Crítica | A Súbita Riqueza dos Pobres de Kombach

estrelas 4

Volker Schlöndorff é mais conhecido por seu filme O Tambor (1979), aclamada obra alemã sobre a Segunda Guerra Mundial vista de uma perspetiva pouco utilizada no cinema.

Schlöndorff iniciou sua carreira no cinema 1960, com o curta-metragem Quem Se Importa?. Seis anos depois ele lançava o primeiro longa, O Jovem Törless, filme que receberia o FIPRESCI no Festival de Cannes, além da indicação à Palma de Ouro.

Em 1971, o diretor se casou com a atriz Margarethe von Trotta, que seria sua parceira também no cinema pelos próximos anos. A Súbita Riqueza dos Pobres de Kombach foi primeira experiência de von Trotta em um setor que não fosse a atuação. Ela escreveu o roteiro ao lado do marido, com quem também dirigiria o seu primeiro filme em 1975, A Honra Perdida de Katharina Blum.

A Súbita Riqueza é um drama histórico e farsesco sobre um caso ocorrido na Alemanha em 1822. Histórico, porque recria a situação de servidão nos antigos reinos germânicos, o cotidiano dos camponeses e o sonho dourado da América, sendo os Estados Unidos um país-fetiche na mentalidade dos pobres, que imaginavam a terra do Tio Sam um verdadeiro Paraíso na Terra. Farsesco, porque brinca com as emoções dos camponeses envolvidos em um certo ato criminoso, aponta falhas no sistema social de um modo cínico e usa de uma propícia liberdade estética para trazer a subjetividade à atmosfera do filme, intenção que se cumpre através da trilha sonora plural e bem utilizada.

Algumas constantes morais fazem parte de toda a narrativa, e isso dita praticamente todo o comportamento das personagens principais. A religião é o mais forte e árduo desses pontos. O grupo de lavradores miseráveis que tentam (e depois de várias vezes, conseguem) roubar a carruagem que transportava dinheiro para o Estado de Hesse torna-se entregue à penitência, transmutando-se em luteranos arrependidos, de certa forma gratos por serem punidos de seu terrível pecado – exceto um dos indivíduos do grupo, inconformado com a prisão.

Schlöndorff nos apresenta uma eficiente e sutil crítica à sociedade alemã e ao seu sistema jurídico do século XIX, que na verdade é uma representação espelhada das mutações legislativas, crimes impunes de seu país, além, é claro, das dificuldades extremas pelas quais passavam a população campesina alemã após a Guerra. O pior é que parte desses abusos de poder e investigações arbitrárias acontecem até hoje, em diversas partes do mundo.

As várias tentativas que o grupo realiza até conseguir efetuar o crime é uma abertura cômica interessante, preenchendo toda a primeira parte do filme e mostrando como desventura cínica o núcleo para o roubo. Nem o crime é permitido aos pobres acertar, e quando isso acontece, a ação imediata é afastar os criminosos da sociedade. Mediante um julgamento pouco imparcial e com um desfecho patético, pelo menos na sequência da prisão – me lembrou um pouco, e guardadas as devidas proporções, a parte final de Os Inconfidentes -, os pobres de Kombach servem como exemplo para que o roubo não se repita, o dinheiro continue seguindo para o casamento da princesa, e a população… bem, à população, nada.

A Súbita Riqueza dos Pobres de Kombach é um filme esteticamente livre de amarras estéticas – lembremos que ele está inserido no contexto do Cinema Novo Alemão – e impiedoso em apontar a fome, a pobreza, os que a vivem e quem os mantém.

A Súbita Riqueza dos Pobres de Kombach (Der plötzliche Reichtum der armen Leute von Kombach) – Alemanha Ocidental, 1971
Direção: Volker Schlöndorff
Roteiro: Volker Schlöndorff, Margarethe von Trotta
Elenco: Georg Lehn, Reinhard Hauff, Karl-Josef Cramer, Wolfgang Bächler, Harald Müller, Margarethe von Trotta, Rainer Werner Fassbinder, Joe Hembus, Walter Buschhoff, Maria Donnerstag, Angelika Hillebrecht, Harry Owen, Wilhelm Grasshoff, Eva Pampuch
Duração: 102 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.