Crítica | A Tempestade (1928)

A TEMPESTADE 1928 PLANO CRITICO

A produção de A Tempestade, drama histórico lançado em 1928 fez jus ao título da obra, sendo um daqueles projetos que tinha tudo para dar errado, devido aos diversos problemas de bastidores. Não foram poucos os problemas que o filme enfrentou durante a sua pré-produção, com diversos roteiristas e diretores se ligando ao longa metragem para depois abandoná-lo, o que não acabou durante as filmagens, quando três diretores passaram pela cadeira, embora somente Sam Taylor tenha ficado com os créditos no filme. Para piorar a situação, também houveram problemas para encontrar a protagonista feminina da obra, com atrizes abandonando as filmagens, atrasando o processo devido a refilmagens, até que finalmente Camilla Horn ficasse definitivamente com o papel. Apesar de todos estes problemas de produção, A Tempestade conseguiu ser um filme relativamente bem sucedido, embora como esperado, apresente problemas de identidade.

Na trama situada na Rússia Czarista, o Sargento camponês Ivan Markov (John Barrymore) sonha em ser um oficial de alta patente. Quando está prestes a alcançar o seu sonho, Ivan se apaixona pela Princesa Tamara (Camilla Horn), provocando uma série de eventos que o conduzem á desgraça e ao ódio pela aristocracia. A situação piora quando a I Guerra Mundial explode, ao mesmo tempo em que a Revolução Russa torna-se algo inevitável.

Devo começar ressaltando as grandes qualidades técnicas de A Tempestade, que apresentam um filme visualmente muito agradável. A fotografia de Charles Rosher funciona como um espectro visual perfeito para as emoções transmitidas pelas cenas. A direção de Arte do lendário William Cameron Menzies traz cenários igualmente deslumbrantes e opressores, em um trabalho que lhe rendeu o Oscar, na primeira cerimônia da história. Os figurinos também se afinam perfeitamente com a jornada dramáticas de seus personagens. Ivan começa o filme usando trajes militares brancos, mas passa a utilizar trajes mais cinzentos à medida que sua vida vai se tornando mais sombria, até o ponto em que utiliza vestes completamente negras, em um momento em que se vê tomado de ódio e ressentimento. Da mesma forma, a princesa Tamara começa o filme com roupas suntuosas, que vão se tornando mais simples ao longo da projeção, retratando assim uma aproximação da aristocrata do mundo plebeu habitado por Ivan.

John Barrymore está muito bem à frente do elenco, entregando um protagonista relativamente complexo para os padrões da época. O ator consegue transitar com competência e organicidade os momentos mais leves do seu personagem, especialmente na metade inicial do filme, com os momentos mais sombrios, como o seu mergulho na loucura, quando é isolado na prisão e sua entrega ao rancor nos trechos passados durante a Revolução. Louis Wolheim também merece destaque por sua interpretação como Bulba, o melhor amigo de Ivan, que consegue desempenhar o papel de alívio cômico da obra de forma honesta, sem parecer caricato, nos fazendo crer na forte amizade existente entre os dois homens.

Mas nem todos os papéis funcionam como deveriam. Embora exista uma jornada dramática clara para a Princesa Tamara, o roteiro não explora tal jornada como deveria, de modo que Camilla Horn não tem muito que fazer. O capitão vivido por Ullrich Haupt até funciona como vilão, já que é um militar aristocrata que sente ciúmes de Ivan com a princesa, que é sua noiva. Mas o vilão também se mostra uma caricatura que não envelheceu muito bem, com direito a bigodinho torcido e monóculo.

O grande problema de A Tempestade, entretanto, reside em um roteiro e uma direção irregular. Podemos citar como maior exemplo, a forma como o texto e a direção tratam o personagem do pedinte (Boris De Fast) que passa a maior parte do tempo tentando recrutar Ivan para a causa revolucionária. O personagem surge sempre de forma mefistofélica, como um verdadeiro demônio buscando tentar o protagonista. Mas a forma como o pedinte é colocado em cena, sempre surgindo absolutamente do nada (juro que esperei ele sair de dentro de um baú, ou algo assim, em algum momento) acaba dando ao personagem um ar involuntariamente cômico. Isso acaba não combinando com a forma como ele é tratado ao longo da obra, especialmente no 3º ato, quando a revolução torna-se mais sangrenta.

Outro problema da obra é como as elipses parecem ser mal gerenciadas, não dando ao público uma boa compreensão das passagens de tempo. O maior exemplo ocorre quando Ivan é abandonado na prisão durante a I Guerra Mundial, sendo libertado somente quando estoura a Revolução Russa. Entretanto, mesmo que historicamente a Revolução tenha sido um fruto do conflito global, ela surge no filme de forma muito abrupta, não nos dando uma noção real de quanto tempo Ivan foi deixado na solitária. Sendo um filme de quase duas horas, creio que havia tempo para deixar algumas elipses mais bem desenhadas, o que acaba não ocorrendo.

Apesar destas escorregadas, A Tempestade ainda é um filme interessante de ser assistido. Temos uma grande atuação de John Barrymore, um trabalho de fotografia e direção de arte deslumbrantes. A história pode estar á anos luz de ser original, mas ainda é relativamente bem contada, sendo capaz de cativar o público.

A Tempestade (The Tempest), Estados Unidos. 1928.
Direção: Sam Taylor, Lewis Milstone (Não Creditado), Viktor Tourjansky (não creditado).
Roteiro: C. Gardner Sullivan, George Marion JR, Lewis Milstone (Não Creditado), Erich Von Stroheim (Não Creditado).
Elenco: John Barrymore, Camilla Horn, Louis Wolheim, Boris De Fast, George Fawcett, Ullrich Raupt, Michael Visaroff.
Duração: 110 Minutos.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.