinião do historiador Tom Gumming como citação, especialista que contribui com os estudos da história do cinema ao comprovar através de suas pesquisas que o primeiro cinema, nomenclatura mais adequada para esta primeira fase do cinema, tinha uma maneira particular de se dirigir ao espectador, apoiando-se no exibicionismo, tal como George Mélies faz no desenvolvimento do curioso A Sereia. Não havia habilidades técnicas para contar histórias, mas sim, chamar atenção do espectador de forma direta e invasiva. O narrar da maneira clássica que conhecemos seria algo para mais adiante, formulação da linguagem que ainda passaria por diversas evoluções, desde o encontro com o videoclipe e a televisão, ao processo de interação com a cibercultura, tônica dos esquemas de realização na seara do entretenimento atual. Quem se dedica aos pouco mais de quatro minutos deste curta impressionante para a época, observará como Mélies contribui com a história dos efeitos visuais e especiais, além das estratégias de montagem que no futuro, ganhariam roupagem mais abrangente em prol do cinema narrativo tal qual conhecemos hoje.

A Sereia (La Sirène) — França, 1904
Direção: Georges Méliès
Roteiro: Georges Méliès
Elenco: Georges Méliès
Duração: 4 min.

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