Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | A Síndrome de Berlim

Crítica | A Síndrome de Berlim

por Davi Lima
572 views (a partir de agosto de 2020)

A diretora Cate Shortland demonstra como é meticulosa ao dirigir o longa A Síndrome de Berlim, ao mesmo tempo que parece querer desfilar a imagem como narrativa para dizer algo mais que suas escolhas com a direção de fotografia de Germain McMicking. Com o tema sensível sobre opressão feminina no ambiente urbano e a percepção de uma fotógrafa que vê além, como a protagonista interpretada por Teresa Palmer demonstra ser, essa passarela inicialmente casa bastante com os óculos introduzidos por meio da personagem. Porém, mesmo com essa relação sintomática com a história da protagonista, seja em sua personalidade de admirar o ordinário, ou por ela ser sequestrada e queira enxergar algo além de sua prisão emocional e física, parece também que há tomada de conclusões precipitadas por parte da diretora. Aparenta-se uma proposta objetiva de “um novamente” de conteúdo sem prenúncio de recorrência na forma, não formando uma desconfiança sensorial de medo empático pela personagem, apenas, e sim desconfiança, também, da interpretação do espectador, do que realmente ela, a diretora, consegue imprimir no suspense/drama elaborado no slow motion e se pode captar por quem assiste.

Junto com a promoção de um campo sensível estabelecido em cada plano gravado , assim como a diretora fez muito bem em Lore, sem dúvida há de se elogiar a encenação de Teresa Palmer como a personagem Clare Havel, além de toda a sonoridade captada pela edição de som que vai rodeando os movimentos da atriz. Não é um filme necessariamente sobre evolução dramática, ou de superação diante de um sequestro abominável que o personagem Andi Werner (Max Riemelt) faz com Clare, até porque o tal trauma no filme vai só se reafirmando em suas minúcias. Então é de se admirar como a atriz parece conseguir se manter num mesmo ritmo que a obra se porta. É uma compreensão muito boa da noção da diretora preservar nela uma visão diferente das coisas, mesmo quando o ambiente e o contexto seja continuamente doloroso no mesmo tom.

O que torna difícil é quando essa visão da personagem é transposta para a linguagem geral do filme. A violência é sonora ou sugestiva, criando suspense, ao mesmo tempo que se suspende cenas na câmera lenta com um efeito dramático, mas também de suspense, e as vezes isso parece poético. Talvez seja o grande trunfo e a grande ironia que tal forma para abordar o conteúdo de aprisionamento mental, estrutural e físico seja uma mistura muito estranha de contextos de sequestro,  levando a diretora a não apenas empenhar a entender o psicopata para entender melhor a personagem Clare, como tomar decisões mais claras na finalização, numa tomada cíclica para ambos os personagens.  De fato, é uma compreensão de como a diretora tem muito mais cuidado e tomada do filme do que se imagina, como se mapeasse completamente quaisquer movimentos e sentimentos envolvidos no campo sensorial reforçado em A Síndrome de Berlim.

Entretanto, existe tanto preparo detalhista para exemplificar a perturbação do vilão do filme que fica antagônico num processo criativo de sensibilizar a visão da protagonista para a unidade do longa. Ao mesmo tempo, incita-se momentos repetidos, como é possível numa síndrome de Estocolmo que o filme busca abordar, tenta-se “psicologizar” com a imagem, desenhar uma explicação verbal, uma imagética e uma ação fora do realidade comportável da obra para finalizações de todas as pontas semi-fechadas da narrativa em seu exercício psicológico e subjetivo. Ou seja, por mais que a diretora firme-se bastante no controle da forma que conta sua história, essa mesma forma cria uma possível insegurança em deslocar a imagem para Clare ou Andi e mediar com o espectador os sentimentos que se quer efetivar na experiência de se assistir.

Desde o som da cadeira que parece sexualizado, da câmera fotográfica aos objetos metálicos, a diretora fomenta o suspense e o terror contextual que define bem a tal Síndrome de Berlim que indica o título. Nisso a experiência com o longa é bem claro e desenvolve bem seu campo e terreno de sentidos com o espectador. Porém, há um processo aliviante para a tal insegurança citada que tenta trazer uma estranheza bem interpretada para que a diretora não percorra por ambiguidades com seu tema complicado, limitando a própria formalização cinematográfica que tanto tateia bem o corpo feminino e a opressão que o sequestro quer expressar para dinâmicas mais amplas quanto a liberdade feminina. Infelizmente isso não alcança o próprio universo criado com a fotografia. Parece à parte, ecoando como uma resistência inócua na trama. Complica-se ter uma ideia única em um projeto que almeja tanto um visual subjetivo, porém se mostra tentar ser mais objetivo sem saber como. Essa é a complicação quando se quer um drama da inocente encaixada no suspense sagaz, quando a raiz é bem mais profunda que a película pode perder, por mais insistente que a câmera possa ser em captar.

A Síndrome de Berlim (Berlin Syndrome) – Australia, 2017
Direção: Cate Shortland
Roteiro: Shaun Grant, Cate Shortland (baseado no livro homônimo de Melanie Joosten)
Elenco: Teresa Palmer, Max Riemelt, Matthias Habich, Emma Bading, Lucie Aron, Malin Steffen, Thuso Lekwape, Morgane Ferru
Duração: 116 minutos

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais