Crítica | A Sétima Alma

Antes do desfecho de sua carreira cinematográfica com eficiente desempenho narrativo de Pânico 4, o cineasta Wes Craven investiu numa nova mitologia do horror: o Estripador de Riverton. Foi algo que tal como Shocker, não vingou. A ideia na época era um novo rumo depois da saturação de Freddy Krueger no final dos anos 1980. Com A Sétima Alma, não sabemos exatamente se a reinvenção era a sua proposta, mas o resultado não chega nem perto de seus antagonistas, protagonistas e enredos anteriores. Depois de Voo Noturno, um suspense bem conduzido, Craven comprovou algo que já estava estabelecido: a sua capacidade de construir atmosferas assustadoras e dar dinâmica dentro de algo que na superfície, parece uma discussão simples.

A sua última autoria tinha sido O Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy Krueger, em 1994, exercício metalinguístico de primeira linha. Lançado em 2010, o filme sobre o horror que acomete os moradores de Riverton é o retorno do cineasta ao posto de roteirista original depois de um longo tempo sem escrever. Na produção, Abel (Raul Esparza) é um psicopata perturbador que aparentemente esconde dentro de si múltiplas personalidades. Ele desconfia também de que há algo demoníaco que o domina, numa confusão de sensações. A história se torna lenda pouco mais de quinze anos depois do agitado prólogo.

Há um acidente depois que ele assina uma chacina e não sabemos exatamente se está morto, pois o corpo não aparece para estabelecimento das respostas exatas. Na noite desses acontecimentos, sete crianças nascem na cidade. É possível que um deles tenha sido repositório da alma má de Abel. Mas quem será? Esse é o jogo do filme, repleto de tantas pistas falsas que ao desmascararmos a realidade no desfecho, aparentemente não nos importamos mais. O estilo Wes Craven a que nos habituamos parece encontrar aqui apenas a reciclagem de fórmulas que ainda dão certo, mas que precisam ser muito bem trabalhadas, afinal, já foram estratégias em numerosas produções de horror.

O foco da história, anos depois, recai sobre Adam Heller (Max Thieriot), adolescente confuso que não sabe as histórias que envolvem seu passado sombrio. Ele deveria ter morrido na noite de fúria de Abel, mas sobreviveu graças ao apoio de uma enfermeira. Na escola, vive um verdadeiro inferno, algo típico de produções com personagens nesta faixa etária. Temos o nerd criativo, o atleta que é apenas um arsenal de músculos, mas idiota e cretino. Há também a mocinha loira que acreditamos ser uma possível final girl, a fanática religiosa, a gótica vadia que fala palavrões demais, em suma, os estereótipos básicos que deveriam ser identificação, mas não funcionam desta vez.

Desafiados pelo clima de horror que circunda a lenda, isto é, a promessa de Abel acerca do seu efetivo retorno para vingança, os jovens em A Sétima Alma precisam sobreviver ao vilão sem personalidade, bem como ao argumento óbvio do filme. Conferido alguns anos após a primeira sessão em dezembro de 2010, a produção de Wes Craven continua ruim. Não há possibilidade de defesa quando o que encontramos é um festival de cenas recicladas e história cheia de confusões que não representam complexidade alguma. Visto quase uma década depois, meu veredicto é ainda pior que o primeiro diagnóstico: o estripador de Riverton e sua história representam uma das piores coisas realizadas pelo cineasta que sabemos, esbanjava competência, algo que não acontece neste filme de terror equivocado.

Os personagens tentam ser explicados pelo roteiro, mas são ruins. A base dramática frágil impede que nos importemos com seus destinos, o que anula por total a catarse. A força do vilão é diminuída pelos enquadramentos que nos impede de conhece-lo e assim, teme-lo. Os diálogos, ao explicarem demasiadamente a história, sem permitir interpretação. Outro problema é o excesso de cenas que não levam o filme a nada. Não narram ou acrescentam conteúdo para a história, num conjunto de imagens que parece apenas cumprir o requisito do tempo de duração programado pela produção.

Para compreender melhor a narrativa, torna-se necessário seguir para as suas especificidades estéticas. Marco Beltrami assumiu, mais uma vez, a trilha sonora do “selo Wes Craven”. Exagerada e incomoda, a condução musical é um trabalho menor do compositor. O problema não está exatamente na trilha em si, mas na execução no bojo do filme, gritante demais e intrusiva. Falha da direção e da montagem, cabe ressaltar. Para não dizer que a parte sonora do filme é mediana em sua totalidade, destaco o design de som da voz do “monstro”, um trabalho inquietante e eficiente, capaz de nos remeter ao sádico tom de Ghostface. Petra Korner assumiu a direção de fotografia, responsável por criar as sequencias de assassinatos off-screen, picotadas pela edição de Peter McNulty, outro “errante”, provavelmente seguindo os comandos dos produtores.

Adam Stockhausen, gerenciador do design de produção, assina um trabalho pouco expressivo, provavelmente sem grande inspiração por conta do maior problema de A Sétima Alma: o roteiro. O texto de Craven é cheio de momentos com os famosos sustos diante dos embaraçosos sustos no espelho, algo que já não funcionava tanto quanto na época de O Mistério de Candyman. As perseguições em matas e zonas desertas, quando bem trabalhadas, geralmente dão certo, o que não é o caso aqui, tampouco a dinâmica escolar batida, tema que poderia ganhar uma roupagem melhor por parte do cineasta que tal como sabemos, era capaz de reinventar-se constantemente.

Ademais, perdoemos o próximo, por favor, afinal, alguém que entregou Aniversário Macabro, Quadrilha de Sádicos, A Hora do Pesadelo e Pânico merece ser desculpado por falhar. Não dizem por aí que ninguém é perfeito? Pois é, A Sétima Alma é a prova cinematográfica disso. Há uma cena interessante, numa sala de aula, com uma estudante a olhar para o lado externo e sob o plano subjetivo, emular a clássica cena de Michael Myers e Laurie Strode em Halloween – A Noite do Terror, além de uma rápida referência ao clássico Os Pássaros. No ano seguinte, Wes Craven nos brindou com Pânico 4, último filme de sua jornada, haja vista a morte por câncer no cérebro em 2015.

A Sétima Alma (My Soul To Take/Estados Unidos, 2010)
Direção: Wes Craven
Roteiro: Wes Craven
Elenco:Max Thieriot, Danai Gurira, Denzel Whitaker, Emily Meade, Frank Grillo, Jeremy Chu, Jessica Hecht, John Magaro, Nick Lashaway, Paulina Olszynski, Raúl Esparza, Zena Grey
Duração: 107 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.