Home TVMinisséries Crítica | A Tempestade do Século (1999)

Crítica | A Tempestade do Século (1999)

por Rafael Lima
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Stephen King contou certa vez em entrevista que ele foi definido por um editor como um escritor que tem um “projetor na cabeça”, devido à sua prosa visual. O autor nunca escondeu o seu amor pelo audiovisual, tendo escrito alguns roteiros das adaptações cinematográficas de seus livros, trabalhado com George A. Romero na antologia Cult Creepshow, e até arriscando-se na direção no desastroso Comboio do Terror.

Nos anos 90, o autor voltou os seus olhos para a televisão. Ele tentou criar uma série (Anos Dourados, que acabou reduzida a minissérie) e adaptou dois de seus romances para o formato de minissérie para a ABC, A Dança da Morte e O Iluminado, com resultados que foram de mistos a medíocres. King nunca mostrou a mesma habilidade nos roteiros que demonstra na prosa literária, excetuando o seu trabalho na excelente minissérie A Tempestade do Século, escrita diretamente para a TV, e exibida pela ABC.

Na trama situada em 1989, a Ilha de Little Tall (mesmo cenário de Eclipse Total) se prepara para enfrentar a pior tempestade de inverno de sua história. Ao mesmo tempo, um misterioso homem chamado Andre Linoge chega à ilha, mata a mulher mais velha da cidade a golpes de bengala e senta-se confortavelmente esperando a chegada da polícia. Com a ilha isolada e sem comunicação, o xerife Mike Anderson prende Linoge, que antes de ser levado para a sua cela faz uma única declaração “Me deem o que eu quero, e eu vou embora”. Esse é o começo de um pesadelo para toda a ilha de Little Tall, quando Linoge revela não só conhecer os segredos e medos mais profundos de cada cidadão, mas também se mostra capaz de provocar uma onda de mortes sangrentas de forma sobrenatural. Os ilhéus agora precisam encontrar uma forma de sobreviver à tempestade e a Linoge, enquanto tentam descobrir quais são os objetivos deste homem diabólico.

Aqueles que conhecem a obra de King vão identificar em A Tempestade do Século a fórmula típica do autor, onde uma pequena cidade tem o pior lado de sua natureza exposto por um ser sobrenatural que toca o terror na região. Essa fórmula sempre deu certo na literatura, pois permitia ao autor transformar essas pequenas cidades em verdadeiros personagens dentro da narrativa, explorando os dramas e pecados dos cidadãos, mesmo que de forma passageira para enriquecer o universo das obras. Nas adaptações audiovisuais da bibliografia do autor, entretanto, esse recurso nunca pareceu funcionar tão bem, mas em A Tempestade do Século funciona maravilhosamente.

Ao longo de seus três episódios (de aproximadamente 90 minutos cada) o roteiro de King nos apresenta o forte senso de comunidade existente em Little Tall, mas também mostra como esse mesmo senso de comunidade é distorcido para algo extremamente sombrio, que pode servir apenas para ocultar desejos e atos mesquinhos, individualistas e mesmo criminosos dos habitantes da ilha. Uma das grandes sacadas da minissérie, é que à medida em que os jogos mentais de Linoge vão se tornando mais violentos e perturbadores, mais os cidadãos vão se tornando dispostos a dar o que ele quer, mesmo que não façam ideia do que seja.

Colm Feore como Andre Linoge entrega uma atuação brilhante, apresentando um vilão enigmático e memorável. O que mais assusta em Linoge não são as habilidades sobrenaturais que possui, e sim o fato de conhecer os segredos e pecados de suas vítimas. O vilão se diverte com o medo dos ilhéus e claramente saboreia as infrutíferas tentativas do povo de Little Tall em desvendar o enigma por trás da frase recorrente “Me deem o que eu quero e eu vou embora”. É principalmente a atuação de Feore que nos convence que jogar com as suas vítimas é tão importante para Linoge quanto conseguir o que quer, anulando assim a sensação de enrolação que o plot poderia ter.

O grande conflito do filme que King propõe é representado nas figuras de Linoge e do Xerife Anderson. Linoge acredita que a natureza egoísta do ser humano sempre vencerá no final, enquanto Anderson acredita na bondade das pessoas. O Xerife vivido por Tim Daly surge como um homem simples e o “arquétipo do homem comum”, conseguindo a proeza de ser um adversário à altura para o carismático vilão de Feore, demonstrando uma nobreza que nunca soa piegas ou ingênua. O clímax da minissérie, onde enfim descobrimos o que Linoge quer, leva a um dramático dilema moral que deixa o público roendo as unhas e confronta os dois lados do conflito citado acima.

A minissérie é uma fábula moral sobre o pecado da hipocrisia, e uma reflexão sobre o poder do medo e da fé. King sempre foi um autor religioso, e isso se reflete aqui no comportamento de anjo vingador do velho testamento de Linoge, que repete alegremente a frase “Quem nasce na luxúria enfrenta a fúria, quem nasce no pecado, é apanhado”. O fato de Mike ser retratado como um homem de fé também reforça o subtexto religioso da trama, mas tal subtexto nunca soa intrusivo ou descamba para a pregação.

A direção da minissérie ficou a cargo de Craig R. Baxley, que tem uma condução competente, porém discreta. Baxley consegue criar a sensação de claustrofobia exigida pela história, à medida em que os personagens tornam-se mais isolados. O diretor é igualmente habilidoso em sugerir grande violência em determinadas cenas sem de fato mostrar nenhuma, o que funciona perfeitamente com o tom adotado pela minissérie. A montagem por sua vez merece créditos por dar dinamismo à história, e ainda é habilidosa por não escancarar a natureza televisiva do projeto, evitando, por exemplo, aqueles fades para comerciais que eram tão comuns nas minisséries de TV dos anos 80 e 90. Alguns poucos efeitos especiais tornaram-se datados, mas nada que atrapalhe a imersão.

A Tempestade do Século é provavelmente o melhor roteiro já escrito por King, e mesmo não sendo uma adaptação, é digno de seus trabalhos literários. As mais de quatro horas da minissérie podem assustar, mas de fato passam voando pela forma com que King nos envolve em sua história. Com um vilão deliciosamente cruel e manipulador, e um maravilhoso crescendo de tensão que deságua em um clímax dramático, A Tempestade do Século é uma daquelas obras que ficam conosco depois que os créditos sobem e, portanto, merece ser redescoberta.

A Tempestade do Século (Storm of The Century)- EUA, 1999.
Direção: Craig R. Baxley
Roteiro: Stephen King
Elenco: Tim Daly, Colm Feore, Debrah Farentino, Casey Siemaszko, Jeffrey DeMunn, Julianne Nicholson, Dyllan Christopher, Becky Ann Baker, Spencer Breslin, Myra Carter, Nada Despotovich, Kathleen Chalfant, Jeremy Jordan, Ron Perkins, Steve Rankin, Adam Zolotin, Adam LeFevre, Denis Forest, Peter Macneill, Torry Higginson
Duração: 240 Minutos.

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13 comentários

Diego/SM 17 de março de 2021 - 13:34

Caramba… que viagem a minha – finalmente descobri o nome desse filme.

Lembro de ter visto lá por 99 ou 2000 e sabia que era coisa do Stephen King… mas na minha cabeça esse filme era o tal “O nevoeiro” kkkk – a premissa é meio parecida, não? (E assim, acabei nunca assistindo a “O nevoeiro”, achando que já tinha visto)…

Lembro que era um filme looongo mesmo… e que não curti lá muito, a bem da verdade (por isso sempre me surpreendi com as críticas tremendamente elogiosas a “O nevoeiro”, ao qual agora vou finalmente dar uma chance então hehe… e, bom, lendo a crítica aí, dar uma nova tb para este – qdo, e se, encontrar por aí kkkk)

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Alexandre Tessilla 15 de setembro de 2019 - 23:24

Uma obra incrível! Revi hoje e ainda soa tão atual. Fiquei com raiva do final, mas talvez fosse esse o propósito, nos fazer refletir. Achei tão injusto e ao mesmo tempo tão humano. Ótima crítica!

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Rafael Lima 20 de setembro de 2019 - 21:35

Definiu muito bem aquele final @alexandretessilla:disqus. Nos deixa com uma raiva tremenda, mas ao mesmo tempo é extremamente humano (no bom e mau sentido) dentro da situação que havia sido posta para os personagens. Como eu coloquei na resenha, é um final que fica com a gente muito tempo depois do fim da obra.

Um abraço!

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Edson Sanas Junior 14 de setembro de 2019 - 21:03

É um filme singular. Recentemente publiquei em uma faculdade um artigo sobre este filme, onde o mesmo propõe um debate moral entre a doutrina de Thomas Hobbes e Rousseau, em um dilema entre o Benefício Próprio e a Vontade Geral.

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Rafael Lima 14 de setembro de 2019 - 23:44

Foi uma otima sacada. Realmente dá para fazer uma análise do filme colocando em oposição essas duas doutrinas. O dilema que a obra apresenta no 3º ato e a forma como é conduzido é riquíssimo, podendo-se fazer várias leituras. Até fiquei curioso para ler o seu artigo.

Obrigado pela leitura e pelo comentário.

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Pablo 11 de setembro de 2019 - 22:20

Esperando pela crítica de Red Rose.

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Rafael Lima 14 de setembro de 2019 - 23:29

Assisti “Red Rose” há muuuuuuito tempo. Lembro de não ter gostado na época, mas teria que rever (lembro de pouca coisa). Mas vamos deixar na caixa de sugestões.

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Wagner Farias 6 de setembro de 2019 - 13:40

Filmaço. Gostava de pegar estas minisseries do king em VHS para “maratonar” no fim de semana. IT – uma obra prima do medo, Dança da morte, Tempestade do século, fenda no tempo, red rose, . Lembro que aquela referencia com o episodio de Roanoke foi assustadora.

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Rafael Lima 8 de setembro de 2019 - 17:15

Pois é. Nos anos 90 saiu uma porrada de minisséries baseadas na obra do King (nem todas boas), embora acho que a de maior qualidade seja mesmo “A Tempestade do Século”.

E a referência ao incidente de Roanoke foi mesmo uma baita sacada nesse roteiro do King.

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Teco Sodre 5 de setembro de 2019 - 11:10

Filmão (no tempo e na qualidade da história!). Por que esse roteiro não tem em PT-BR, MEU DEUS????

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Rafael Lima 5 de setembro de 2019 - 18:14

Pois é, o roteiro em forma de livro nunca foi traduzido por aqui.

King mando muito bem nessa minissérie, provando finalmente que podia, ao menos uma vez, escrever um ótimo roteiro.

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Bean 4 de setembro de 2019 - 22:49

Duas fitas VHS na locadora. O final é desesperador!

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Rafael Lima 5 de setembro de 2019 - 18:14

Um dos finais mais potentes que o Stephen King já escreveu, com certeza.

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