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Crítica | A Taberna do Inferno

Rocky, só que de época e sobre luta livre.

por Ritter Fan
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O primeiro roteiro que Sylvester Stallone escreveu levou à produção e lançamento de Rocky: Um Lutador, filme que concorreu a 10 Oscar, inclusive os de Melhor Roteiro e de Ator para ele, e que ganhou os de Melhor Filme, Diretor e Montagem. Era perfeitamente natural, então, que o ex-Garanhão Italiano tenha se sentido confiante para não só escrever um segundo roteiro para ele estrelar, como também para ele dirigir e, de quebra, cantar (o horror! o horror!) a música tema mais uma vez composta por Bill Conti. Se descontarmos F.I.S.T., também de 1978, que ele somente não dirigiu (nem cantou), o resultado de seus esforços foi A Taberna do Inferno, um filme de época passado em Nova York logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, que tem mais do que óbvios paralelos com seu Rocky.

Na verdade, talvez seja o contrário, com Rocky tendo paralelos com A Taberna do Inferno, pois, segundo Stallone, ele havia escrito o filme primeiro como um romance(!!!) e, depois, como roteiro, mas tudo antes de ele entrar no ringue contra Apollo Creed. Mas eu divago, pois, apesar de, tecnicamente, o longa de 1978 ser um filme sobre luta livre e daí suas conexões com a saga do boxeador ítalo-americano, o caminho do roteiro e da direção para chegar ao ponto em que o espectador possa chegar a essa conclusão é mais do que tortuoso, beirando o confuso e o perdido em termos do que exatamente Stallone queria dizer com sua criação.

Afinal, o coração da história é a conexão umbilical entre os irmãos Carboni: Lenny (Armand Assante), um agente funerário que se alistou para lutar na guerra e voltou com um ferimento na perna que o faz mancar e o obriga a usar bengala, deixando-o amargo, Cosmo (Stallone), um sujeito que faz de tudo para ganhar dinheiro, menos trabalhar e que não para de dar em cima da ex-namorada de Lenny, e Victor (Lee Canalito), um vendedor de gelo que é o maior, mais forte e mais doente da cabeça dos três que namora uma jovem chinesa e que deseja mais do que tudo na vida juntar dinheiro para morar com ela em um barco. O roteiro dedica muito tempo aos três, sempre unidos ao redor dos esquemas de Cosmo para conseguir uns trocados aqui e ali, seja apostando corrida pelos telhados da Cozinha do Inferno, seja apostando dinheiro que ele não tem para ganhar um macaco de forma que ele possa usá-lo como em um realejo.

Essa conexão familial entre irmãos é até muito bem construída, com Stallone sendo esperto o suficiente para subverter as expectativas e entregar o papel de fortão lutador para Canalito que, graças a Cosmo e, depois, a um Lenny revivido e transformado em um atravessador, começa a participar de lutas livres (mas não do tipo ensaiado, hoje tão comum). A exploração de Lenny, que primeiro começa com Cosmo de maneira razoavelmente benigna, logo muda para algo mais constantemente e difícil por Lenny, que basicamente troca de lugar com Cosmo que, por sua vez, passa a enxergar o que os dois estão fazendo com o irmão mais novo deles.

No entanto, como mencionei, até o filme chegar no ponto das lutas, ele atira para todos os lados, sem algum tipo de foco que permita que o espectador tenha clareza do caminho que a narrativa seguirá. Apesar de Assante, Stallone e Canalito terem um bom rapport; apesar de a presença de Anne Archer como Annie O’Sherlock, ex de Lenny e interesse amoroso de Cosmo, ser encantadora e apesar da cirurgicamente eficiente reconstrução de época, o longa carece de coesão, carece de um ponto principal a ser explorado de maneira realmente completa, que não seja uma mera repetição – talvez de forma mais aguda, reconheço – dos conflitos fraternais entre os Carboni. É quase como se Stallone tivesse criado dois filmes, um que é um drama sobre uma família disfuncional que vive em um barraco cheio de ratos e baratas e outro que é um drama esportivo, com o primeiro sendo mais interessante que o segundo, mesmo que a longa sequência climática seja visualmente interessante por ser uma luta em um ringue debaixo de chuva.

Stallone nunca realmente conseguiu dirigir um grande filme – seu melhor trabalho nessa cadeira, para mim, é Rocky IV só para vocês sentirem o drama – e A Taberna do Inferno não foi exatamente um bom começo, ainda que não seja uma obra descartável. Com um pouco mais de cuidado, menos mistura de gêneros e uma abordagem mais completa sobre a troca de papeis entre Lenny e Cosmo, o longa poderia ter sido muito interessante. Do jeito que ficou, é apenas uma curiosidade na carreira do futuro Rambo.

A Taberna do Inferno (Paradise Alley – EUA, 1978)
Direção: Sylvester Stallone
Roteiro: Sylvester Stallone
Elenco: Sylvester Stallone, Armand Assante, Lee Canalito, Anne Archer, Kevin Conway, Terry Funk, Frank McRae, Joe Spinell, Tom Waits, Aimee Eccles, Joyce Ingalls, John Cherry Monks, Jr., Frank Stallone, Ted DiBiase
Duração: 109 min.

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