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Crítica | A Tenente de Cargil

por Laisa Lima
178 views (a partir de agosto de 2020)

Mulheres fortes sempre foram pilares para boas histórias. O sexo feminino, assim como pode ser visto através de olhos piedosos ou limitantes, consegue também ser representado de maneira a fazer jus à resistência do gênero. A demanda de preconceito e menosprezo sofrida por quem está neste enquadramento (literalmente), nas telas, foi observada por múltiplas concepções e concretizada de múltiplos jeitos. Se em obras, inclusive as mais clássicas, como Funny Girl – Uma Garota Genial (William Wyler, 1968), o sonho era o pretexto e o impulsor para o enfrentamento dos contratempos impostos pelo coletivo excludente, em Erin Brockovich – Uma Mulher de Talento (Steven Soderbegh, 2000), a personificação das dificuldades estava basicamente no sexo oposto. Já A Tenente de Cargil (Sharan Sharma, 2020) é um modelo de mistura entre o fantasioso e seus empecilhos reais. Mesmo que estes estejam envolvidos com o infinito.

O céu, como todos sabem, sempre foi de difícil alcance. Gunjan Saxena (Jhanvi Kapoor), no entanto, desde criança, se imaginava nos ares mas via algo palpável: o avião. Apesar dos alertas de seu pai, o desejo da jovem seguiu até se tornar a primeira mulher a pilotar um helicóptero de combate na Índia. Porém, com essa função vieram todos os males provenientes de um ambiente discriminatório; a repressão dos dominantes daquele meio fez-se uma constante na vida de Gunjan. O quartel, hegemonicamente masculino e considerado como uma amostra delimitada do pensamento de uma boa parte do corpo social do lado de fora, em 1999, é a zona em que a maioria das adversidades da protagonista irão se manifestar. Adversidades que, todavia, não serão suficientes para a derrota dela, nem corporal, e muito menos emocional.

A idealização com que é tratado o objetivo da personagem principal beira uma fábula. A luz superexposta e as cenas das “visões” de Gunjan relacionadas ao céu e a sua futura profissão, se assemelham a momentos de um devaneio infantil quase etéreo. Na generalidade do filme, o tom imaginativo, leve e, às vezes, cômico, não permite que uma dureza mais intensa seja notada durante as provações experienciadas pela protagonista, sendo formulaico a interação entre esses tais testes e sua consequente – e fácil – superação. A simplicidade na forma em que situações até revoltantes se dissolvem, como a falta de um vestiário feminino no quartel, carregam uma carga menor de indignação, por mais que seja natural e inevitável o questionamento diante de eventos tão dissonantes de uma realidade tolerante.

Ao tratar de uma crítica direta ao machismo, o aprofundamento nesta temática não é a preferência da obra. Por mais que a exibição de ocorrências originárias de tal vertente de pensamento, tais quais todo o percurso de Gunjan até sua conquista de respeito em seu espaço de trabalho, aconteçam, as falas claramente motivacionais demonstram o que o filme quer transmitir primordialmente: o incentivo ao empoderamento feminino. Essa virtude, contudo, pode ter sido mal trabalhada por conta da falta de um estímulo base. Até porque, o longa-metragem é estruturado com fundamento não na espera de um grande acontecimento, mas sim em uma junção de quase “esquetes” passadas pela futura piloto em sua formação, fazendo do clímax um ato até esquecido. 

A construção de episódios que reforçam e denunciam cada vez mais a masculinidade repressora dos homens em volta de Gunjan – não incluindo seu pai -, modificam o gênero do filme de Sharan Sharma, que até então estava embebido por músicas pop indianas e uma plástica na qual os cenários e seus componentes (inclusive os atores), eram perfeitos. No sentido de artificialidade. Até a introdução da protagonista – interpretada por Janhvi Kapoor com certa frivolidade -, paradoxal a de uma heroína, a distancia de humanos triviais, fato observado na maneira em que não existe empecilho poderoso o suficiente para revelar uma fraqueza da moça. A câmera, apesar de captar boas imagens aéreas, em situações de batalha, além de realizar cortes repentinos, acelera a imagem bruscamente com o intuito de criar a ação e a dinamicidade requerida para um combate, o que não necessariamente é funcional. Tentando quebrar aquele visual limpo mencionado acima, o esforço da diretora e da produção atraca na superficialidade, e não na agressividade de uma guerra.

A Tenente de Cargil se comunica em um cenário de um material fonte interessante e potencialmente promissor. Não obstante, as conveniências narrativas, como a trilha sonora auxiliar expositiva e o uso de câmera lenta para dar ênfase em momentos importantes, reduzem a obra a apenas uma tentativa de originalidade e imponência. A qualidade de seu recado e a conclusão eficiente no que se diz respeito a impressão de que mulheres são merecedoras de qualquer cargo e qualquer posição, seja na meritocracia ou no conceito social, faz o filme não ser descartável. Gunjan, assim, é um exemplar, principalmente na vida real, daquelas que enxergam além do horizonte e do pré-estabelecido local específico do sexo feminino. Sua história, portanto, precisava ser contada, mesmo que de um jeito que não estivesse à altura de sua relevância. O que vale é a intenção.

A Tenente de Cargil (Gunjan Saxena/ The Kargil Girl – Índia, 2020)
Direção: Sharan Sharma
Roteiro: Nikhil Mehrotra, Sharan Sharma
Elenco: Janhvi Kapoor, Pankaj Tripathi, Angad Bedi, Viineet Kumat, Riva Arora, Manav Vij, Abhiroy Singh, Vicky Ahuja, Ashish Bhatt, Rachana Parulkar, Gurnaaz Mittu, Raunak Bhinder, Maneesh Verma, Kapil Tilhari
Duração: 112 min.

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